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Full text of "Discurso histórico e crítico acerca do Padre Antonio Vieira e das suas obras"

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University  of  Toronto 


http://www.archive.org/details/discursohistriOOIobo 


DISCURSO 


HISTÓRICO  E  CRITICO 

Acerca  do 

PADRE   ANTÓNIO  VIEIRA 

E 

DAS  SUAS  OBRAS 

POR 

D.  Francisco  Alexandre  Lobo 

BISPO  DE  TIZED 


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COINIBRA 

Imprensa  da  Universidade 

18G7 


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DISCURSO 

HiaTORICO  E  CRITICO 


DISCUKSl) 


HISTÓRICO  E  CrJTICO 


ACERCA    DO 


PADRE   ANTÓNIO  VIEIRA 

E 

DAS   SUAS   OBRAS 

l»OR 

D.  Francisco  Alexandre  Lobo 

BISPO   Dl   VIZ£n 


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COI^/IlJKA 

Imprensa  da  Universidade 

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DISCURSO  HISTÓRICO  E  CRITICO 


ACERCA    DO 


PADRE  ANTÓNIO  VIEIRA  E  DAS  SUAS  OBRAS 


Tem  sido  nolavelmenle  vária,  e  até  contradictoria,  a  fama  do  celebre 
jcsuila  o  Padre  António  Vieira.  Passou  este  homem  entre  os  seus  contem- 
porâneos por  um  ecclesiastico  de  grande  espirito  e  zelo  fora  do  commum; 
por -um  negociador  penetrante  c  destro  em  matérias  politicas;  por  prín- 
cipe dos  oradores  cliiislãos,  ao  menos  em  Portugal:  mas  desde  o  meado 
do  século  WUl,  o  seu  zelo  foi  tido  em  menos  conta  de  puro  e  desinte- 
ressado; concedeu-se-llie  só  o  talento  de  formar  e  entreter  intrigas  cor- 
tezãs;  e  foi  reputado  orador  quasi  inteiramente  desprezível.  E  António 
Vieira,  tão  preconisado  e  elogiado  em  quanto  vivo,  e  ainda  largo  tempo 
depois  da  sua  morte,  e  que  acabou  suppondo,  com  certo  fundamento,  que 
as  edades  seguintes  sequer  o  não  honrariam  menos,  ficaria  bem  admirado 
e  confuso,  se  ouvisse,  passados  sessenta  ou  setenta  annos,  as  vozes  já  de 
indignação,  já  de  desprezo,  com  que  o  tem  tratado,  ou  maltratado,  a 
iwsleridade  * !  Grande  lição  por  certo,  c  claro  desengano  para  os  ardentes 


'  Vieira  mesmo  em  sua  vida  provou,  como  se  verá  na  continuação  do  Discurso, 
os  golpes  da  detrarrão  e  da  satyra;  mas  eram  censuras  ou  sarcasmos  de  poucos,  com- 
pensados pelo  aiiplauso  de  quasi  todos:  e  como  era  natural  que  elle  os  tivesse  por 
nascidos  da  inveja,  lambem  era  natural  que  o  acompanhasse  a  esperança  de  que  não 
durariam  além  da  sua  morte,  termo  ordinário  das  tramas  e  furores  da  inveja.  Veja-se 
André  de  Barros  1.  I,  5'  XLI,  1.  III,  ^  CLVII  1;  seg.,  I.  IV,  ^  CXXXI,  e  o  mesmo 
Vieira  nas  Cartas:  e  particularmente  nas  escriptas  de  Roma  e  da  Batiia. 


adoradores  do  idolo  capriclioso,  i]iie  dizemos  rei)ula(;ão  e  gloiia;  a  (niem 
gastam  a  vida  cm  servir  e  incensar,  e  por  t\m  perdem  lodo  o  a[iiiro  c  Ira- 
baliio,  que  empregaram  em  suas  cançadas  idolatrias! 

Pelo  exame  todavia  da  iiistoria  de  António  Vieira  e  leitura  das  suas 
obras,  teidio  formado  opinião  de  que  nem  a  sua  edade,  nem  a  seguinte 
lhe  fizeram  inteira  justira.  O  seu  século,  além  de  sor  juiz  menos  compe- 
tente, deixouse  allucinar  de  certo  prestigio,  que  acompanhava  os  talentos 
nada  vulgares,  e  a  incrível  promplidão  e  actividade  de  Vieira:  o  seguinte 
foi  em  parle  arrastado  de  ódio,  em  parle  levado  de  errada  antecipação; 
cerrou  quasi  acinlemeule  os  olhos  ao  seu  indisputável  merecimento;  e 
recusou,  com  muita  injustiça,  dar  as  desculpas,  que  imperiosamcnle  re- 
queriam as  circumstancias.  AniI)Os  p(jis  tenho  a  respeito  d"elle  por  injustos: 
com  a  dilferença,  que  nos  primeiros  juizes  me  parece  (|ue  influiu  mais 
um  erro  muito  natural,  e  por  isso  mesmo  muito  desculpável;  nos  segundos 
obrou  mais  ou  o  rancor,  ou  deferência  cega  ao  conceito  de  ardentes  e 
determinados  inimigos. 

Vou  referir  em  breve  o  que  com  muila  diligencia  alcancei  da  sua 
historia;  e  propor  o  juizo,  que  lenho  feito  do  seu  caracter,  dos  seus  talentos 
e  escriptos:  e  cuido  que  por  fim  assentarão  commigo  os  leitores  d'este 
opúsculo,  que  se  António  Vieira  não  mereceu  cabalmente  os  louvores,  com 
(jue  o  exaltou  o  seu  tempo,  disposições  leve  da  natureza  para  os  merecer; 
que  as  invectivas  do  tempo  posterior  foram  ainda  mais  mal  fundadas,  e 
merecem  maior  reparo;  e  que  tão  longe  está  de  obrigar  os  portugueses 
com  seus  escriptos  ao  desprezo,  que  por  elles  se  deve  reputar  um  dos 
varijes  mais  beneméritos  da  nossa  Halria. 

Sem  desprezar  a  historia  conlempuranea  de  Portugal,  que  dando  luz  a 
alguns  factos,  não  accrescentou  com  tudo  o  seu  num.ero;  as  principaes 
fontes,  de  que  recolhi  os  successos,  foiam  as  i)roprias  obras  de  Vieira,  a 
sua  vida,  composta  por  André  de  Barros  ',  e  os  escriptos  do  século  pas- 


>  O  jesuíta  Andrú  du  Barros  eiitnm  iki  Cunipanliia  cm  ICi)l.  Fui  frcpusito  rlarnsa 
professa  de  S.  Roque  e  um  dus  priíueiíus  aradcniicos  da  Acaduuiia  tical  da  Hisloiia. 
Publirou  era  1736  as  V(i:i's  Sai(dnsus  do  Vieira,  e  uonipuz  a  sua  vida,  imiiressa  cm 
Lisboa  em  174G.  Nesta  ultima  obra  é  mais  pancgyrisla  (jiie  historiador;  largo  e  até 
prolixo  em  coisas  menos  importantes,  e  nimiamente  conciso  nas  mais  graves;  e  emprega 
o  estyio  corrupto,  que  era  estimado  no  seu  tempo.  Admirando  com  razão  a  simplicidade 
e  candura  das  relações  que  escreveu  Vieira,  nem  por  isso  o  rpiiz  imiiar  na  da  sua 
vida. 


sado,  nascidos  da  renhida  e  accesa  contenda  com  os  jesiiitas.  Ao  que  rofe- 
reni  Vioiía  c  Barros  dei  porém  os  descontos  devidos  ao  amor  próprio,  c 
aos  atToclos  da  amizade  e  interesse  de  Corporação:  e  das  relações  do  ódio 
usei  com  advertência  mnilo  cautelosa;  separando  hcm  da  snltslancia  os 
accidenles  da  còr  forte,  e  talvez  grosseira,  com  (pie  a  paixão  a  (juiz  desfi- 
gurar, li  declaro  que.  se  me  enganei,  foi  mais  por  me  deixar  illndir  da 
amizade,  que  da  desalTeição;  porque  dado  que  ambas  sejam  egualmentc 
infiéis  nas  suas  pinturas,  o  intendimenio  e  coraçãn  humano  por  sua  con- 
formação (e  nesta  parle  nohre  conforniação)  é  mais  piecatado  contra  os 
traços  muito  rudes  e  ásperos  do  ódio.  que  contra  os  toques  macios  e  lison- 
jeiros da  amizade. 


O  Padre  António  Vieira  nasceu  em  Lisboa  a  G  de  fevereiro  de  1608. 
Seus  pães  foram  Cliristovam  Vieira  Ravasco,  qr.e  nasceu  na  Villa  de  Moira 
no  Alenilejo,  e  D.  Maria  de  Azevedo,  natuial  de  Lishoa  '.  lia  grande  razão 
de  presumir  (|ue  Christovam  Vieira  procedeu  de  famílias  muito  hoiuadas 
e  antigas;  ipie  tinham  alliança  C(un  os  Limpos  Lacerdas,  a  (jue  [tertencia  o 
.-\rcebispo  e  Senhor  de  Braga  I).  Fr.  Ballliazar  Limpo,  tamhem  nascido  em 
Moira-.  Da  qualidade  de  D.  Maria  de  Azevedo  não  temos  noticia;  e  só 
podemos  conjecturar,  sem  nuiila  temeridade,  (\na  enq)arelhava  com  a  de 
seu  marido^.  Mas  Anlonio  Vieira  foi  um  destes  hoincns,  como  hem  adverte 
o  seu  biograplin,  cuja  reptUação  e  celebridade  dá  lustre  aos  seus  antepas- 
sados, em  vez  de  os  receber  do  esplendor  da  sua  origem:  e  Christovam 
Vieira  não  seria  hoje  lembrado,  a  não  ler  este  fdho.  que  por  notável 
engenho  c  egual  applicação  foi  dislincjo  ornamento  do  seu  século  em 
Portugal. 


»  Veja-su  Aiiiliv  d.'  li.nirts  I.  V,  §  CCLXXXt. 

*  Tudo  islo  insiuiia  nu  lugar  cilado  André  do  Barros;  i;  nós  podemus  afflrmar  i|ue 
ha  jioucus  ânuos  (1817),  que  Limpos  Lacerdas.  natiiracs  c  moradores  em  .Moira,  se 
prezavam  de  llavaseos,  e  repulavam  seu  lionradu  tronco  tlny  I^ouroriço  Ilavaseo,  (pie 
em  14il  passou  de  Castclla  para  Moira,  onde  casou  com  Leonor  de  Pino,  e  de  quem 
descenderam  muitas  Taniilias  graves  do  Alemlejo.  de  Lisboa  t:  da  íícira. 

'  É  de  sujtpàr  da  pnipi^ns.ío  oídinaria  paivi  a  egualdade  no  matrimonio;  e  mais 
ainda,  por  constar  da  educ-ac;."io  muito  culta  o  polida  de  I)  Maria  de  A?i'vi'ilo.  Veja-se 
André  de  Barros  I.  V.  t  CCLXXX. 


Não  declara  André  de  Barros,  nem  pudemos  saber  por  outro  meio,  os 
motivos  por  que  Chrislovam  Vieira  Ravasco  deixou  o  reino,  e  se  passou 
com  a  sua  família  para  a  cidade  da  Bailia  de  Todos  os  Santos,  noBrazil. 
É  certo  porém  que  o  fez  por  fins  de  1615,  quando  seu  filho  António 
Vieira  não  liniia  ainda  completos  oito  annos  de  edade.  E  como  Bernardo  Vieira, 
filho  também  de  Cliristovam,  foi  depois  secretario  do  governo  naquelle 
estado,  é  de  suspeitar  que  seu  pae  sahiu  do  reino,  se  não  com  o  mesmo 
emprego,  com  qualquer  outro  encargo  publico  de  alguma  importância; 
nem  se  pôde  imaginar  que  se  passasse  para  o  Brazil  com  a  família  por 
outra  razão  de  menor  substancia,  ou  menos  airosa.  Antes  aquella  suspeita 
é  ajudada  pela  representação  posterior  dos  filhos  e  filhas  de  Chrístovam 
Vieira,  que  ou  seguiram  e  exercitaram  profissões  e  cargos  honrados  *,  ou 
se  alliarara  em  casamento  com  as  pessoas  de  mais  importância  em  sangue 
e  fazenda,  que  então  erão  conhecidas  naquella  parte  da  America  portu- 
guesa '. 

Posto  que  alguns  engenhos,  e  não  são  talvez  os  menos  próprios  para 
grandes  coisas,  se  expliquem  ou  desenvolvam  com  vagar,  e  até  muito  de 
espaço,  são  promptos  de  ordinário  os  melhores  em  dar  de  si  decididas 
mostras.  O  de  António  Vieira  foi  da  teini)er,i  destes  últimos:  e  referem-se 
delie  respostas  e  ditos  na  puerícia,  (jue  quadram  com  a  rara  vivacidade, 
que  ao  depois  se  admirou  até  'aos  ullimos  dias  da  sua  vida  ^.  Porque  é 
de  notar,  como  outro  argumento  de  espirito  extraordinário,  que,  se  princi- 
piou a  brilhar  muito  cedo,  nem  por  isso  deixou  de  luzir  até  ao  ultimo 
termo  da  edade  avançada,  em  que  falleceu  *.  Pelo  commum  declinam  com 


*  É  bem  sabido,  no  que  diz  respeilo  a  António  Vieira.  Seu  irmão  Bernardo  Vieira 
foi  o  primeiro  secretario  d'estado  de  todo  o  Brazil,  em  que  teve  por  successor  seu 
filho  Gonçalo  Vieira  Ravasco  Cavalcante  de  Albuquerque,  e  foi  alcaide  mor  da  cidade 
d'Assumpção  do  Cabo-Frio.  Veja-se  Andr.  de  Barros  1.  V,  §  CCLXXXVII. 

*  D.  Ignacia  de  Azevedo  Ravasco  casou  com  Fernão  Vaz  da  Costa  Uoria;  D.  Ca- 
tharina  Ravasco  casou  com  Ruy  de  Carvalho  Pinheiro,  o  Moço;  outra,  que  se  não  nomeia, 
casou  com  Jeronymo  Sodré  Pereira,  pessoa  de  muita  qualidade;  D.  Leonarda  de  Aze- 
vedo Ravasco  finalmente  casou  com  o  desembargador  João  Alvares  de  la  Penha;  c  com 
elle,  com  um  filho  e  quatro  filhas  pereceu  em  triste  naufrágio  no  oceano,,  quando 
voltavam  para  Portugal.  Veja-se  Barros  ibid.  §  CCLXXXX,  e  §§  LXVI  e  LXVII. 

'  Veja-se  Barros  ibid.  1.  I.  §'.  VI. 

*  António  Vieira  falleceu  de  89  annos  a  18  de  julho  de  1697:  e  no  HI  vol.  das 
suas  Cartas  se  podem  ver  três,  78.  89,  9:?.  escriptás  a  24  de  junho,  6  e  dO  de  julho  do 
mesmo  anno,  em  que  não  acho  difrerenca  das  da  edade  mais  llorente. 


os  nossos  órgãos,  por  eÉfeito  do  correr  dos  annos,  as  faculdades  mentaes 
do  homem,  e  poucos  são  os  vcllios,  (jue  se  não  (lueixam,  com  maior  ou 
menor  razão,  d'esla  triste  decadência;  e  tanto  mais,  quanto  seu  espirito  foi 
mais  vivo  e  vigoroso  na  cdade  florente:  ou  porque  na  verdade  maior  dis- 
pêndio da  sua  forca  deve  produzir  maior  cançaço  e  altenuação,  ou  porque 
muito  habituados  á  sua  promptidão  e  alento,  de  qualquer  signal  contrario 
são  propensos  a  arguir  larga  diíTerença.  António  Vieira,  opprimido  com  o 
peso  de  muitos  annos,  provado  em  muitos  e  grandes  trabalhos,  combatido 
de  moléstias  varias,  dilatadas  e  perigosas,  privado  do  uso  dos  principaes 
sentidos  ',  conservou  a  firmeza  da  memoria,  a  subtileza  e  penetração  de 
intendimento.  e  até  a  facilidade  de  expressão  pura  e  clara,  ([ue  suppõem 
juntamente  a  mais  prompta  reminiscência,  e  a  maior  distincção  de  con- 
ceitos e  de  idéas  '*. 

Não  passou  muito  tempo,  depois-  que  desembarcou  com  seus  pães  na 
Bahia,  sem  se  applicar  ao  estudo  de  humanidades  nas  escholas.  Os  jesuítas 
no  reino  e  suas  colónias  e  conquistas  estavam  então,  e  estiveram  muito 
depois,  em  plena  posse  da  educação  da  mocidade  no  tocante  ao  estudo  de 
lettras.  Se  tal  posse  foi  ou  não  prejudicial  á  litteratura  portuguesa,  tem 
sido  questão  muito  debatida;  e  talvez  seja  mais  embaraçada,  do  que  se 
julga  vulgarmente  ^.  Desde  o  principio  tiveram  entre  nós  o  seu  methodo  e 
propósitos  de  instrucção  clássica  graves  detractores;  e  foi  este  um  dos 
lados,  por  que  no  ultimo  conllicto  os  combateu  mais  vivamente  a  animosi- 
dade dos  contrários.  È  certo  além  d'isso  que  a  nossa  litteratura  declinou 
quasi  desde  o  momento,  em  (jue  elles  por  este  modo  a  entraram  a  dirigir. 
Mas  os  primeiros  detractores  podiam  ser  obrigados  ou  de  interesses,  ou  de 
emulação:  as  exaggerações  dos  últimos  são  tão  pitas,  (jue  põem  lodo  o 


'  Nas  carias  77  e  78  do  vol.  III  dá  uili!  mesmo  nuticia  da  falia  de  vista  e  ouvido, 
scniidos,  dos  qhocs  desfissistidít  a  alma,  quasi  está  wsta  cama  nu  estado  de  separada. 

'  Dão  evidente  prova  as  Ires  carias  allegadas,  escriptas,  poucos  dias  antes  da  sua 
morte,  á  Senhora  D.  Calliarina,  rainha  da  Gran-Bretanlia,  ao  duque  de  Cadaval  e  ao 
seu  secretario;  em  subsl.ancia  e  estyio  bem  dignas,  as  primeiras  duas,  de  Vieira  e  das 
personagens,  a  (|ue  as  dirigiu. 

'  Sem  hesiUiíjão  se  allirma  vulgarmente  (pic  os  jesuítas  corrom|ieram  o  liom  gosto : 
mas  quem  ponderar  bem  asrellexòes.  que  aqui  aponlamos,  e  se  lembrar  de  que  ainda 
antes  dos  jesuiUis.  ou  pouco  menos,  surgia  o  máu  gosto  em  Ilalia.  c  (|ue  d'alli  passou 
para  Castella  e  para  Portugal,  cuido  que  resolverá  nesta  maleria  com  maior  descon- 
fiança. 


10 


Iiomom  judiciíis»  cm  niiiila  desconfianra :  e  sabido  é  que  a  lógica  mais 
acautelada  |)roliibc  altribuir,  som  boa  consideração,  quabiucr  elTeilo  ao  que 
proximameiíle  lhe  precede. 

O  que  não  soffre  dúvida  é  que  em  França,  onde  os  jesuilas  iníluiram 
na  côrle  pouco  monos,  so  acaso  foi  menos  que  em  Portugal,  e  onde  tam- 
bém dirigiam  a  mocidade  nas  escliolas,  o  século  sempre  famoso  de  Luiz  o 
Grande  abriu  e  ci.Mrou,  durando  em  flor  e  vigor  esta  sociedade  ' ;  que 
alguns  dos  liomons  grandes  em  IcUras,  que  o  bouraram,  foram  jesuítas  ^;  e 
que  Voltaire  se  prezava  muito  de  ter  aprendido  nos  seus  piimeiros  annos 
com  o  Padre  Poreo.  Não  me  sinto  apaixonado  dos  jesuilas;  nem  ba  para 
que,  ou  ainda  porque :  mas  a  rellexão  me  tem  feito  conbecer  por  varias 
vezes,  que  uma  geral  e  assentada  opinião  carece  era  muitos  casos  de  bom 
fundamento. 

Porém  deixada  uma  questão  difficultosa,  que  acbn,  de  mais  a  mais, 
mnilas  pessoas  ainda  fortemente  prevenidas  pela  parte  affirmativa;  não  ba 
dúvida  que  António  Vieira  entrou  a  estudar  as  bumanidades  no  collegio 
da  Habia :  e  talvez  foi  usta  uma  das  maiores  razões,  se  não  foi  a  maior, 
por  que  depois  se  determinou  a  abraçar  o  instituto  dos  jesuilas. 

Se  os  jesuítas  se  portassem  imparcialmente  a  respeito  do  estado  o 
estabelecimento  seguinte  dos  moços,  qne  ensinavam,  andariam  com  primor 
e  desinteresse  muito  clirislão.  Mas  têm.  sido  accusados  do  desprimor  e 
cubica  em  contrario:  e  se  o  natural  ^desejo  a  favor  da  própria  corporação 
torna  este  erro  desculpável,  lambem  o  torna  muito  crivei.  Para  quem  se 
propõe  com  ardor  os  proveitos  e  credito  da  sua  corporação,  é  tentação 
na  verdade  muito  forte,  o  conhecer  os  sujeitos  para  isso  mais  apropriados, 
e  conhece-los  em  edadc,  em  (]ue  melhor  se  pôde  influir  nas  suas  resolu- 
ções. E  tal  era  a  condição,  em  que  se  achavam  de  continuo  os  jesuítas, 
com  os  mancebos  qne  frequentavam  as  suas  escbolas.  Em  razão  da  candura 
e  franqueza  daqueila  edade,  e  da  observação  e  penetração  própria,  conhe- 
ciam perfeitamente  as  índoles  e  propensões  dos  seus  alumnos;  e  desejavam 


Ueixaiulo  (iiiin.s,  ú  iml.iri:i  ;i  ([ulmii  leia  (iiialiniri-  cniiliecimeiai)  da  liistoria  de 
Frauça,  a  grande  iunueacia,  que  na  sua  corte  attribueni  (j.s  escriptures  aos  dois  jesuítas, 
l)or  ISSO  muito  famosos,  !e  'Mlicr  e  la  Cham\ 

»  Fez  certamente  honra  áquelle  século  notável  a  enidieão  vasta  c  apurada  de 
Sn-mondo  e  Petavio:  o  l\'idre  Bourdaloue  restituiu  e  aperfeiçoou  a  eloquência  do  púl- 
pito; depois  das  Gcorgicas  de  Virgílio,  lemos  ainda  com  muito  prazer  as  poesias,  tão 
engenhosas,  como  elegantes,  de  Rapin  e  de  Vanière. 


n 


com  affeclo.  oii  paixão  anienlissima,  as  vaiilagens  c  lionra  do  seu  insli- 
luto,  cuja  profissão  tiiiliam  aliás  no  conceilo  da  mais  segura  e  crescida 
fortuna. 

André  ilo  Barros  allribuc  a  resolução,  que  tomou  António  Vieira,  de 
abraçar  o  inslilulo  josuilico,  á  sua  prt)pria  reflexão  sobre  ccila  liisloria 
piedosa,  (|!;e  ouviu  referir  a  um  pregador '.  E  declara  que  nisto  segue 
o  depoimento,  que  Vieira  deixou  por  escripto  de  sua  mão.  Mas  pouco 
decidem  a  declaração  e  depoimento  do  um  e  do  onlro.  A  sagacidade,  que 
se  não  pode  negar  nos  jesuilas  em  grande  parle  dos  seus  comportamentos, 
levava-os  muito  a  trabalhar  [lor  caminhos  encobertos.  Não  chamavam  dire- 
ctamente o  alumno,  que  mais  pretendiam;  mas  por  discursos  e  práticas, 
que  pareciam  ler  dilTorente  alvo,  o  dispunham  a  desejar  a  perfeição  da  vida 
cenobilica :  qnasi  certos  de  que  bem  inflammado  uma  vez  este  desejo, 
uão  hesitaria  o  mancebo  em  preferir  por  varias  considerações  o  seu  insti- 
tuto aos  outros  instilutos  regulares.  O  mesmo  candidato  cuidava  que  o 
trazia  o  próprio  movimento,  quando  na  verdade  obedecia  ao  impulso  alheio. 
Assim  podia  succedcr,  e  snccedeu  [)rovavelmente,  a  Aulonio  Vieira ;  em 
ijuem  concorriam  insignes  parles,  que  o  faziam  mais  de  cubicar,  e  (juo  por 
isso  mesmo  obrigavaiu  os  jesuilas  a  maior  empenho  e  a  não  menos  cautela. 

Na  noite  de  5  de  maio  de  IGÍ3,  em  cdade  pouco  acima  de  !S  annos, 
fugiu  António  Vieira  da  casa  de  seus  [>3es,  e  procurou  o  collegio  da 
Companhia.  Foi  recebido  dos  jesuilas  com  muilo  contentamento,  e  tratado 
com  o  agasalho  devido  a  tal  sujeito,  e  ás  mostras,  que  ellc  dava  de  affeição 
à  Sociedade  *.  Seus  pães,  que  liiiham  outros  intentos,  poseram  grande 
elQcacia  em  o  dissuadir,  mas  o  mancebo  resistiu  a  tudo;  e  não  consta 
que  os  jesuítas,  altendendo  às  instancias  de  Christovam  Vieira,  e  á  verdura 
dos  annos,  cm  que  seu  filho  arriscava  um  passo  Ião  importante,  ajudassem 
as  diligencias  dos  parentes,  como  se  devia  esperar  de  pessoas  de  inten- 
dimenlo  e  desinteresse.  K  ao  menos  André  de  Barros,  dando  conla  do 
airororo  com  que  foi  recebido,  dos  combates  dos  parentes,  e  da  firmeza 
com  que  foram  resistidos  de  Vieira,  uão  dá  indicio  algum,  d"onde  se  possa 
inferir  que  os  seus  .sócios,  pondo-se  da  parte  da  familia,  lhe  aconselharam, 
em  negocio  Ião  grave,  mais  vagar  e  maior  pondei'ação. 


'  Veja-se  Andr-  do  Harios  I.  I,  %  Xlll.  c  o  mesmo  Vioira   vol.  Vil  Seini.  VI 
N.  iO;i. 

*  Barr.  ibiJ ,  ^  .\V1. 


12 


Durou  a  provação  até  6  de  maio  de  1625,  dia  em  que  professou;  e 
proseguiu  logo  dos  estudos,  admirando  os  coiidiscipulos  e  os  mestres  com 
a  promptidão  e  alto  grau  de  aproveitamento.  O  applauso  porém  dos  seus 
progressos  litterarios  não  o  enlevou  de  lai  sorte,  que  resolvesse  fazer  do 
estudo  das  Boas  Artes  e  Sciencias,  como  succede  á  maior  parte  dos  bons 
engenhos  provados  nas  classes,  o  emprego  principal  das  suas  applicações 
e  trabalhos.  Como  que  esta  gloria,  por  fácil,  era  insufficiente  a  satisfazer 
o  seu  coração!  Propôz-se  correr  por  caminhos  mais  árduos  e  menos  tri- 
lhados. Fez  voto,  pouco  depois  da  profissão,  de  gastar  a  vida  instruindo 
nas  doutrinas  da  religião  christã  os  escravos  africanos,  e  os  boçaes 
gentios  do  sertão  do  Brazil.  Aprendeu  para  isso  as  linguas  brazilica  e  de 
Angola;  e  sem  declarar  ainda  o  voto,  que  havia  feito,  entrou  a  desempe- 
nha-lo nas  occasiões,  que  se  iam  offerecendo.  As  almas  muito  activas,  e 
que  do  seu  poder  têm,  mesmo  implicitamente,  grande  confiança,  alvoro- 
çam-se  e  accemlem-se  com  as  ditficuldades,  desprezam  o  mais  seguido  e 
commum,  e  só  procuram  o  que  é  menos  vulgar  e  mais  custoso.  Tal  era 
certamente  a  de  António  Vieira ;  e  taes  são  as  dos  homens  raros,  que  por 
obras  extraordinárias  enchem  de  assombro  os  seus  contemporâneos,  e  dão 
largo  e  durável  brado  na  posteridade  *. 

Continuava  entretanto  os  estudos  de  humanidades,  em  que  os  jesuitas 
costumavam  demorar-se.  Nos  seus  edifícios,  que  vemos  ainda  hoje,  não 
procuravam  tanto  a  elegância  da  forma,  como  a  consistência  e  duração. 
Na  profundidade  e  segurança  dos  alicerces,  na  robusteza,  travado  e  apru- 
mado dos  muros  punham  o  esmero  principal.  O  mesmo  era  no  edifício  lit- 
terario,  de  que  elles  tinham  as  humanidades,  e  com  razão,  por  fundamento. 
Eu  não  posso  approvar  sobejo  cuidado  em  alicerces ;  todo  o  excesso  tem 
de  certo  inconvenientes :  mas  a  decidir-me  por  algum  dos  extremos  oppos- 
los,  antes  escolhera  o  dos  jesuitas,  que  o  dominante  hoje  em  dia  por  toda 
a  Europa. 

Os  alicerces  são  agora  muito  superflciaes  c  mal  seguros ;  e  o  que  se 


'  Como  o  meu  fim  não  é  CDcareccr  além  díi  verdade  Ijiista,  confesso  que  o  assom- 
,  l)ro,  que  causou  Vieira,  e  o  brado,  que  deu,  nem  foi  sobejanioute  largo,  nem  promette 
a  durarão  indefinida,  que  chamamos  em  taes  casos  immortalidade:  mas  o  que  eu 
airmno,  e  é  certo,  é  que  assombrou  e  deu  brado  que  durou  e  durará  na  posteridade, 
e  que  se  nas  obras  não  egualou  os  homens  verdadeiramente  grandes,  podia  eguala-los; 
pois  que  as  suas  faculdades  não  eram  menos  extraordinárias,  que  as  de  muitos  d'elles. 


13 


segue,  é  que  as  uossas  aicliilecluras  primeiro  são  ruiiias,  que  cheguem 
a  ser  edifícios.  .Mulliplicaui-sc  qu.i>i  a  inliuilo  as  empresas  deste  género; 
mas  as  obras  que  desafiam  o  lempo,  que  promelleui  immorlaiidade,  são 
neuliumas.  Kallaudo  sem  ligura,  muitas  são.  e  aiiula  mais  que  uiuilas,  as 
pessoas  que  agora  recebem  aigimia  leve  tintura  de  leltras ;  porém,  se  com 
isso  a  impertinente  piesumpção  v  nmitd  vulgar,  a  verdadeira  sabedoria 
è  sempre  rara:  e  stMique  u  será,  [lor  mais  que  se  imaginem  alvitres  de 
espalhar  larga  u  rapidamente  a  instructjão  ;  us  quaes.  dado  ipie  se  realizem, 
farão,  se  me  não  engano,  mais  presumpçusos  e  iuciujelos,  mas  não  farão  os 
homens  ao  lodo  mais  sábios,  nem  melhores*. 

Cluando  Vieira  professou,  pouco  mais  tiuha  de  dezeselc  aimus ;  e  já  os 
que  presidiam  no  collegio  o  encarregavam  de  compor  as  carias  latinas 
annuaes  por  que  a  provincia  do  Hrazil  usava  conimunicar-se  e  dar  conta 
de  si  ao  superior  governo  da  Sociedade  na  Europa  *.  Tal  encargo  requeria 
discreção  para  avaliar  e  escolher  os  acontecimentos,  prudência  para  bem 
dispor  a  sua  narrativa,  propriedade,  clareza,  e  cerla  graça  de  estylo,  e  de 
eslylo  latino :  e  tudo  isto  uelle  reconheciam  os  discretos  da  sua  corporação. 
De  dezoito  aunos  foi  mandado  para  Olinda  ler  rhelorica ;  e  nessa  edade 
compoz  Commenlarios  ás  Tragedias  de  Séneca  e  talvez  às  Metamorplioses 
de  Ovidio^  K  poslo  que  as  severas  leis  do  regulamento  lilterario  dos 
jesuítas  lhe  não  permiltissem  Ião  cedo  frequentar  as  aulas  de  Theologia, 
nem  mesmo  as  de  1'hilosolia:  atreveu-se  com  tudo  a  commentar  o  Livro  de 
Josué,  e  até  o  dos  Cantares  *.  liste  arrojo,  evidente  eífeito  de  Ímpeto  juvenil, 
mostra  pouco  conselho.  Só  a  falta  d  elle  se  abalançaria  em  taes  circumstan- 
cias,  a  empresa  de  tamanha  dilliculdade,  pela  erudição  vasta  e  recôndita, 


'  Os  liUcratos  bem  aproveitados  são  .senipri'  poucos,  já  em  razão  da  raridade  dos 
grandes  talentos,  já  por  falta  de  educação  e  outras  circumstancias;  os  meios  htteratos 
são  sempre  perigosos.,  pela  comliiDação,  quasi  iuíjllivel,  de  fiaca  sufliciencia  com 
ousadia  presumida:  e  destas  duas  aflirmalivas,  ou  evidentes  ou  de  prova-muito  fácil. 
I>em  se  segue  que  com  a  vulgaridade  dn  instruerão  lilleraria,  ha  de  crescer  o  perigo, 
sem  adíantamentn  da  suLi'doria. 

»  Veja-se  André  de  Barr.  1.  I.  §  XX. 

'  Posto  que  Barros  (ibid.  §  XXII)  dá  nuticia  d'esli's  dois  Comuientarios,  não 
adirma,  cum  tudo,  que  fosse  composto  então  o  das  Metamorplioses;  e  este  é  o  motivo 
d:i  nossa  hesitarão. 

'  Barr.  ibid.  §  XXlll,  diz  que  este  trabalho  foi  emprehendido  —  ainda  antes  de 
limiar  20  annos  de  edmie  —  o  que  da  pelo  ti-inpo  da  residência  em  Pernambuco,  ou 
({uaái  logo. 


14 


inorunda  doutrina  llieologicn,  c  sagacidade  de  atinado  senso  critico,  que 
reqner.  1'orcni  mostra  ao  mesmo  tempo  uma  superabundância  de  aclivi- 
dado,  um  gentil  denodo  de  resolução,  de  que  Lem  se  podiam  prometler 
e  esperar  grandes  coisas  em  ânuos  de  mais  assentado  iiitendimenlo. 

Por  vinte  ou  vinte  e  um  de  edade,  parecendo  aos  superiores  que  se 
achava  em  estado  de  empreliender  mais  altos  estudos,  resolveram  que 
entrasse  no  ordiuaiio  curso  de  Philosofia,  para  passar  finalmente  a  ouvir  as 
doutrinas  tlieologicas.  Foi  neste  passo  que  António  Vieira  declarou  o  voto, 
que  d'antes  fizeia,  e.  publicou  a  sua  tenção  de  renunciar  o  descanço  e 
gloria  da  profissão  das  letlras,  para  se  entregar  todo  á  direcção  chrislâ 
c  conversão  dos  africanos  e  brazis*.  Com  o  mesmo  ardor  e  instancia,  com 
que  outro  pediria  que  o  acceilassem  nas  escholas,  e  o  admittissem  ao 
caminho  socegado  e  Iionroso  do  magistério,  rogou  e  supjjlicou  Yieira  que 
o  deixassem  no  grau  mais  rasteiro,  mas  livre  i)ara  seguir  o  seu  projecto, 
tão  cangado  e  diílicil,  como  era  piedoso.  Porém  os  superiores,  julgando 
que  não  deviam  giaiide  allenção  a  um  voto,  que  em  razão  da  edade  se 
podia  reputar  mais  pio,  que  avisado;  e  não  querendo  privar. a  Sociedade 
dos  avultados  proveitos,  que  juslamenlo  se  esperavam  dos  talentos  insignes 
de  Vieira,  foram  de  outro  parecer  ;  e  irritando  o  voto,  o  mandaram  conformar 
com  sua  resolução :  na  supposição  muito  provável  de  que  o  fervor  aquie- 
taria com  o  tempo ;  e  que  Vieira  lhes  agradeceria,  depois  esta  opposição 
á  sua  vontade  actual.  A  experiência  todavia  provou  o  contrario;  porque  na 
edade  madura,  Vieira  mostrou  o  mesmo  alvoroço  e  brio  para  seguir  a(juelles 
propósitos. 

Obedeceu  coiiiludo  e  conformou  se  com  a  resolução  dos  superiores, 
principiando  a  estudar  Philosofia.  Da  sua  penetração  cm  comprehender, 
da  subtileza  e  força  em  arguir  falia  aqui  o  biographo  nos  termos  mais 
encarecidos  ^  E  a  julgar  pelos  argumentos  de  penetração  e  sulitileza,  de 
que  abundam  os  seus  escriplos,  e  os  sermões  em  especial,  devemos  crer 
que  Barros  não  exaggera.  É  admirável  a  finura  e  agudeza  com  que  elle, 
jias  suas  empresas  mais  extravagantes,  parece  sondar  peifeitamente  abys- 
mos,  apartar  duvidas,  e  sahir  dos  euleios  mais  im[)licados^'  Não  é  muitas 


BaiT.,  ilíid.,  s§  XXIV— XXVI. 

BaiT.,  ihid.,  §§  XXVll. 

Occorrein  »  Ciulii  passo  nos  siTinòcs  arguiiirntus  il\>sla  pcnctiarrid  c  sulHileza  : 


15 


vezes,  senão  fábrica  phaulaslica,  ou  magica,  que  c^.in  o  menor  impulso  da 
razão  se  desfaz  e  resolve  em  fumo  e  nada ;  mas  tem  appareucia  (pie  illude. 
prova  grande  poder  e  cerla  virlude  creadora  na  privilegiada  niLiile,  ijue 
a  levantou.  Laslima-se  o  leitor,  e  porventura  iudigna-se,  de  ver  lao  mat 
gasta  tamanha  virtude  de  engenho:  mas  não  pôde  deixar  de  a  reconhecer 
com  certo  assombro  e  maiavillia. 

Ia  tanto  adiante  dos  mais  o  vasto  alcance  deste  espirito  raro,  que  em 
quanto  era  nas  aulas  ou\inte  de  Pl.iiosufia,  compunha  no  seu  particular  um 
curso  phiio.^oQco '.  li  «pian.lo  dei.ois  frequentava  as  aulas  theologicas, 
sahiu  com  tratados  e  questões  de  tal  substancia  e  valia,  que  teve  dos 
superiores,  não  direi  disi.ensa  ou  iseiu;ão  de  mero  tavor,  mas  i)OMli\a 
determinação,  para  não  tomar  as  posliUas  de  oulreni.  Era  o  mesmo  que 
confessar,  que  ao  tempo,  em  que  se  considerava  como  discípulo,  possuía 
cabedal  bastante  para  si-r  mestre.  Declaravam  com  elíeilo  os  mestres,  que 
não  tinha  que  apprender  dclles ;  e  promptos  estavam  os  companheiros  a 
lhe  conceder  a  primazia  sem  emulação:  que  talvez  é  o  triumpho  mais  raro 
e  menos  equivoco,  que  pode  ganhar  um  grande  talento,  reduzir  os  que 
estariam  na  razão  de  lhe  disputar  o  passo  como  emulos.  a  reconhecerem 
que  lhes  não  é  permillido  entrar  com  elle  em  competência. 

\utes  de  se  ordenar  de  presljylero  em  dezembro  de  1G35,  e  nos  annos 
posteriores  até  1()U),  seguiu  na  Bahia  e  suas  vizinhanças  o  púlpito  com 
•M-ande  heqnencia  ;  em  cujo  ministério  assentou  a  maior  parte  da  sua  cele- 
bridade, e  consistiu,  quanto  a  mim.  a  menor  do  seu  verdadeiro  mereci- 
mento*. No  volume  Xli  dos  sermões  se  acha  estampado  um,  que  pregou 
em  10;]3 ;  o  volume  V  oilerece  outro  pregado  em  1034 ;  e  nos  volumes 
desde  o  II  ao  XI  vem  dispersos  dez  ou  onze,  que  inconteslavehnente 
foram  compostos  de  lU3o  até  IG40  3. 

guando  M.  Tullio  aos  vinte  e  oito  annos  da  sua  etlade  deleudeii  a  mno- 


e  cm  muito  maior  fioiiuuncia  nos  íciiuõcs  menos  Ji^nos  de  estimarão.  E  iromo  aquella 
.•a5ta  (1.;  talento  era  tida  dos  contemporâneos  cm  muito  incn.,  fui  uma  das  maiores 
razões  do  aiipiaiíso  de  Vieira. 

'  naiT.  1.  1.,  S  XXVIII. 

«  o  mercdmento  indisputável  de  Vieira,  em  quanto  escriptor,  consiste,  se  me  nao 
engano,  na  propriedade,  clareza,  decoro  dos  escriplos,  ipie  não  são  oratórios,  o  no 
perfeito  uso  da  lingua  portuguesa  cm  todos:  mas  os  oratórios  é  que  o  lizeram  famoso, 
e  não  sei  se  diga.  que  em  razão  dos  seus  vicios. 

'  De  23  até  :}2  annos  de  edadc;  pois  que  Vieira  nasceu,  como  dissemos,  cm  100». 


16 


cencia  de  Roscio  Araerino,  os  bons  juizes  notaram,  e  notamos  nós  ainda 
agura  na  sua  oração,  aquellas  verduras  e  signaes  de  gosto  errado  ou  im- 
perfeito, que  elie  reconheceu  e  emendou  depois',  e  de  que  se  mostra  tão 
afastado  na  defesa  famosa  de  Ligario,  e  nas  invectivas  contra  Catilina  e 
contra  Marco  António^.  É  com  tudo  claro,  que  o  defensor  de  Roscio  já 
promette  o  de  Ligario  e  de  Milão ;  e  que  d'aquelle  primeiro  discurso  se 
podia  e  devia  inferir  que  os  annos  consumiriam  o  sobejo  viço,  e  trariam  a 
eloquência  sã  e  robusta,  que  devia  maravilhar  e  ensoberbecer  Roma,  como 
na  verdade  veiu  a  succeder. 

Este  nosso  Tullio  porém,  posto  que  entre  vinte  cinco  ou  vinte  seis  annos 
e  vinte  oito  de  edade  não  haja  grande  differença,  nem  podia  admirar  ura 
juiz  bera  entendido,  nem  lhe  podia  prometter  grande  melhoramento,  e 
muito  menos  eloquência  consummada  de  futuro.  Não  quero  antecipar  espé- 
cies, e  guardo  para  occasião  mais  opportuna,  quanto  á  rhetorica  do  púlpito, 
o  exame  e  reprehensão  dos  defeitos  de  Vieira,  e  das  suas  causas.  Mas 
direi  brevemente,  que  Tullio  mostrou  a  favor  de  Roscio  maiores  e  mais 
próprias  disposições  para  a  eloquência ;  que  o  seu  vicio  era  tal,  que  cora 
o  tempo  quasi  necessariamente  se  devia  corrigir  ^;  e  que  nos  reparos  dos 
seus  competidores  e  bom  juizo  d'aquella  edade  achava  razões  poderosas 
para  a  emenda :  alem  de  dar  já  bem  a  ver  que  estava  senhor  dos  bons  e 
sólidos  princípios  da  arte  oratória.  Em  Vieira  era  tudo  pelo  contrario: 
fracos  princípios  ainda  da  arte ;  juízo  pervertido  dos  contemporâneos  e 
rivaes ;  defeitos,  que  o  tempo  devia,  não  corrigir,  mas  adiantar  e  confir- 
mar*; e  talentos,  que  se  bem  em  absoluto  egualavam,  que  fora  muito  dizer 
que  excediam,  os  de  Cícero,  nesta  matéria  porém,  como  se  dirá  melhor  era 
seu  logar,  lhes  eram  sem  duvida  muito  inferiores. 

Para  fazer  rigorosa  justiça,  devo  comludo  declarar,  que  no  sermão 


1  A  uimia  abundância,  certo  gosto  de  brilhantes  e  contrapostos,  mais  ardor  de 
phantasia,  que  uso  de  bom  discurso. 

-  Modelos  acabados, .na  verdade,  do  bom  senso,  allectos  e  adaptada  expressão ;  em 
que  se  cifra  a  eloqueiii'ia  perfeita  I 

^  A  copia  e  ardor  naturalmente  diminuem  e  esfriam  com  os  annos,  e  com  o  uso  e 
com  a  lima  da  razão.  Mulíum  indr  decuqutml  umú,  muUum  ratio  limabit,  aliquid  velut 
vsu  ipso  deteretur :  diz  Quinctil.,  1.  II,  C.  IV. 

<  Quando  na  primeira  parte  da  vida  falta  o  fogo  de  imaginação,  e  o  coração  fácil 
de  se  tomar  de  alfectos,  d'onde provém  ao  discuiso  alma,  movimento  e  formosura,  que 
se  pôde  esperar  das  edades  seguiutes  ? 


1 


17 


de  KkU,  on  o  decimo  quarlo  do  vuluiue  V,  se  eiicoulraiu  varias  senlenças 
exceHenles',  e  se  nola  um  coiihccimenlo  do  mundo  e  do  homem  bem 
siiporior  ã  edade  de  vinte  e  seis  annos,  e  não  sei  se  ao  que  Cicero  mostrou 
na  primeira  Oração ;  que  no  sernjão  decimo  quarto  do  volume  II,  pregado 
em  G:]7,  se  acham  algumas  verdades  profundas,  e  hem  c  devidamente  decla- 
radas-; que  no  decimo  do  volume  VI,  pregado  na  presença  de  muitos 
ofBciaes  militares  de  sangue  nobre,  pertencentes  ás  esquadras  portuguesa 
e  castelhana,  que  em  038  se  achavam  fundeadas  na  Bahia,  diz  coisas  muito 
de  approvar,  enijirega  tom  giave  e  accommodado  exactamente  ao  auditório, 
e  ua  dignidade  e  aviso,  com  que  falia,  representa,  aos  trinta  annos  talvez 
incompletos,  um  maduro  mestre  ^ ;  e  finalmente  que  em  todos  os  sermões, 
compostos  no  espaço  de  tempo,  a  que  agora  nos  limitamos,  a  linguagem, 
exceptuando  a  do  primeiro  de  lodos  e  a  do  decimo  terceiro  do  volume  Vil, 
é  por  abundância,  propriedade,  correcção,  pouco  menos,  se  acaso  menos, 
([ue  perfeita. 

Apezar  de  ser  lastimosamente  pervertido  o  gosto  do  seu  tempo,  o  que 
ni-slas  composições  havia  de  bom  e  estimável  era  até  certo  grau  apreciado ; 
os  defeitos,  que  o  século  tinha  por  virtudes,  lhe  eram  ainda  mais  levados 
em  conta  de  merecimento :  e  mostrava  elle  em  tudo  feliz  promptidão  de 
engenho  e  memoria,  ainda  reaíçada  com  raro  desembaraço  e  segurança, 
que  foi  um  dos  dons  particulaics.  com  que  o  enri(iueceu  a  natureza.  E 
como  por  outro  lado  era  confessada  pelos  mestres,  reconhecida  dos  cou- 
discipulos,  e  notoi'ia  geralmente  a  sua  dislincção  e  superioridade  nas 
escholas ;  tudo  isto  junto  o  fazia  olhar  como  espécie  de  prodígio,  de  que 
as  gentes  se  maravilhavam,  e  se  promelliam  em  lettrasos  progressos  mais 
agigantados :  que  todavia  não  corresponderam  a  tamanha  esperança,  posto 
que  milito  fundada  nos  talentos  e  disposições  egrégias  do  sujeito.  Tão 
honrado  credito,  e  tão  universal,  atalhou  pois  a  resolução,  que  tinham  tomado 
os  seus  superiores  de  lhe  comiijetterem  o  ensino  de  Theoiogia,  e  empenhou 


'  Veja-se  só  o  exórdio  e  os  eonsolhos  di;  Doeg  a  Saul,  e  as  resoluções  de  David 
áeerca  do  rei  Arhiz,  logo  nos  números  Wó  e  4G(j. 

-  Sobre  a  dependência,  que  a  paz  do  mundo  tem  da  justiça ;  sobre  a  união  intrín- 
seca, que  as  mais  virtudes  tèm  com  a  verdade ;  sol)rc  ó  pouco  caso  e  esquecimento 
dos  vivo?  para  com  os  mortos,  se  não  é  pelo  respeito  de  outros  vivos,  etc,  ctc. 

^  Veja-se  as  más  consequências  ilo  desprezo  de  um  liom  conselho  nas  facções 
militares,  expostas  e  apertadas  com  grande  dignidade  e  aviso,  nos  números  306  e  307, 
com  o  exemplo  de  Holofemes  em  Bethulia. 
2 


Í8 


Vieira  em  caminlio  inesperado;  trazendo-o  da  província  do  Brazii  para  a 
Europa,  por  uma  occasião  tão  celebre,  como  gloriosa  na  historiado  nosso 
reino. 

Esta  occasião,  certamente  celebre  e  gloriosa,  foi  o  levantamento  de  rei 
natural  na  pessoa  do  duque  de  Bragança  D.  João,  em  dezembro  de  1640 ; 
successo,  que  pelo  valor,  pela  prudência,  pelo  segredo,  talvez  tenba  poucos 
na  historia  conhecida  do  mundo,  que  se  llie  possam  comparar.  Governava 
então  o  Brazii,  e  residia  como  vice-rei  na  Bahia,  D.  Jorge  Mascarenhas, 
primeiro  marquez  de  Montalvão,  homem  de  intendimenlo  e  esforço,  por- 
tuguês leal  e  cidadão  de  grandes  serviços ;  os  quaes,  não  por  sua  própria 
culpa  ou  desprimor  do  príncipe,  mas  como  por  empenho  adverso  da  for- 
tuna, lhe  foram  pagos,  como  o  poderam  ser  avultados  desserviços*.  O 
novo  rei  poz  logo  muito  cuidado  em  expedir  para  a  Bahia  noticia  do  que 
passara  no  reino,  e  ordens  discretas,  para  que  o  Brazii  seguisse  a  mesma 
voz  de  Portugal ;  e  o  marquez  de  Montalvão  as  cumpriu  com  promptidão 
e  fidelidade  dignas  de  um  fidalgo  iionrado,  e  de  um  português  amante 
verdadeiro  da  sua  pátria.  E  julgando  que  ainda  com  isto  não  tinha  feito 
tudo,  resolveu  mandar  ao  reino  seu  filho  D.  Fernando  Mascarenhas,  para 
que  por  seu  pae  e  por  si  desse  os  parabéns  e  prestasse  a  devida  home- 
nagem a  el-rei.  Não  quiz  porém  mandar  seu  filho  sem  um  companheiro 
capaz  de  o  dirigir ;  e  a  grande  fama  e  porventura  próprio  conhecimento. 


'  D.  Jorge  Mascarenhas  veio  preso  da  Bahia  para  Lisboa  por  errada  execução  das 
ordens  d'el-rei  D.  João  IV.  Em  Lisboa  foi  preso  em  outra  occasião,  e  logo  solto  por 
decreto  muito  honroso ;  mas  novamente  foi  preso  no  Castello,  onde  falleceu,  passado 
pouco  tempo.  Os  historiadores  depõem  das  suas  grandes  qualidades  e  innocencia,  e 
auribuem  claramente  os  seus  desgostos,  e  a  ruina  da  sua  casa  á  imprudência  da  mulher 
e  filhos.  Veja  Hisl.  Genealog.  da  Casa  Real  Port,  tomo  XI,  pag.  692,  e  Portugal  Restau- 
rado, vol.  I,  liv.  III,  pag.  144,  i47  e  148  da  ediç.  de  4.°,  liv.  VI,  pag.  401,  vol.  II, 
liv.  VII,  pag.  90,  VIII,  pag.  115.  * 

*  N-  JB.  Fernão  Martins  Mascarenhas,  capitão  dos  ginetes  da  guarda  de  D.João  II, 
teve  de  sua  segunda  mulher,  D.  Violante  Henriques:  1.  D.  Nuno  Mascarenhas,  pae  de 
D.  João  Mascarenhas,  o  defensor  de  Diu;  2.  D.  Pedro  Mascarenhas,  Visorei  da  índia,  que 
instituiu  o  morgado  de  Palma;  3.  D.  Manuel  Mascarenhas,  pae  de  D.  Francisco  Masca- 
renhas. Este  D.  Francisco  Mascarenhas  casou  com  D.  Jeronyma  de  Castro,  e  d'ella  teve 
D.  Jorge  Mascarenhas,  marquez  de  Montalvão.  Era  pois  o  marquez  D.  Jorge  bisneto  do 
capitão  dos  ginetes  de  D.  João  II ;  e  seu  pae  D.  Francisco  Mascarenhas  era  primo  com 
irmão  do  defensor  de  Diu,  e  tanto  elle  como  o  defensor  de  Diu,  eram  sobrinhos  de 
D.  Pedro  Mascarenhas,  Visorei  da  índia  e  instituidor  do  morgado  de  Palma. 


19 


I  ((pie  tiulm  de  António  Vieira,  o  tielcrminou  a  escollié-lo,  e  a  pedir  com 
inslaucias  o  seu  consentimento  '. 

Com  I).  Fernando  Mascarenlias  e  o  padre  Simão  de  Vasconcellos  largou 
António  Vieira  da  Bahia  em  Hl  de  fevereiro  de  1G41.  A  navegação  loi 
pro.-^pera  até  quasi  ás  aguas  de  1'urtugal.  Jlas  por  meado  de  abril  foram 
assaltados  de  temporal  tão  temeroso,  que  os  obrigou  a  alijarem  o  batel,  a 
arlillieria,  e  mesmo  a  aguada,  ijue  traziam:  e  quando  apenas  respiravam 
d'estc  primeiro  susto,  sobreveio  nova  tempestade,  que  os  poz  em  egual  ou 
maior  risco.  Devia  de  os  afastar  muito  da  terra  o  ímpeto  dos  ventos,  ou 
vou-os  o  temor  a  fazerem-se  outra  vez  muito  na  volta  do  mar;  [jorque 
.i.cançando-os  a  tormenta  em  13  e  14  de  abril  não  muito  longe  das  cosias 
desle  reino,  só  a  á8  é  que  sahiram  na  praia  de  Peniche,  onde  os  aguar- 
dava perigo  de  outro  género,  mas  em  que  não  tiveram  as  vidas  muito 
meuos  arriscadas  -. 

O  amor  da  liberdade,  principnlir.cnto  no  momento  em  que  ella  se  recobra, 

I  é  muito  estremecido  e  suspeitoso.  Os  portugueses  acabavam  de  a  recobrar 
com  um  ardor  honrado,  que  dizia  bem  com  o  brio  e  nobre  horror  de 
estranha  sujeição,  que  haviam  mostrado  bizarramente  em  outros  tempos: 
e  por  um  infeliz  acaso  a  mãe  e  irmãos  de  D.  Fernando  Mascarenhas  tinham 
(lOuco  antes  dado  provas  de  menos  aíloiçoados  á  liberdade,  que  ao  triste 
iMptiveiro  da  sua  pátria.  Fosse  agradecimento  aos  favores  recebidos  dos 
reis  de  Castella,  fosse  effeito  da  persuasão  de  alguns  partidistas  interes- 
sados no  dominio  castelhano,  D.  Pedro  Mascarenhas,  filho  primogénito  do 
niarquez  de  .Montalvão,  e  seu  irmão  D.  Jeronymo  Mascarenhas  tinham  fur- 
tivamente saindo  do  reino,  para  se  ajuntarem  aos  nossos  inimigos :  e  sua 
mãe  D.  Francisca  de  Vilhena,  além  de  suspeita  de  acompanhar  seus  filhos 
na  deslealdade  de  pensamentos,  houve-se  cora  tão  pouca  discreção,  ou 

Ícom  Ião  descomposta  imprudência,  que  el-rei  D.  João  IV  se  viu  obrigado 
a  mandal-a  encerrar  no  castello  de  Arraiolos^.  E  este  successo  por  ser 


'  Veja-se  Andri;  de  Barros  I.  1.  g  XXXII. 

í  Barros  ili.  §  XXXIV,  e  Puiiiig.  lírstaur.,  vol.  I,  1.  III.  pag.  Ii8.  D.  Fernando 
Mascarenlias  foi  conde  de  Serem,  conlirmado  no  ofllcio  de  marectial  do  reino,  general 
da  provineia  da  beira,  e  do  conselho  de  guerra  :  falleceu  em  1(>19,  deixando  uni  fillio, 
qne  foi  segundo  ronde  de  Serem,  e  acabou  sem  tomar  estado. 

^  Portugal  Restaurado,  vol.  I,  pag.  i:ii.  Mas  saiiiu  da  prisão,  tanto  que  chegou  da 
Bahia  seu  filho  D.  Fernando  Mascarenhas. —  O  outro  filho  D.  Jeronymo,  que  tomou  os 


20 


acontecido  de  fresco,  e  pela  importância  de  taes  pessoas,  e  outras  mais 
notáveis,  envolvidas  na  mesma  culpa,  trazia  o  reino  alvoroçado,  e  as  gentes 
em  grande  desconfiança,  de  que  se  originavam,  com  qualquer  motivo, 
graves  tumultos  e  muito  arrojados  procedimentos. 

Bem  o  experimentaram  agora  D.  Fernando  Mascarenhas  e  seus  com- 
panheiros, em  sahindo  na  praia  de  Peniche.  Tanto  que  constou  que  era 
chegado  um  filho  do  marquez  de  Montalvão,  alvoroçou-se  o  povo,  por  não 
saber  distinguir  as  suas  tenções  das  de  seus  irmãos,  e  tendo-o  por  impli- 
cado no  mesmo  crime.  D  Fernando  trazia  uma  das  mais  agradáveis  noti- 
cias, que  se  podiam  desejar  neste  reino,  e  nella  argumentos  evidentissimos 
da  fidelidade  de  seu  pae  e  da  sua ;  e  comtndo  foi  recebido  como  inimigo 
e  como  traidor  á  mesma  pátria,  em  cujo  serviço  navegara  desde  o  Brazil. 
Recebeu  uma  grave  ferida  na  cabeça,  e  propunham-se  os  alvoroçados  a 
tirar-lhe  a  vida  ;  mas  o  conde  de  Athougia,  que  se  achava  governando  em 
Peniche,  teve  occasião  de  acudir  ao  tumulto,  e  de  o  pôr  a  salvo,  recolhen- 
do-o  em  sua  casa,  onde  o  fez  curar  e  tratar  com  grande  humanidade  e 
corlezia.  Perigou  também  a  vida  de  António  Vieira,  e  ainda  esteve  preso 
no  dia  29  de  abril ;  todavia  desfez-se  em  breve  a  cerração,  e  o  mesmo 
Vieira  escreve,  que  no  dia  30  partiu  para  Lisboa,  e  chegou  a  ver  a  el-rei  *. 

Aqui  tem  propriamente  principio  a  vida  publica  de  António  Vieira,  que 
neste  novo  theatro  não  fez  menos  luzida  figura,  e  deu  muito  maior  exer- 
cício á  sua  natural  e  rara  actividade,  que  no  primeiro.  O  ministério  evan- 
gélico abriu  a  entrada ;  seguiu-se  a  graça  e  favor  d'el-rei,  que  como  recahia 
em  conhecimento  da  sua  muita  capacidade,  não  a  quiz  deixar  ociosa  :  antes 
a  empregou  com  frequência,  escutando  o  seu  consellio  em  matérias  muito 
relevantes  e  espinhosos  negócios,  de  que  abundava  aquelle  tempo  e  fiando 
da  sua  destreza,  fidelidade  e  zelo  empresas,  que  requeriam  em  alto  grau 
aquellas  qualidades.  Se  António  Vieira,  contra  o  que  era  de  esperar  do 


graus  de  Theolugia  um  Coimbra,  e.se  passou  com  o  mais  velho  para  Casteila,  foi  lá 
promovido  a  bispo  de  Segóvia,  onde  morreu  nomeado  para  Astorga  por  1670.  Foi  homem 
de  instrueção,  mas  contrario  acérrimo  da  restauração  portuguesa,  e  com  estranheza 
dos  mesmos  Gastellianos.  como  diz  D.  Luiz  de  Menezes,  ibid.  pag.  131. 

I  Portugal  Rfislaiir.,  vol.  I,  pag.  148,  o  mesmo  Vieira  no  seguinte  fragmento,  alle- 
gado  pur  André  de  Barros  1. 1,  §  XXXV:  Aos  28  de  641  chegámos  a  Peniche,  onde  qui- 
zeram  malar  ao  Marchai.  Ao:i  20  de  641  me  quizeram  malar,  e  me  prenderam ;  e  parli 
para  Lisboa  aos  80  de  641 :  cheguei  a  Lisboa,  e  vi  a  S.  Majestade. 


21 


seu  eslado,  c  dos  peiísaiueiitos,  que  d"aiiles  o  occupavam,  se  tornou  aulico 
e  se  einpenliou  em  negócios  políticos,  por  correspondência  ao  favor,  com 
que  o  tratava  o  príncipe,  ou  por  zelo  da  pátria,  que  corria  muito  risco,  ou 
por  elTeito  da  sua  mesma  actividade,  ou  enifim  por  tudo  isto  junto,  mal 
podemos  aHumar  sem  alguma  hesitação.  Como  |)orL'ui  se  davam  todas  estas 
razões,  e  o  modo,  por  ijue  obrou  Vieira,  é  d'ellas  natural  consequência, 
cuido  (pie  de  todas  realmente  procedeu.  Mas  sempre  julgo,  que  o  caracter 
de  Vieira  me  dá  fundamento  para  suppôr,  que  no  impulso,  que  o  deter- 
minou, o  zelo  da  pátria  foi  muito  subordinado  à  própria  actividade  e  ao 
ilesejo  de  servir  ao  príncipe,  cuja  graça,  por  ser  de  priucipe,  e  de  prin- 
iipe  que  sabia  grangear  corações,  devia  ser  na  verdade  muito  poderosa. 
Entrou  a  pregar  António  Vieira  em  Lisboa  logo  desde  1042,  e  no  pri- 
meiro dia  deste  anuo  pregou  á  corte  na  capella  real '.  A  novidade,  o 
gosto  do  tempo,  a  opportunidade  de  algumas  lembranças,  o  louvor  e  mesmo 
acerto,  com  que  fallava  da  nossa  restauração,  a  facilidade  e  pureza  de 
linguagem,  o  desembaraço  do  orador,  fizeram  o  seu  natural  efileito.  Foi 
louvado,  applaudido,  seguido  de  todos,  cultos  e  incultos.  A  estes  últimos 
enlevava  a  clareza,  o  tom  pelo  commum  decentemente  familiar,  o  sal  às 
vezes  bem  picante,  a  eflicaz  intimativa  de  Vieira  :  os  mais  instruídos  admi- 
ravam com  applauso  a  noticia  vasta  das  escripturas,  a  sua  ap|)licação 
nimiamente  engenhosa,  a  subtileza  de  grande  parte  dos  argumentos  e  a 
urgência  de  todos,  a  finura  dos  conceitos,  a  muita  agudeza  dos  pontos  e 
brincos  pueris,  com  que  se  deleitavam  até  os  melhores  ouvidos  d'aquella 
edade.  As  pessoas  mais  dadas  à  piedade  e  devoção,  não  se  cançavam  de 
lhe  ouvir  propor  a  moral  mais  rígida  e  desenganada,  com  uma  força  de 
convicção,  com  um  ar  de  naturalidade  grave,  a  que  sò  as  paixões  obsti- 
nadas podiam  fazer  resistência.  Lisboa  inteira  corria  pois  a  ouvi-lo,  ante- 
cipavam-se  muito  as  horas,  enchiam-se,  a  não  poder  mais,  os  templos  de 
maior  capacidade ';  e  os  ouvintes  sabiam  por  fim,  uns  commovidos,  outros 


'  Mão  posso  afflrmar  se  pregou  em  Lisboa  ainda  dentro  Jo  anno  de  1641.  O  sermão, 
de  que  aqui  se  falia,  é  o  undécimo  do  volume  do  mesmo  iiumeru.  Mas  é  de  nolar,  que 
no  dito  volume  iraz  a  data  de  16il ;  o  que  certamente  é  erro,  pois  que  Vieira  chegou 
a  Lisboa  em  30  de  abril  do  liito  anno.  Esta  observação,  e  outras,  me  obrigam  a  ter 
por  menos  seguras  as  datas,  que  se  acham  em  frente  dos  seus  sermões  impressos. 

'  Não  só  o  diz  André  de  Barros  no  logar  citado,  §  XXXVIII,  e  Francisco  de  S."  Maria 
no  Oúirio  Portuguez,  no  dia  18  de  julho  n."  IV;  mas  até  o  confessa  o  auctor  da  Deducrão 
Chronologica,  P.  I,  n "  361,  o  mais  ardente  adversário  da  gloria  de  Vieira. 


22 


satisfeitos,  e  todos  admirados  do  engeniio,  do  saber  e  espií-ito  do  pregador. 
E  se  os  applausos,  que  no  foro  e  senado  romano  ganliava  a  eloquência  sã 
e  formosa  de  Cicero,  eram  certamente  mais  bem  merecidos  e  gloriosos ; 
não  eram  comtudo  mais  sinceros,  nem  mais  capazes,  supposto  o  modo  de 
pensar  dos  tempos,  de  lisonjear  o  animo  do  orador. 

O  conceito  próprio  e  a  geral  opinião  determinaram  el-rei  a  escoilie-lo 
para  seu  pregador,  de  que  no  anuo  de  1644  llie  mandou  patente  por  um 
grande  do  reino,  que  o  biographo  não  nomeia.  Tal  distincção  com  as  par- 
ticulares e  repetidas  conferencias,  em  que  sobre  os  maiores  negócios  o 
consultava  e  ouvia  com  grande  confiança,  lhe  grangeou  largo  credito  de 
privado  do  príncipe.  Á  inveja  d'esta  privança  e  do  commum  applauso  attribue 
André  de  Barros  a  forte  contradicção  e  viva  censura,  de  que  então  foi  com- 
balido '.  É  certo  que  os  privados  dos  reis  poucas  vezes  escapam  aos  tiros 
da  inveja ;  e  bastante  causa  era  esta  para  Vieira  soffrer  contradicções, 
assim  como  a  distincção  dos  seus  talentos,  e  o  louvor,  que  com  elles 
lograva,  eram  bastantes  para  irritar  os  humores  e  desafiar  as  satyras  dos 
que  pretendiam  ser  seus  rivaes.  Mas  parece-me  que  é  preciso  confessar, 
que  Vieira,  por  seus  ditos  picantes  e  liberdade  em  certos  casos  menos 
ponderada,  accendia  ainda  mais  a  inveja ;  e  que  nos  vicios  de  sua  eloquência 
offerecia  muito,  de  que  podesse  lançar  mão  a  rivalidade.  Os  ouvintes,  pelo 
commum,  ou  não  advertiam  nestes  vicios,  ou  os  desculpavam  em  favor  de 
reaes  ou  de  imaginadas  virtudes ;  mas  a  rivalidade  mais  aguda  e  menos 
indulgente  tomava  delles  occasião  para  se  vingar  com  sarcasmos  e  motejos ; 
a  que  Vieira,  comtudo,  segundo  refere  o  seu  biographo,  só  respondia  por 
meio  de  generosa  e  bem  intendida  indifferença  ^. 

Teve  ainda  o  valimento  e  cabimento  com  el-rei  outra  consequência 
pouco  agradável  para  Vieira,  que  não  era  muito  de  esperar.  Parecia  que 
os  jesuítas  tinham  razão  de  se  comprazer  de  que  um  tal  sócio  tivesse 
grande  trato  e  valia  na  corte :  muito  mais  porque  foram  notados  em  todo 
o  tempo  de  procurar  entrada  nas  casas  dos  soberanos,  e  influencia  nos  seus 
conselhos;  e  é  certo  (jue  a'historia  não  desmente  este  reparo  dos  seus 
desaffeiçoados.  Cuido  porém  que  algum  passo  pouco  advertido  de  Vieira 
lhes  deu  tal  ou  qual  motivo  de  desconfiança,  e  que  se  temeram  de  que  a 
sua  grande  vivacidade,  encostando-se  ao  favor  do  príncipe,  desprezasse  os 


í  Barros,  ibid.  §§  XLI  e  XI-II. 
'  Barros,  ibid.  §  XLII. 


23 


.il)erta(ios  vínculos  de  sujeição,  por  que  a  interior  disciplina  continha  todos 
iis  professores  do  instituto  :  e  não  lia  duvida  que  André  de  Barros  alTirma, 
que  receosos  de  que  ajudado  d'el-rei  quizesse  introduzir  novidades  na 
sua  corporação,  se  mostraram  menos  satisíeitos,  e  até  ciiegaram  a  pôr  em 
conselho  o  demitti-lo '.  Mas  ou  porque  Vieira  não  dava  na  verdade  justa 
causa  de  desconfiança,  e  os  jesuitas  reconheceram  a  sua  iniiocencia,  ou 
porque  mudou  seriamente  as  suas  resoluções,  o  descontentamento  cessou, 
e  o  encontro  não  teve  mais  elleito,  do  que  mostrar  a  grande  conta  em  que 
(i  tinha  el-rei,  e  dar  um  novo  e  claro  exemplo  da  paixão,  com  que  todo  e 
qualquer  jesuíta  amava  o  seu  instituto;  paixão,  que  tive  sempre  por  admi- 
rável, e  cujas  razões  sempre  me  pareceram  dignas  do' mais  considerado 
exame. 

El-rei  informado  da  desconfiança  dos  jesuitas,  e  dos  incoramodos,  que 
ella  causava,  ou  podia  causar,  a  António  Vieira,  propoz-se  a  valer-lhe  por 
qualquer  modo ;  e  até  lhe  mandou  offerecer  pelo  secretario  d'estado  Pedro 
Vieira  da  Silva  algum  dos  bispados  vagos,  para  sahir  airosamente  da  com- 
panhia. E  António  Vieira  declinou  neste  ponto  o  favor  real,  respondendo 
ao  secretario  d"eslado  nos  termos  mais  expressivos  de  devoção  e  respeito 
á  Companhia  :  que  allega  André  de  Barros,  como  formaes,  e  que  são  muito 
para  notar:  Qiif  a  todas  as  mitras,  de  que  Sua  Majestade  podia  dispor, 
antepunha  elle  o  viver  no  logar  mais  humilde  entre  os  jesuitas.  Que  se  estes 
chegassem  a  o  despedir,  e  nem  para  servo  o  quizessem  admiltir  de  novo,  ficaria 
da  parte  de  fura  lastirmndo-se  e  chorando,  até  acabar  a  vida  junto  daqucllas 
amadas  portas,  deitíro  das  quaes  lhe  tinha  ficado  a  alma  toda  ^. 

Se  tão  ardente  devoção  e  respeito  fosse  singular  em  António  Vieira, 
seria  ainda  notável  coisa,  que  um  espirito  dotado  de  tamanha  vivacidade, 
quando  linha  motivos  de  se  resentir  dos  seus  sócios,  e  achava  no  throno 
protecção  Ião  decidida,  perseverasse  com  tal  firmeza  em  pensamentos  de 


*  Barros  ibid.,  §  XLllI:  Que  se  temeu  o  coração  de  Vieira  que  a  Compaiúia  o  demit- 
iitse  de  si.  Mas  do  antecedente  se  infere  bem,  que  este  temor  tinlia  por  mulivo  o  com- 
portamento dos  seus  sócios. 

'  Barros,  itiid.  §  XLV.  Na  Dedurçlo  Clirnnnl.,  P.  l,  n."  .378,  e  nas  Provas  n."  XLVI 
vem  copiada  uma  carta  del-rei  com  data  de  6  de  setembro  de  16'i4  para  o  provincial 
António  Mascarenhas,  a  qual  intendo  que  se  refere  a  este  suecesso.  El-rei  diz,  que  se 
haverá  por  bem  servido  de  que  António  Vieira  não  padeça  vexação  e  accrcscenta:  cto/-o 
encommendo  assim  o  mais  apertadamente  que  posso. 


24 


profunda  veneração.  Mas  a  verdade  é,  qne  este  modo  de  se  haver  com  a 
sociedade,  se  não  era  em  rigor  de  lodos,  era  o  commiim  enlre  os  seus 
alumnos.  A  concórdia  (ao  menos  no  que  ajiparecia)  era  inalterável,  a 
sujeição  inteira,  o  amor  da  corporação  e  a  satisfação  de  ,llie  pertencer 
intensa,  e  com  bem  raras  excepções  universal.  Aquelles  mesmos,  que  a 
deixavam,  aquelles  mesmos,  que  eram  d'ella  demittidos,  mostravam-se  por 
toda  a  vida  respeitosos  e  saudosos  da  congregação,  a  que  haviam  renun- 
ciado, ou  que  os  tinha  por  algum  principio  notado  de  menos  aptos.  Pheno- 
meno  estranho,  novo,  único  em  todas  as  historias  do  mundo!.  . .  E  em 
uma  corporação  espalhada  por  tão  distantes  partes  do  globo !  . . .  Nume- 
rosa, e  muito  numerosa,  em  cada  uma  das  suas  próprias  províncias!... 
Pelo  dilatado  espaço  de  mais  de  dois  séculos!...  Fora  coisa  incrível,  a 
não  ser  comprovada  por  tantos,  tão  claros  e  irrefragaveis  documentos  de 
amigos,  de  inimigos,  de  indifferentes.  Por  que  arte  prodigiosa  davam  os 
jesuítas  tão  estupenda  harmonia  a  tal  variedade  de  humores?  contentavam 
toda  a  sorte  de  affectos?  fixavam  as  inconslancias  da  humanidade,  tão 
propensa  e  tão  facíl  de  se  alterar  e  se  mudar?  Resolveram  nm  problema 
tão  diíTicultoso,  como  importante:  mas  o  secreto  meio,  por  que  o  resolve- 
ram, foi  sepultado,  talvez  para  sempre,  na  mesma  ruína  memorável  dos 
seus  inventores  '. 

O  auctor  da  Dcdncção  Chnmolofjica  c  Áiiahjlica,  sem  se  fazer  cargo 
desta  dilTerença,  que  houve  entre  os  jesuítas  e  António  Vieira,  sustenta, 
que  com  elles  conluiado,  lhes  serviu  de  instrumento,  com  que  enredaram 
e  perturbaram  a  corte,  e  exercitaram  no  animo  d'el-rei  muito  criminosa 
influencia  -.  Mas  a  ser  verdadeiro  o  seu  pensamento,  ou  não  houve  tal 
differença,  ou  foi  entre  Vieira  e  os  seus  sócios  totalmente  sinudada.  Se 
porém  a  não  houve,  como  a  refere  por  miúdo  e  com  formalidade  de 


1  Eutre  todds  os  documoutos  favdniveis  aos  jesuítas  merece  muita  distincção  o 
testimunlio  do  poeta  Gresset  na  obra  intitulada  Adienx  aux  jcmites,  que  se  lô  na  edi- 
ção de  Paris,  1806.  voi.  II,  pag.  123.  Exulta  o  poeta  de  ter  quebrado  as  prisões  que  o 
detiuliani  ua  Companhia,  em  que  havia  enU'ado :  comtudo  recommendando  a  sociedade 
com  o  mais  alto  e  desinteressado  elogio,  e  detestando  as  falsidades  com  que  a  calu- 
mnia  a  denegria,  úh  : 

Et  si  dans  leurs  foyers  desarmais  jc  n' habite, 
Mnn  roeur  me  survit  aiiprcs  d'pnx. 

'  É  a  substancia  de  tudo  n  mw  se  (;ontém  ua  Part,  I,  e  números  desde  354  ate  379. 


25 


palarrns  Aiulré  de  Uarros?  Se  foi  simulada,  comi)  durou  a  sua  uoticia;  e 
a  que  Qm  a  refere  seriamente  André  de  Barros,  onde  queria  exaltar  o 
seu  heroe,  a  quem,  no  modo  de  pensar  do  iiistoriador,  a  susiieita,  que 
teve  d'elle  a  Sociedade,  não  era  por  certo  airosa?  Não  é  impossivel,  que 
o  pretendido  conluio  tivesse  logar,  passado  este  conHicto,  que  não  durou 
muito.  Mas  o  valimento  de  Vieira  com  el-rei  não  f(ji  depois  maior,  e  já  é 
preciso  conceder  um  tempo,  em  (jue  não  teve  aquelle  propósito.  E  em  fim 
a  paixão,  com  que  discorre  o  auctor  da  Dcdticrão  Chronnloyica,  acerca  dos 
jesuitas,  6  hoje  conhecida  geralmente;  e  onde  ha  paixão  conhecida,  qual- 
quer ai-gumeiílo  contra  os  fados  que  ella  refere,  tem  além  da  sua  força 
natural  a  que  a  paixão  contraria  lhe  accresceiíla  sem  o  saber,  e  certamente 
sem  o  intentar.  A  seu  tempo  mostrarei  (pie  não  pretendo  ser  adulador  de 
António  Vieira ;  mas  se  não  quero  ser  lisonjeiro,  também  estou  muito  longe 
de  o  querer  injuriar,  abraçando  cegamente  as  temerárias  affirniativas  de 
seus  declarados  inimigos  '. 

Na  carta,  com  que  abre  o  segundo  volume  das  de  Vieira,  escripta  ao 
secretario  d  Estado  no  anuo  de  1644,  temos  claríssima  prova  do  muito 
peso,  que  o  governo  do  reino  snppunlia  no  parecer  de  seu  auctor  em 
qualquer  matéria,  e  ao  mesmo  tempo  do  grande  fundamento  que  tinha 
para  fazer  similliante  supposição  -.  Vcnlilava-se  se  conviria  fazer  guerra 
ollensiva  ou  defensiva  na  campanha  seguinte  contra  Castella ;  e  sobre 
questão  de  tanto  melindre  e  tão  alheia  do  modo  de  vida  e  estudos  de 
Vieira,  foi  pedida  de  palavra  e  por  cscripto  a  sua  opinião  ^.  A  opinião  é 
offerecida  na  dita  carta  cora  tal  eflicacia  de  razões,  tal  copia  de  arbítrios, 
lai  resolução  de  difliculdades,  qual  se  pudera  esperar  de  um  politico  e 
soldado  de  largas  e  aproveitadas  exjjeriencias;  e  juntamente  lançcida  na 
linguagem  mais  precisa,  mais  clara,  mais  própria,  mais  natural,  e  todavia 
culta,  que  pudera  empregar  um  escriptor  consummado:  sem  se  esquecer 
além  disso  dos  preâmbulos  ou  satisfação  da  decente  modéstia,  que  o  bom 


'  Não  precisa  de  outi"as  provas  a  inimizade  derlarada  do  auclor  da  Ucdiur.  Chrn- 
nolog.  a  respeito  de  Vieira,  que  o  virulento  c  descomposto  cstylo,  por  que  lalla  dclle 
em  toda  a  parte. 

*  Se  pude  na  verdade  parecer  estraulio,  que  soiírc  similiianto  assuni|ito  se  consul- 
tasse António  Vieira,  a  sua  resposta  desengana  do  bom  fundamento  que  tintia  o  governo 
para  o  consultar. 

'  Obedeço  a  V.  S.,  principia  acarta,  <•  puiiliu  empapei  o  que  depalatro  lhe  respondi 
acerca  da  gxtena,  que  lonvém  fazer  a  Caskllaj  e  dos  cabos,  a  que  se  deve  fiar. 


26 


senso  requeria  da  edade  pouco  provecta,  e  sobre  tudo  da  proflssão  e 
exercício  tão  distantes  das  medilaçijes  politicas  e  militares  •. 

Mas  um  dos  primeiros  e  mais  graves  negócios,  em  que  Vieira  foi 
ouvido  del-rei,  e  seguido  o  seu  conseilio,  foi  o  modo  mais  próprio  e 
prompto  de  engrossar  os  meios  para  acudir  ás  necessidades  urgentíssimas 
do  reino.  Não  havia  erário;  os  povos  estavam  exgotados  por  tributos  ante- 
cedentes; as  fortunas  eram  geralmente  apoquentadas  por  entorpecimento, 
se  não  quizermos  dizer  antes  lotai  falta,  do  commercio:  era  entretanto 
immiuente  e  inevitável  uma  guerra  muito  empenhada  e  laiga  nas  fronteiras 
ou  no  coração  de  Portugal;  se  a  guerra  das  fronteiras  pedia  enormes 
cabedaes,  não  pedia  menos  a  necessária  diligencia  para  recobrar  e  con- 
servar as  colónias  e  conquistas ;  e  na  fluctuação  de  tudo,  nas  irregulares 
circumstancias  de  occasião  tão  extraordinária,  não  se  podia  esperar  stricta 
economia.  Lembrou  Vieira,  e  sustentou  com  grande  força  de  razões,  a 
instituição  de  duas  companhias  com  os  títulos  de  oriental  e  Occidental, 
encaminhadas  aos  proveitos  na  índia  e  America ;  advertido,  como  parece 
confessar,  pelo  exemplo  de  Ilollanda,  que  de  similhante  expediente  havia 
tirado  grande  fructo.  Procedeu  pois  el-rei  a  instituir  a  occidental;  mas  não 
teve  effeito,  por  motivo  que  ignoramos,  a  oriental :  do  que  o  mesmo  Vieira 
se  lastima  em  graves  termos,  por  esperar  d'ella,  no  tocante  ás  índias, 
resultados  egualmente  felizes  que  os  da  occidental;  a  que  attribue  a  res- 
tauração de  Angola  e  a  de  Pernambuco  "^. 

O  trato  politico  com  as  cortes  estranhas  foi  outro  ponto  gravíssimo, 
em  que  el-rei  se  determinou  a  empregar  a  penetração  e  diligencia  de 
Vieira.  Mal  podia  a  estreiteza  de  Portugal  medir-se  por  si  só  naquella 
occasião  com  a  grandeza  de  Castella.  Ilavía-se  medido  só,  e  braço  a  braço, 
e  com  victoria  assignalada,  nos  campos  de  Aljubarrota  em  tempo  de 
D.  .João  I;  mas  o  competidor  era  então  muito  differente:  e  basta,  para  se 
alcançar  bem  a  differença,  advertir  que  uma  única  batalha,  porque  o  mais 


1  Acceile  V.  S.,  continua  logo,  estas  mal  concertadas  razões,  como  de  quem  as  não 
professa,  e  sirva-lhes  de  desculpa  dictá-las  o  zelo  da  pátria,  e  escrevê-las  o  respeito,  que 
a  V.  S.  devo. 

2  Yeja-se  especialmente  a  caria  CXVIII  do  volume  II,  escripta  ao  conde  da  Eri- 
ceira, pag.  387  e  scg.  O  primeiro  negocio,  que  propuz  a  Sua  Majestade,  depois  da  sua 
felice  restituição,  foi  que  em  Portugal,  á  imitado  de  Uollanda,  se  levantassem  duas  com- 
panhias mercantis,  ete. 


27 


foram  coiiflictos  a  que  não  cabe  nome  Ião  ap[)araloso,  quebrantou  e  desen- 
ganou os  nossos  inimigos;  quando  nas  contendas  da  reslauraijão  não 
chegaram  muitas  balailias  gloriosas  a  ser  inleiramentc  decisivas. 

Apezar  das  suas  perdas  tão  avultadas  e  tão  repelidas,  apezar  dos  seus 
apertos  por  outras  e  muitas  vias,  e  apezar  da  nossa  constância  bem  aju- 
dada da  fortuna,  Castella  não  largou  o  campo  pelo  dilatado  espaço  de 
muitos  annos ;  e  por  fim  cedeu,  mais  obrigada  das  attribuladas  circumstan- 
cias  do  interior,  que  da  nossa,  certamente  valorosa  e  honrada  resistência. 
Grande  foi,  não  ha  duvida,  o  eathusiasmo  português;  e  muito  pode  o 
enthusiasmo  de  um  povo  de  homens  em  defesa  da  sua  liberdade :  mas 
Sagunlo,  Niunaucia  e  Carthago  são  forle  argumento  de  que  enthusiasmo 
valoroso  não  é  bastante;  e  nos  exem[)los,  que  [iodem  ser  allegados  em 
contrario,  seria  fácil  mostrar  a  razão  diversa,  ou  na  pusiilanime  leviandade 
do  poder  maior,  de  que  naquelle  caso  não  podemos  arguir  Castella,  ou 
no  concurso  de  outros  estados,  que  por  seu  auxilio,  mais  ou  menos  decla- 
rado, contrapesaram  as  forças,  e  desfizeram  em  favor  do  menos  poderoso, 
a  natural  desegualdade  dos  antagonistas, 

À  sagacidade  del-rei  D.  João  IV  e  do  seu  conselho  não  podia  escapar, 
nem  escapou,  o  muito  proveito,  que  devia  seguir-se  ã  sua  causa,  dos 
soccorros,  das  diversões,  e  até  das  meras  correspondências  amigáveis 
entre  os  mais  estados  da  Europa  e  Portugal  novamente  separado  de  Cas- 
tella. A  rivalidade  de  uns,  a  inimizade  de  outros  a  esta  ultima  potencia, 
ou  aos  seus  naluraes  e  íntimos  alliados,  convidava  por  uma  parte,  e  faci- 
litava por  outra  as  negociações.  Inglaterra  era  rival  por  interesses  princi- 
palmente de  commercio:  Ilollanda  era  inimiga,  como  quem  só  na  oppres- 
são  e  quebrantamento  de  Castella  podia  assegurar  bem  a  sua  independência: 
Suécia  contendia  com  animosidade  por  abater  os  Imperiaes,  cujas  pieten- 
sões,  por  parentescos  e  pactos  entre  os  seus  príncipes,  eram  ajudadas 
dos  castelhanos:  França,  pela  emulação  ordinária  entre  os  estados  limi- 
trophes,  pelo  ciúme  de  poder,  e  muito  mais  pela  opposição  das  conve- 
niências, ainda  quando  não  tinha  guerra  declarada,  como  tinha  de  presente, 
estava  sempre  disposta  a  favorecer  o  que  podia  causar  detrimento  á 
colossal  grandeza  da  familia  de  Carlos  V. 

Tinha  muita  importância  mesmo  a  alliança  com  Catalunha;  levantada 
naqaella  occasião,  e  lidando  por  meio  das  armas,  ou  para  ficar  inteiramente 
senhora  de  si,  on  ao  monos  para  obter  mais  avantajadas  condições.  O  seu 
mesmo  perigo  a  tornava  um  alliado  mais  fácil  de  allrahir  e  mais  seguro; 
o  trato  com  ella  era  um  passo,  que  devia  obrigar  mais  a  nosso  favor  o 


28 


governo  da  França,  muito  empenhado  por  Calalunlia;  e  a  sua  posição,  sem 
nos  impedir  as  communicações,  divertia  para  longe  de  nós  grande  parte 
das  forças  do  inimigo.  Quanto  ás  negociações  com  Roma,  a  piedade  do 
novo  rei  e  a  dos  vassallos  as  requeriam  egualrnente;  e  com  ellas  se  devia 
tirar  um  pretexto  ás  declamações  dos  contrários  e  ás  duvidas  e  hesitações, 
de  outros  estados  menos  resolutos.  E  ainda  que  desde  logo  se  previram  e 
recearam  difficuldades,  e  pelo  menos  largas  demoras,  o  nosso  prompto 
recurso,  e  a  reverencia,  de  que  procedia,  justificando  o  nosso  acatamento 
à  Igreja  Romana,  e  com  elle  a  firmeza  na  fé  dos  maiores,  satisfaziam  á 
nação  portuguesa,  punham  em  cuidado  Gastella,  e  obrigavam  a  politica 
itahana,  ou  a  condescender,  movida  da  justiça  proposta  com  respeito,  ou 
a  arriscar  muito  no  juizo  do  mundo  o  seu  credito  de  imparcial  '. 

Desde  o  anno  de  1641  despachou  pois  a  politica  d'el-rei  D.  João  IV 
sujeitos,  em  quem  confiava,  encarregados  de  tratar  allianças  com  vários 
governos^.  A  28  de  fevereiro  do  dito  anno  sahiram  de  Lisboa,  para  França, 
Francisco  de  Mello,  mouteiro  mór  do  reino,  para  Inglaterra  D.  Antão  de 
Almada,  para  Hollanda  Tristão  de  Mendonça;  e  a  18  de  março  seguinte 
partiu  para  Dinamarca  e  Suécia  Francisco  de  Sousa  Coutinho,  um  dos 
negociadores  mais  beneméritos  por  destreza  e  zelo  da  pátria,  de  que  temos 
noticia  na  historia  de  Portugal  ^.  Não  faz  ao  nosso  intento  o  que  se  passou 
nas  negociações  com  Inglaterra  e  Suécia ;  mas  como  António  Vieira  foi 
depois  mandado  a  Paris  e  llaya,  necessário  é  tecer  em  breve  a  relação 


1  Á  primeira  vista  parece  o  comportamento  da  sé  romana  para  com  Porlugal^ 
naquella  occasião,  talvez  menos  paternal,  do  que  o  espirito  do  christianismo  catliolico 
o  requeria;  mas  uma  boa  consideração  vem  a  reconliecer,  que  Roma,  declarando-se 
logo  em  favor  de  Portugal,  arriscava  muito  mais  os  interesses  da  religião,  do  que 
tomando  o  partido  moratório,  que  com  elTeilo  tomou.  A  uecessidade,  além  da  piedade 
própria,  obrigava  rigorosamente  ei-rei  D.  João  IV,  a  mna  resignação,  (jue  era  muito 
menos  de  esperar  da  corte  de  Madrid.  Por  mais  que  se  notem  os  procedimentos  da 
Guria,  tenho  para  mim,  que  na  maior  parte  são  dictadus  por  discreção;  e  muitos 
d'aquelles,  que  são  reputados  imprudentes,  merecem  outro  conceito  a  quem  os  examina 
sem  preoccupações  e  com  boa  noticia. 

2  Sigo  aqui  a  relação  de  D.  Luiz  de  Menezes,  que  julgo  a  mais  copiosa  e  a  mais 
bem  fundada,  que  posso  seguir.  D.  Luiz  quevia  escrever  a  verdade,  c  possuiu  grandes 
meios  de  a  alcançar. 

'  A  grandes  talentos  ajuntou  Francisco  de  Sousa  muito  uso.  O  duque  de  Bragança 
D.  João,  depois  el-rei  D.  João  IV,  o  nomeou  para  lesidir  em  Madrid,  logo  que  falleceu 
o  duque  D.  TlieodosiOj  seu  pae,  em  1630. 


29 


das  iiegociiKÕos  neslui;  duas  capilaos.  Suppiíaha-se,  e  suppuiilia  so  com 
verdade,  muita  disposição  em  ambas,  para  recouliecerem  a  nossa  inde- 
pendência e  se  alliarem  comuosco.  Foi  piompto  com  effeito  o  reconheci- 
menlo:  mas  a  convenção,  peia  cubica  de  lloliauda  e  pelas  variedades  e 
apertos  domésticos  de  França,  foi  demorada,  e  por  fim  mal  succedida 
com  Ilollanda.  e  com  França  muito  menos  vantajosa,  do  que  se  esperava  '. 

Tristão  de  Mendonça  concluiu  com  os  holiandèses  uma  tregoa  por  dez 
annos.  (jue  ou  por  pouco  precatada  nos  veio  a  ser  muito  prejudicial,  ou 
foi  caviliosamcute  ilUulida  peia  cubica  pouco  escrupulosa  da  Republica. 
Procedeu  esta,  ou  procederam  em  nome  delia  os  seus  cabos,  contra 
Angola  e  o  Maraníião;  e  ei-rei  viu-se  obrigado  a  mandar-lhe  fazer  enér- 
gicas representações  sobre  esta  matéria.  E  como  Tristão  de  Mendonça 
Unha  voltado  a  Lisboa,  foi  mandado  á  llaya  com  este  encargo  Francisco 
de  Andrade  Leitão,  o  qual  em  termos  muito  vebementes  se  queixou  aos 
estados;  mas  tirou  fraco  ou  nenlium  proveito  das  suas  justificadas  quei.\as. 
Principiou  entretanto  o  tratado  de  Westphalia ;  e  como  a  el-rei  não  fosse 
concedido  mandar  a  elle  ministros  com  representação  própria,  tomou  o 
expediente  de  os  mandar  como  addictos  aos  de  outros  governos:  e  foi  um 
d'elles  Francisco  de  Andrade,  que  estava  na  Haya  ^.  Partiu  para  Osnabruck 
Francisco  de  Andrade  na  primeira  occasião;  e  para  seu  logar  em  Ilollanda 
foi  nomeado  Francisco  de  Sousa  Goutinlio,  que  no  espaço  de  sete  annos  se 
houve  de  maneira  que  a  Republica  em  muitos  casos,  ainda  que  embara- 
çada e  incommodada  pela  agudeza  destra  das  suas  negociaçiJes,  admirou 
o  seu  exaltado  e  sagaz  patriotismo. 

Não  tinha  Portugal  que  0[)pòr  á  cubica  e  forças  niaritiraas  de  Ilollanda, 
senão  allegados  da  justiça,  de  (jue  os  cubiçosos  fazem  sempre  pouco  caso. 
Como,  porém,  a  oppressão  bollandèsa  sobre  os  portugueses  dAmerica,  o 
o  brio  6  valor  natural  d'estes  últimos  excitassem  commoções,  com  que  a 
aucloridade  ou  dominio  dos  usurpadores  se  tornava  mal  seguro;  deram 


'  Da  politica  e  vigor  do  cardeal  de  Hichelieu  e.sperava-se  muito  empenho  em  favor 
dos  portugueses:  mas  o  cardeal  e  o  rei  Luiz  XIII,  mornMam  Ingo:  seguiu-se  a  meno- 
ridade de  Luiz  XIV,  e  com  ella  os  embaraços,  incertezas  c  distracções,  que  costumam 
acompanhar  as  menoridades  dos  reis. 

*  Havia  sido  collegial  de  S.  Pedro  e  lente  de  Instituía  em  Coimbra.  Nas  cortes  de 
1640  recitou  a  Oração  em  nome  do  estado  secular.  Em  1641  foi  enviado  a  Inglaterra 
com  D.  Antão  de  Almada;  de  Inglaterra  passou  para  Ilollanda ;  e  da  Haya  para  Osna- 
bruck, com  Luiz  Pereira  de  Castro,  em  1648. 


30 


estes  successos  occasião  a  Fraucisco  de  Sousa  Coutinlio,  para  fazer  uso 
fios  seus  eminentes  talentos  na  arte  de  negociar.  Corriam  nestas  circum- 
slancias  duas  opiniões.  A  uns  lembrava,  que  comprassem  os  portugueses 
o  que  d'olles  havia  conquistado  Iloilanda ;  lembrança,  a  que  os  Estados, 
por  isso  mesmo  que  a  posse  se  ia  tornando  precária  ou  difficultosa,  deram 
ouvidos.  Lembrava  a  outros,  que  entregássemos  ou  restituíssemos  o  que 
se  havia  recobrado  em  Pernambuco,  augmentando  com  grave  ponderação 
sobre  as  conveniências  e  sobre  a  força  duríssima  do  império  da  necessi- 
dade. Se  não  repugnava,  hesitava  ao  menos,  e  com  grande  fundamento, 
em  abraçar  qualquer  d'estes  dois  partidos  a  corte  de  Lisboa:  e  da  sua 
hesitação  nasciam  demoras,  respostas  equivocas,  e  daqui  por  ambas  as 
partes  frequentes  desconfianças  •. 

Era  nestes  termos  muito  apurada  a  condição  de  Francisco  de  Sousa. 
Mas  previsto  sempre  e  alerta  occorria  a  tudo  com  promptidão,  e  cuidava 
em  tirar  proveitos  das  mesmas  perplexidades.  Os  Estados  entretidos  com 
as  negociações  remittiam  nos  soccorros,  que  deviam  mandar  para  a  Ame- 
rica, e  a  sua  remissão  confirmava  e  adiantava  as  commoções,  de  que 
falíamos.  Mantendo  em  certo  ardor  aquelias  negociações,  tratava  pois  com 
todo  o  empenho  Francisco  de  Sousa  de  dilatar  a  suspensão  dos  soccorros. 
Demorou  por  este  modo  a  expedição  de  uma  armada,  que  devia  largar 
quanto  antes  dos  portos  da  Hollanda:  e  como  os  Estados  por  uilhno  se  de- 
terminassem decididamente  a  envial-a,  acudiu  com  um  arbítrio  por  certo 
muito  arrojado,  que  detendo  ainda  a  armada  desde  julho  até  dezembro,  a 
empenhou  nas  verduras  do  inverno,  obrigando-a,  depois  de  três  tentativas 
infructuosas,  a  ficar  emfim  recolhida  nos  seus  portos,  com  allivio  de  Per- 
nambuco, que  principalmente  ameaçava-. 


•  De  todas  as  missões  diplomáticas  d'aquelle  tempo  era  para  nós  a  mais  difficul- 
tosa a  de  Hollanda.  Foi  ventiiia  o  caber  ao  insigne  Francisco  de  Sousa  Coutinlio :  que 
na  má  fé  e  astúcias  da  Republica,  nos  vagares  das  decisões  dos  Estados,  e  até  nas  sus- 
peitas da  sua  própria  corte  achou  difflcuidades  gravíssimas,  que  encarou  sem  sossobro 
e  venceu  com  grande  credito.  Quanto  ás  suspeitas  da  própria  corte  veja-se  Port.  Rest., 
ediç.  de  1759,  tom.  2,  pag.  313. 

2  E  rendo  que  a  armada  partia  sem  duvida,  valendo-se  de  algumas  firmas  em  branco, 
que  tinha  d'el-rei.  prometleu  aos  Estados  a  restituirão  de  Pernamhuco,  c  com  grande 
brevidade  deu  conta  a  el-rei  do  que  havia  executado  sem  sua  ordem,  pedindo-lhe  em 
premio  dos  seus  serviços,  que  logo  o  mandasse  prender,  e  se  fosse  necessário,  lhe  cortasse 
a  cabeça  para  satisfação  dos  Estados.  Port.  Rest.,  part.  I,  L  X,  1647,  tom.  2,  pag.  249. 


I 


J 


3d 


Eiu  Fraiiija  o  monteiro-niór  Francisco  de  Mello,  chegando  a  Paiis  em 
margo  de  1G4I,  foi  bem  recebido  d  el-rei,  e  nas  coiifereucias  com  o  car- 
deal de  Kiclieiieu  foi  muito  bem  ouvido  (Feste  celebre  ministro;  de  sorte 
que  se  concluiu  logo  um  tratado  de  amizade  reciproca,  mostrando  o  car- 
deal por  sua  parle  tão  favoráveis  disposições  aos  negócios  de  Porlugal, 
que  não  falta  (juem  accnse  o  errado  pundonor  de  Francisco  de  Mello,  por 
não  tirar  delias  melhor  partido '.  Para  obter  uma  Liga,  foi  mandado  em 
iG42  o  conde  da  Vidigueira  D.  Vasco  Luiz  da  Gama.  Porém,  achou  o  car- 
deal já  enfermo  da  moléstia,  de  que  falleceu  em  breve  tempo.  E  se  a  morte 
do  cardeal  de  Richelieu,  dentro  do  mesmo  auno  de  1042,  rompeu  as  ne- 
gociações e  entibiou  as  esperanças  do  conde  da  Vidigueira;  não  recebeu 
menos  incommodo  e  damno  da  morte  d"el-rei  Luiz  XIH,  succedida  em  14 
de  maio  de  1043.  Por  este  acontecimento  licou  o  goveino  a  cargo  da  rai- 
nha ua  meuoridade  de  seu  fllho  Luiz  XIV,  e  ficou  quasi  inteiro  aibilro  do 
animo  da  rainha  regente  o  cardeal  .liilio  Mazzarini;  cuja  politica,  partici- 
pando das  inceitezas  e  oscillações  do  seu  poder,  deu  grande  e  inútil  e.\er- 
cicio  á  efficacia  e  á  paciência  do  conde  da  Vidigueira'. 

Mas  posto  que  o  conde  da  Vidigueira  pouco  ou  nada  adiantava  no  prin- 
cipal negocio  de  concluir  a  Liga  entre  França  e  Porlugal,  já  porque  as  dis- 
sensões do  reino  de  França  impediam  um  ajuste  firme  e  seguro,  já  porque 
Mazzarini  mais  se  determinava  por  seu  próprio  interesse,  do  que  pela 
honra  e  conveniência  da  nação  francesa,  e  daqui  vinha  em  muita  parte  a 
variedade  de  suas  opiniões  e  a  pouca  firmeza  de  suas  promessas;  o  conde 
todavia  fez  á  pátria  muito  serviço,  porque  sustentou  a  amizade  entre  as 
duas  coroas,  e  porventura  leve  mão  na  paz  apressada  com  Castella,  que 
era  de  esperar,  e  que  se  esperava  da  natural  inclinação  da  rainha  regente. 
França  de  mais  a  mais  houve-se  a  nosso  respeito  nas  conferencias  de 
Westphalia,  que  iam  procedendo,  com  energia  e  firmeza,  que  se  bem  não 


Se  enganar  enganadores  não  serve  aqui  de  desculpa  a  Francisco  de  Sousa,  o  arrojo, 
ao  menos  pelo  que  tem  de  patriótico,  é  digno  de  grande  louvor. 

•  O  cardeal  oITereceu  aos  embaixadores  ainda  mais  do  que  pediam ;  mas  eiies  não 
acceitaram,  respondendo  com  errada  phanlasia,  que  não  precisavam  tanto.  Veja-se 
Port.  Rest..  part  I,  1.  IH,  1641,  tom.  1,  pag.  162. 

*  Se  Mazzarini  tinha  por  si  a  benevolência  da  Rainlia  regente,  linha  lambem  contra 
si  a  mà  vontade  da  maior  parte  dos  grandes.  Em  razão  d'isso  o  seu  ministério  foi  muito 
agiudo;  e  elle  precisou  de  grande  industria  e  valor  para  se  suster,  principalmente  até 
á  paz  dos  Pyrcneus. 


32 


livernm  por  effeito  o  geral  reconliecimeiito  da  nossa  independência,  deram 
á  nossa  causa  bastante  importância,  e  penlioraram  o  governo  francês  com 
mais  este  motivo  de  perseverança  em  nosso  favor:  e  é  de  crer,  que  nisto 
tiveram  muito  influxo  a  diligencia  e  approvados  comportamentos  do  conde 
da  Vidigueira ;  que  na  verdade  sahiu  com  lionrado  credito  de  Paris,  quando 
em  fevereiro  de  1046  se  recolheu  a  Lisboa  com  licença  del-rei,  deixando 
a  António  Moniz  de  Carvalho  a  agencia  dos  negócios  de  Portugal  com  o 
titulo  de  residente. 

Pouco  mais  de  oito  ou  nove  mezes  se  deteve  o  conde  em  Lisboa,  por- 
que el-rei  tendo-o  assim  por  necessário,  o  mandou  de  novo  a  Paris,  aonde 
chegou  por  princípios  de  1G47,  condecorado  já  com  o  titulo  de  marquez 
de  Niza,  e  com  logar  no  conselho  dEstado.  Renovou  o  marquez  as  nego- 
ciações com  egual  empenho;  e  lambem  com  a  mesma  falta  de  successo. 
A  rainha  inclinava-se  ainda  mais  claramente  á  paz  com  Caslelia,  e  a  mesma 
inclinação  tinham  alguns  dos  seus  ministros.  Desejavam  ao  contrario  a  con- 
tinuação da  guerra  Mazzarini  e  o  príncipe  de  Conde;  posto  que  Mazzarini 
com  grande  esforço  e  artificio  dissimulava  o  seu  desejo'.  Não  podia  por- 
tanto o  governo  francês  seguir  um  plano  fixo  e  constante  acerca  de  Cas- 
tella;  o  que  necessariamente  impedia  a  final  conclusão  com  os  portugueses. 
Intendeu  por  ultimo  o  marquez,  que  França  não  concluiria  comnosco,  sem 
se  ultimar  o  congresso  de  Mimster.  e  que  provavelmente  poria  termo  á 
guerra  contra  os  castelhanos;  e  na  supposição  de  ficarmos  sós  em  campo 
com  os  nossos  antagonistas,  entrou  a  negociar  soccorros^.  Nesta  negocia- 
ção, porém,  experimentou  dilliculdades  não  menos  graves,  e  causadas  de- 
moras, que  apurando  muito  o  seu  soffrimento,  puzerara  em  grande  emba- 
raço a  corte  de  Lisboa. 

No  estado  de  cuidado  e  de  suspensão,  em  que  acerca  dos  negocies  da 
Ilollanda  se  achava  el-rei  D.  João  IV,  e  no  momento,  em  que  com  licença 
sua  voltava  de  Paris  para  Lisboa  o  conde  da  Vidigueira  em  1G4G,  é  que 
este  príncipe  se  resolveu  a  mandar  pela  primeira  vez  o  padre  António 
Vieira  a  Paris  e  Haya  ^.  A  8  de  março  do  dito  anno  chegou  à  Rochella,  e 


'  Voja-se  Porl.  Rest.,  p.  I,  1.  X,  lfi't7,  tom.  2,  pag.  239  c  240.  O  prineipe  queria 
novas  occasiões  de  grangear  gloria  e  poder  por  suas  proezas  militares;  o  cardeal  queria 
dar  entretinienlo  aos  espíritos  e  fazer-se  necessário. 

2  Veja-se  Port.  Rest.,  ibid.,  pag.  241. 

3  Só  em  André  de  Barros,  1.  I,  §§  L  e  LII,  acliei  nolicia  d'esia  primeira  jornada  a 


3;] 


1  lá  lie  abril  já  se  achava  de  volla  de  Paris  em  Calais:  em  cujo  porto  se 
embarcou  para  Flessinga,  e  na  llaya  eiilrou  a  d8  do  mesmo  mez.  Era  a 
sua  commissão  uesla  primeira  jornada,  conforme  o  (jue  diz  André  de  Bar- 
fos,  informar-se  do  verdadeiro  estado  dos  negócios  em  ambas  as  capitães, 
ex|)lorar  os  génios  e  ca[)acidades  dos  seus  ministros,  e  penetrar  os  seus 
ínais  occultos  desigiiios  e  resoluções.  Parece  aqui  com  effeilo  muito  pro- 
vável o  dito  do  liiograplio;  porque  se  de  uni  lado  os  precates  (Tel-rei  e 
a  demora  das  negociações  o  deviam  ter  desejoso  de  se  inteirar  perfeita- 
mente do  que  passava;  é  de  presumir  por  onlio  lado,  (jue  não  seria  menor 
a  empresa,  que  se  ílava  de  um  liomem  tão  conceituado  de  agudo  e  sagaz, 
como  Vieira'.  Como  quer  que  fosse,  o  mesmo  Harros  diz,  que  voltou  da 
llaya  a  Lisboa  passado  pouco  tempo;  e  é  certo,  (jue  lemos  razão  de  sup- 
pòr,  que  já  no  fim  de  agosto  era  chegado  ao  reino  -. 

No  verão  de  lGi7,  em  que  a  resolução  do  governo  francês  sobre  os 
soccorros  de  Portugal  se  demorava  com  tamanha  impaciência  do  marquez 
de  Niza ;  e  em  que  l-Yancisco  de  Sousa  Coutinho  empregava  os  últimos 
recursos,  para  impedir  que  a  armada  bollandésa  partisse  para  Pernam- 
buco, os  receios  e  pungentes  duvidas  da  nossa  corte  a  determinaram  a 
enviar  António  Vieira  novamente  a  França  e  Uollanda.  Fez  caminho  por 
Inglaterra:  chegou  a  Londres  a  2á,  e  de  Londres  a  Douvres  a  30  de 
setembro.  Partiu  de  Douvres,  tomadas  todas  as  precauções  para  não  ser 
demorado  na  ^)rn.ida  por  França,  chegou  a  Paris  em  novembro,  e  á  Haya 
ainda  dentro  do  ileziMubro  seguinte  ^.  Barros  o  dá  nesta  segunda  occasião  ■ 
por  vencedor  das  politicas  de  Mazzarini,  imi)edinilo  que  viesse  a  portiigal, 
como  era  voto  e  tenção  do  ministro  francês,  o  priucipe  de  Conde;  e  toca, 
posto  que  levemente,  as  diíTerenças  de  opinião,  que  surgiram  entre  António 


França  e  Uollanda :  mas  não  o  posso  suppOr  aqui  mal  informado,  ou  desejoso  de  en- 
ganar em  ponto  semelhante. 

'  Na  Carta  118  do  vol.  II,  a  pag.  38G,  asslgna  o  mesmo  Vieira  este  motivo  i  sua 
jornada:  mas  não  é  bem  claro  se  lia  de  Inlemlerse  da  primeita,  se  da  segunda;  lia 
razão  para  o  Intender  de  qualquer  d'ellas. 

'  O  sermão  decimo  da  duodécima  parte  foi,  segundo  a  sua  inscripção,  pregado  em 
Lisboa  a  17  de  setembro,  e  entre  o  encargo  e  o  desempenho  devia  mediar  algum  teuipo. 
Não  occulto  porém  que  as  datas  d'estas  inscripções  nem  sempre  me  parecem  verda- 
deiras. 4^ 

'  Vejam-se  as  cartas  I,  II,  III,  do  vol.  I,  das  de  Vieira.  O  que  se  não  comprehende 
hem,  é  que  qualquer  d'estas  missões  occupasse  Vieira  por  tão  pouco  tempo. 
3 


34 


Vieira  e  o  niarijuez  de  Niza.  E  com  elíeito,  como  na  vinda  de  Conde  se 
implicava  a  continnnção  da  guerra  com  Gasleila,  que  a  rainha  e  seus 
njinistros,  fora  de  Mazzarini,  não  desejavam,  pôde  ser  que  a  opposição  de 
Vieira  fosse  neste  ponto  efficaz  contra  os  propósitos  do  cardeal :  e  D.  Luiz 
de  Menezes  não  encobre,  que  as  idéas  de  Vieira  e  as  do  marquez  de  Niza 
eram  diversas,  e  que  o  marquez  dosapprovava  muito  altamente  as  do 
jesuita '. 

Em  Ilollanda  demorou-se  António  Vieira  communicando  com  Francisco 
de  Sousa  Coutinho  o  traio  dos  interesses  de  Portugal.  Porém  a  sua  habili- 
dade era  escusada,  onde  tanto  se  distinguia  a  do  companheiro;  e  parece 
na  verdade,  que  Vieira  no  tocante  aos  negócios,  que  nos  importavam  na 
Haya,  não  fez  outra  coisa,  que  ser  teslimunha  das  baldadas  tentativas  da 
armada  de  Pernambuco  para  se  fazer  ao  largo,  ou  anles  testimunha  do 
grande  triumpho,  que  a  finura  de  Francisco  de  Sousa  havia  ganhado  sobre 
as  dobrezas  da  Republica-.  Se  porém  onde  estava  Francisco  de  Sousa  tinha 
pouco  em  que  se  empregar  o  talento  de  Vieira,  não  perdeu  este  comtudo 
o  tempo  para  o  serviço  da  pátria,  segundo  conta  o  seu  biographo:  porque 
foi  nesta  occasião,  que  elle  por  via  de  Hamburgo  mandou  para  Lisboa  em 
uma  de  três  liagatas  de  guerra,  que  fez  construir,  a  importância  de 
cincoenta  mil  crnzados  em  petrechos  militares;  entre  os  quaes  veio  a  arti- 
lharia, que  depois  serviu  com  tanta  honra  e  utilidade  nossa  na  celebre  e 
venturosa  jornada  das  linhas  d'Elvas  ^ 

Como  os  nossos  agentes  nas  conferencias  de  Westphalia  não  haviam 
sido  admittidos  com  representação  própria,  e  nellas  linha  muita  influencia 
o  parlido  dos  nossos  inimigos,  soffriam  os  agentes  portugueses,  e  soffria 
o  reino  nas  suas  pessoas  grande  desar  *.  Mandá-los  recolher  absolutamente, 


1  Porl.  Rrst.  p.  I.  1.  X,  tom.  2,  pag.  269,  ediç.  de  1739. 

*  Vieira  na  carta  III,  do  vol.  I,  em  postseiiplo  de  3  de  janeiro  do  1648,  da  noticia 
da  armada,  dizendo:  «  Armada  tem  arribado  duas  vezes, perdeu  já  nlQuns  navios,  rai-llie 
morrendo  genic,  etc. 

'  Veja-se  André  de  Ijarros,  1. 1,  §  LXI.  No  relatório  porém,  que  Vieira  faz  dos 
seus  serviços  politicos  na  carta  118  do  vol.  II,  não  acho  este  apontado,  como  era  de 
esperar. 

N.  B.  Aelia-se  apontado  em  um  memorial  manuscrito,  apresentado  por  António 
Vieira  ao  Príncipe  D.  Pedro  Regente  de  Portugal;  que  me  foi  communieado  do  archivo 
da  Academia. 

*  Port.  Rest  dita  edição,  part.  1, 1.  X,  tom.  2,  pag.  314. 


35 


<;eria  inoslrar  ciesesperação  luuilo  arriscada,  e  lalvcz  perder  alguma  occa- 
sião  favorável,  ijue  ou  podia  deparar  a  fortuna,  ou  proporcionar  a  politica 
de  França  e  de  Suécia,  em  cuja  amizade  linliamos  razão  de  pôr  confiança, 
imaginou  LllUei  neste  aperto  um  meio  termo,  ijiie  suppnnlia  bem  acertado, 
e  que  viulia  a  ser:  mandar  uma  pessoa  de  alta  qualidade,  a  quem  uãO 
pudessem  uegar-se  justas  altcnções,  c  que  com  o  seu  respeito  moderasse 
ao  menos  os  eiTeitos  pouco  decorosos  do  rancor  o  politica  castelhana  *. 
Eácollieu  para  isto  D.  Luiz  de  Portugal,  que  se  achava  em  lloilanda,  e  que 
como  neto  do  lYior  do  Crato,  era  bisneto  do  infante  D.  Luiz,  c  terceiro 
nelo  (l"el-rei  D.  Manuel;  e  deu  ordem  a  António  Vieira  para  partir  em 
companhia  de  U.  Luiz  para  Westphalia  "-:  mas  esta  idéa  não  chegou  a 
pòr-se  em  pratica,  porque  emquanto  se  apercebiam  para  a  viagem  os  novos 
enviados,  se  romperam,  ou  se  concluirauí  em  outubro  de  IGi8  as  confe- 
rencias do  congresso;  assentando  Hespanha  paz  com  Holianda  e  Suécia,  e 
determiiiando-se  a  proseguir  contra  França  c  contra  uós  com  maior  erape- 
uho  a  guerra. 

I>esvanecido  este  jirojeclo,  quiz  el-rei  deixar  na  Haya,  como  ministro, 
António  Vieira:  ou  porque  Francisco  de  Sousa  requereu  successor,  ou 
porque  o  desejavam  os  estados,  a  quem  as  destrezas  de  Francisco  de 
Sousa  inconunodavam  muito,  ou  emíim  porque  nos  era  prejudicial  a  des- 
conliança  da  sua  pessoa,  procedida  dos  passados  acontecimentos  ^.  António 
Vieira  recusuu-se,  allegando  as  repngnancias  do  seu  Instituto;  e  el-rei 
acceitou  a  sua  aliegação,  ficando  por  isto  Vieira  desimpedido  para  se  tor- 
aiar  ao  reino.  Não  me  consta  precisamente  o  tempo,  em  que  voltou ;  mas 
ha  fuiulaniento  para  allirmar,  que  já  eslava  em  Lisboa  em  agosto  de  1049, 


'  ÁQ  rancor  e  politica  casleliiana  se  ajuntou  para  a  dosaucloiifiade  dos  nossos 
ministros  a  discórdia  entre  eitos  mesmos;  que  chegou  a  lanio,  que  o  mar(iuez  de  Niza 
escreveu  a  el-rei,  <iue  mandasse  para  suas  casas  t^rancifcu  de  Andrade  e  Luiz  Pereira 
descunrar  do  muito  que  tinham  trabalhado  um  tonlra  o  outro.  Port.  Hest.,  ibid.  pag.  242. 

»  Porl.  R>'st,  p.  I,  1.  X,  tom.  â,  pag.  a  14,  e  André  de  Barros,  I.  I,  §  LVIII.  D.  Luiz 
Guilliemie  de  Portugal  era  fillio  de  D.  Manuel  de  Portugal  e  de  uma  irmfi  do  principe 
de  Orange,  HiM.  Gcneal.  da  Caxa  Rml  Port.,  tom.  3,  pagg.  391,  401. 

'  O  Porl.  Resl.  ibid.  pag.  313,  refere,  que  os  Estados  mandaram  despedir  Francisco 
de  Sousa. 

A'.  B.  Vieira  diz,  na  carta  Ms.  ao  conde  da  Ericeira,  e  que  coiTesponde  á  H8  do 
vol.  II,  mas  nmito  mais  ampla,  que  recebeu  a  credencial,  e  immediatamcnte  partiu 
para  Lisboa,  onde  allegou  as  suas  escusas. 


30 


e  Barros  deciíliilamente  refere,  que  veio  receber,  no  dilo  aiino,  a  recom- 
pensa dos  seus  trabalhos  e  serviços  pi)liticos,  nas  approvações  e  gracioso 
acolhimento  do  monarciía;  que  deu  pouco  depois  inteira  prova  da  sua 
satisfação,  fiando  de  Vieira  empresa  não  menos  relevante  e  delicada  •. 

D.  Luiz  de  Menezes,  se  bem  confessa  que  Vieira,  a  quem  de  caminho 
concede  grande  eminência  na  oratória  cliristã,  commnnicou  com  os  prín- 
cipes estrangeiros  e  ministros,  muitos  negócios  de  grande  importância, 
insinua  comtudo,  que  a  sua  politica  foi  pouco  venturosa  nos  successos.  A 
superioridade  do  juizo  de  Vieira  aos  negócios,  de  qne  provinha  em  os 
tratar  uma  subtileza,  que  não  alcançavam  aquelles  com  quem  conferia,  é  a 
razão,  que  elle  dá  d'esta  pouca  ventura.  E  assim  como  de  um  politico 
antigo  disse  o  grave  Corn.  Tácito,  que  tratou  felizmente  as  matérias 
dEstado,  porque  seu  engenho  nem  era  inferior  aos  negócios,  nem  supe- 
i'ior;  assim  dá  o  auctor  do  Porlugnl  licslawado  a  intender,  que  as  nego- 
ciações commeltidas  a  Vieira  se  mallogravam,  porque  eram  excedidas  do 
seu  juizo  2. 

Acho  eu  na  verdade  provável,  que  um  homem  costumado  ás  disputas 
muito  subtis  das  cscholas,  e  aos  raciocinios  muito  remontados,  que  reque- 
ria a  oratória  do  tempo,  e  cuja  profissão  e  exercícios  eram  tão  diversos, 
descendo  d'aquelle  mundo  imaginário  ao  real,  se  achasse  exlranho;  e  ou 
por  não  ajuizar  bem  ao  justo  das  differenças,  ou  por  se  não  querer  accom- 
modar  com  ellas,  errasse  os  caminhos,  e  não  achasse  boa  sabida,  onde  um 
pratico  do  paiz,  ainda  dotado  de  talento  mediano,  poderia  acertar  com  ella 
sem  grande  maravilha.  O  marquez  de  Niza,  de  cuja  habilidade  e  destreza 
fizeram  conceito  honrado  as  cortes  de  Paris  e  de  Lisboa,  rejeitou  altamente 
em  Trança  os  pareceres  de  Vieira;  e  o  mesmo  escriptor  refere,  que  as 
offertas  muito  liberaes  do  jesuita,  feitaá  ao  cardeal  Mazzarini,  causaram 
grande  damno  ás  negociações  portuguesas,  e  o  causariam  muito  maior,  se 
o  marquez  não  as  impedisse,  declarando  formalmente  a  resolução,  em  que 
estava  de  não  as  assignar  ^.  Vieira  emfim,  defendendo-se  d'aquellas  insi- 


1  Veja-se  André  do  Barr.  1. 1,  §  LXXV.  Em  1649  recitou  pm  Enxobregas  a  oração 
fúnebre  de  D.  Maria  de  Atliaidc.  (Scrni.  p.  IV,  n.  XIII),  falleeida  cm  26  de  agosto  do 
mesmo  aimo. 

2  P.  I,  I.  X,  tom.  II,  da  dita  edição,  pag.  242. 

3  Qne  foi  neressurio  uu  marquez  de  Niza  resiMir  com  tanta  vclmiienda  a  attjnmnx 
promessas  exhorbitantes,  que  o  padre  António  Vieira  determinava  fazer  ao  cardeal,  que 
lhe  disse,  que  antes  havia  de  deixar  cortar  as  mãos,  que  firmá-las.  ibid.,  pag.  269. 


37 


nuações  de  1).  Luiz  de  Menezes,  aiuda  que  aponta  alguns  arbítrios  úteis, 
alguns  avisos  aiitecipaiios,  de  que  foi  auctor  em  Lisboa,  não  dá  uma  coar- 
tada  cabal,  quanto  eu  posso  intender  na  matéria,  de  se  llie  desvanecerem 
as  negociações  em  paizes  estranhos;  nem  se  encarrega,  ao  menos  que 
conste  dos  seus  escriptos  impressos,  de  responder  á  imputação  do  damno, 
procedido  ao  negocio  da  Liga  das  suas  offertas  muito  exorbitantes  a  Maz- 
zarini  '. 

Pedem  porém  a  verdade  e  justiça,  que  façamos  a  este  respeito  algu- 
mas ponderaçijes  favoráveis  ao  credito  de  Vieira,  deixando  por  fim  ao  leitor 
a  isenção  do  próprio  juizo,  e  o  conceito  da  nossa  imparcialidade.  O  auctor 
do  Portugal  Restaurado,  seja  por  convicção  pura,  seja  por  convicção  e 
affeclo,  mostra-se  muito  inclinado  ao  marquez  de  Niza,  que  em  França 
reprovou  sem  duvida  alguma  os  arbitrios  de  Vieira.  Esta  falta  de  accordo 
entre  o  marquez  e  o  jesuila  podia  muito  bem  nascer  de  ciúme  no  marquez; 
para  o  que  seria  fundamento  bastante  a  ordem,  que  lhe  foi  de  Lisboa  de 
não  fallar  á  rainha  e  a  Mazzarini,  senão  de  companhia  com  Vieira.  Se  esta 
ordem  foi  ou  não  prudente,  não  disputo  aqui;  mas  (jue  podia  desconsolar 
e  causar  no  marquez  muita  desconfiança,  tenho  por  evidente  *.  A  indispu- 
tável discreção  (e  com  isto  concluo  neste  ponto)  d  el-rei  D.  João  IV,  parece 
que  julgou  dilTerentemente  das  negociações  de  Vieira:  pois  que  o  tornou 
a  mandar  a  França  e  Holianda  em  1647;  que  o  quiz  mandar  ás  conferen- 
cias de  Westpbalia  com  D.  Luiz  de  Portugal ;  que  o  quiz  deixar  na  Haya 
em  logar  de  Francisco  de  Sousa;  e  que  emfim  o  mandou  a  Roma  com  o 
ponderoso  encargo  que  fica  indicado,  e  de  que  continuaremos  a  fallar 
agora. 

Achava-se  Portugal  cansado  de  uma  guerra  tão  activa,  como  dilatada; 
e  as  suas  ordinárias  contingências  faziam  sempre  temer  desastres.  O  animo 
d"el-rei,  posto  que  não  era  apoucado,  inclinava-se  muito  á  paz ;  desejando 


•  Devia  responder,  no  caso  de  d.nr  a  este  artigo  resposta,  na  caria  118  do  voi.  II, 
porque  sendo  a  dita  carta  uma  directa  refutação  das  censuras  do  conde  da  Ericeira, 
e  sendo  esta  uma  das  censuras  principaes.  não  era  bem  que  esquecesse :  ou  porém 
ewiueceu.  ou  Vieira  não  teve  modo  de  a  desfazer. 

S.  B.  Na  carta  Ms.  ao  conde  da  Ericeira,  que  fica  apontada,  e  que  da  Academia 
se  me  communicon.  não  aciío  aiLida  a  coartada  cabal. 

•*  A  dilTerenca  do  marquez  de  Niza  ou  a  sua  desaiipiovação  das  politicas  de  Vieira, 
nascendo  d'a(iueíle  ciúme,  e  a  nou  de  D.  Luiz  de  Menezes,  nascendo  da  paixão  em 
favor  do  marquez.de  Niza,  perdem  evidentemente  muito  da  sua  força. 


38 


sabiamente  o  mais  seguro,  sem  faltar  nas  opportunas  occasiões  ás  empresas 
(lo  maior  risco.  E  como  Ulippe  IV  tinha  por  única  iierdeira  a  infante  D.  Maria 
Thereza,  sua  filha,  occorreu  a  el-rei,  que  Gastella  podia  dar  ouvidos  á  pro- 
posta do  seu  casamento  com  o  príncipe  D.  Theodosio;  e  que  por  esta  via 
tão  airosa  se  poderia  obter  paz  honrada  para  Portugal;  ajuslando-se  mudar 
para  Lisboa  a  residência  dos  monarchas  '.  Estavam  até  então  muito  verdes 
as  desconfianças  castelhanas,  e  por  isso  tal  negocio  ainda  não  se  podia 
tratar  directamente.  Podiam  porém  toraar-se  as  alturas,  e  ir-se  aventurando 
algumas  insinuações,  que  conforme  o  que  delias  resultasse,  ou  se  conver- 
teriam em  formal  pretensão,  ou  se  poriam  de  parte.  Com  esta  tenção  foi 
António  Vieira  mandado  a  Roma,  onde  era  embaixador  de  Gastella  o 
duque  do  Infantado;  porque  além  da  confiança  nos  talentos  e  zelo  de  Vieira, 
dava  a  este  alguma  facilidade  de  negociar  a  circumstancia  de  ser  o  duque 
sobrinho  de  um  auctorizado  jesuila,  o  padre  Pedro  Gonçalves  de  Men- 
donça *. 

Os  napolitanos,  sempre  inquietos  e  ao  presente  mal  soffridos  do  domí- 
nio castelhano,  procuravam  todos  os  meios  de  se  lhe  escaparem.  Entre 
outros  arbítrios  dirigiram  em  profundo  segredo  propostas  a  el-rei  D.  João  IV; 
e  este  príncipe  sem  as  ter  em  grande  conta,  julgou  que  não  as  devia 
desprezar  de  todo.  Quando  d"aqui  não  podesse  residtar  accrescentamento 
de  território  aos  estados  de  Portugal,  procederia  sempre  occupação  incom- 
moda  e  desagradável  a  Gastella;  e  Outra  diversão  da  parte  de  Nápoles, 
como  a  de  Gatalunha,  tinha  para  nós  conveniências,  e  suppria  de  algum 
modo  a  de  Ilollanda,  que  havia  cessado  com  os  ajustes  de  Westphalia. 
Mas  o  caracter  dos  napolitanos  obrigava  a  grandes  cautelas;  e  cm  todo  o 
caso  não  devia  el-rei  empenhar-se,  emquanto  não  tivesse  muito  particulares 
noticias  das  pretensões,  dos  meios  e  da  capacidade  e  influencia  das  pessoas. 
E  porque  em  Roma  as  poderia  haver  a  penetração  e  diligencia  de  António 
Vieira,  esta  foi  naquella  commissão  a  segunda  parte  das  instrucções,  cora 
que  el-rei  o  enviou,  dando-lhe  na  substancia  e  no  modo  os  signaes  menos 
equívocos  de  estimação,  e  mesmo  de  affecto  ^ 


'  Em  1650,  Filippe  IV  nãci  tinlia  do  segundo  matrimonio  filho  algum,  e  do  primeiro 
não  tinha  mais,  que  a  infante  D.  Maria  Thereza,  depois  mullnT  de  Luiz  XIV  de  íranea. 

2  Veja-se  André  de  Barros,  I.  \,  §§  I^XXV  c  seguintes,  e  especialmente  oLXXXII. 

3  D'isto  convence  bem  o  fragmento  das  instrucções  secretas,  que  el-rei  deu  a 
Vieira,  copiado  por  Barros  no  livro  citado,  §§  LXXVIII-LXXIX. 


39 


À  10  de  jaueiro  de  1630  largou  António  Vieira  do  porlo  de  Lisboa,  e 
desembarcando  em  Leorne,  partiu  para  Roma,  onde  chegou  a  10  de  feve- 
reiro seguinte.  Principiou  quanto  antes  a  cumprir  com  as  instrucções,  de 
que  ia  encarregado;  e  não  passou  muito  tempo  sem  mandar  acerca  dos 
negócios  de  Nápoles  informação  c  parecer,  por  que  el-rci  se  determinou  a 
desprezar  inteiramente  as  propostas,  que  lhe  tinham  sido  feitas '.  A  matéria 
do  casamento  requeria  maior  demora.  Foi  espreitando  e  entrevendo  pouco 
a  pouco  as  opiniões;  e  à  proporção  que  as  foi  tendo  por  hiclinadas  ao 
casamento  da  infante  com  o  [irincipe  de  Portugal,  foi  insistindo  nos  motivos, 
cm  que  assentavam,  e  inculcando-os  e  expondo-os  com  solidez  e  com  a 
energia  própria  da  sua  grande  intimativa.  Casar  a  infante  com  um  príncipe 
liespanhol,  e  o  restitnir-se  por  este  meio  a  paz  á  monarchia,  e  o  vulto  e 
poder,  que  tinha  antes  de  1640,  era  o  voto  de  todos  os  sisudos;  mas  a 
residência  da  corte  em  Portugal  ou  em  Castella,  era  difficuldade  gravís- 
sima em  que  todos  topavam :  havendo  os  castelhanos  a  residência  em 
Lisboa  como  repugnante  aos  seus  commodos  e  muito  desairosa  ao  seu 
capricho  e  pundonor,  e  liavendo  os  portugueses  a  residência  em  Madrid 
como  opposta  totalmente  á  sua  justa  liberdade  *. 

Esta  difficuldade,  que  então  era  nuiito  grave,  e  que  o  será  sempre 
para  a  união  bem  curdeal  dos  dois  estados,  emquanto  imprevistas  circum- 
slancias  não  destruírem  pelo  habito  de  séculos  a  memoria  ou  da  grandeza 
de  um  d'e!les,  ou  da  independência  do  outro,  esta  difficuldade,  digo,  ia 
Vieira  desfazendo  com  ponderações  [dausiveis  sobre  as  vantagens  da  situação 
de  Lisboa,  e  os  inconvenientes  da  de  Madrid ;  e  a  castelhanos  de  bastante 
representação  iam  parecendo  bem  os  seus  argumentos.  Mas  quando  elle 
andava  mais  enlevado  nestas  praticas,  a  corte  de  Castella  mandou  muito 
apertadas  ordens  ao  seu  embaixador,  para  o  fazer  sahir  de  Roma  sem 
demora;  e  pôz  na  sua  execução  o  embaixador  tamanho  empenho,  que 
chegou  a  declarar,  que  se  Vieira  não  sahisse  para  logo  de  Roma,  se  arro- 
jaria a  mandar-lhe  tirar  a  vida.  E  porque  estas  ameaças  pareceram  muito 


'  Vej.i-se  o  fragiueuto  du  outra  carta  (l'el-rei  para  Vieira,  copiado  por  Barro.s, 
ibid,  I  XCIV:  íHffereiite  conccUo  fazia  das  cousa-s  de  Xapoles,  anli:f  de  parlirdcx  d'esla 
còrle...  fazendo  juizn  dos  inronienientes,  (jue  apontaes  no  principio  d'esla  carta,  me 
pnreceiíi  mais  certos,  iiiie  a.s  utilidades,  cuni  que  me  posso  animar  a  mandar  continuar 
esta  empresa. 

*  Não  é  tão  fácil,  como  parece,  resolver  a  (juestão  do  ponto,  em  que  deve  residir 
a  corte  dos  monarcbas  de  toda  a  Ilespanlia.  Ha  muitos  argunienlos  especiosos  por 
parte  de  Lisboa:  mas  não  pôde  negar-se.  que  fica  muito  na  extremidade  occidcntal. 


40 


effeclivas,  e  por  ellas  toda  a  esperança  de  bons  efleitos  da  negociarão  ficava 
cortada,  tomou  Vieira  o  expediente  de  ceder  aos  desejos  muito  encarecidos 
do  governo  de  Madrid  *. 

Não  consta  ao  certo  d"onde  procederam  desejos  tão  impacientes ;  mas 
não  é  conjectura  desprezível  a  que  os  attribue  a  alguma  noticia,  que  das 
propostas  de  Na[)oles  tivesse  chegado  ao  governo  casteiliano.  Parece  pro- 
vável que  esta  fosse  antes  a  sua  origem,  do  que  a  prática  sobre  o  casa- 
mento: porque  se  a  dita  prática  não  podia  dar  em  qualquer  supposição 
cuidado  ã  corte  de  Filippe  IV,  podia  dar-lbs  muito  o  occulto  fogo,  que 
lavrava  em  Nápoles,  sendo  soprado  desde  Roma  pela  sagacidade  tão  activa 
de  António  Vieira.  E  o  certo  é  que  el-rei  de  Portugal  na  carta,  que  anteci- 
padamente lhe  escreveu,  por  aquelle  lado  é  que  mostra  receio  dé  perigos 
para  a  sua  pessoa,  estado  e  instituto;  e  trata  de  os  prevenir,  mandando-o 
acompanhar  por  Manuel  Rodrigues  de  Mattos,  que  a  Sua  Majestade  servia 
de  agente  na  praça  de  Leorne  ^. 

Como  Vieira  pregava  em  Lisboa  já  por  novembro  ou  dezembro  d"este 
anno  de  IGaO,  é  de  suppôr  que  teria  sabido  de  Roma  em  agosto,  ou,  pelo 
menos,  em  setembro  ^.  Não  alcancei  porém  noticia  mais  precisa  e  certa.  E 
só  é  fora  de  duvida,  que, ainda  datava  de  Roma  em  30  de  maio  a  famosa 
carta  dirigida  ao  príncipe  D.  Theodosio,  que  é  a  quinta  do  primeiro  volume : 
carta,  egualmente  notável  por  aidor  marcial  e  primoroso  estylo,  que  provo- 
cou as  reflexões,  muito  cáusticas,  se  me  não  engano,  do  auctor  da  Dc- 
ducção  Chronologica  ^ .  Não  é  de  prcsuuíir,  com  effeito,  que  António  Vieira, 
quando  recebia  del-rei  tamanhos  favores,  se  empeniiasse  em  dividir  d'elle 
o  príncipe,  e  em  incitar  o  ultimo  á  desobediência;  e  D.  Luiz  de  Menezes, 
faltando  da  jornada  do  príncipe  ao  Alemtejo,  cm  1651,  não  a  representa 


*  Vieira  uão  só  interrompeu,  retirando-se  promptamente  de  Roma,  o  negocio  do 
casamento  do  príncipe;  mas  também  o  projecto  de  apresentar  ao  Papa  Innoccncio  X, 
iim  memorial  sobre  a  conversão  dos  liereges  do  norte.  Barros,  ibid.,  §  XCVI. 

2  Fragmento  copiado  por  Barros,  ibid.,  %  LXXIX:  Mas  porqiir  a  exeair.ão  d'eUu 

pôde  ser  de  ulguma  indecencin  ao  vosso  estado,  e  ter  ineonvenientes  para  a  vossa  Religião. 

e  sobretudo  o  periyo  pura  a  vossa  pessoa...  mando  ordenar  a  Manuel  Rodrigues  de 

Mattos. . .  passe  a  Roma  em  vossa  companhia. 

N.  B.  No  memorial  ao  principe  IJ.  Pedro,  declara  Vieira  esta  mesma  razão 

'  O  sermão  V,  da  part.  Ill,  foi  pregado  na  primeira  dominga  do  Advento  de  1650,  o  é 

um  dos  do  juizo  fnial,  particularmente  reconmiendados  e  recommendaveis  entre  os  do 

auctor. 

*  Veja-se  a  Deducção  Chronol.,  part.  I,  §  378,  not.  (a). 


41 


com  siiuilhantes  cores,  mas  ao  contrario  a  trata  de  uma  honrada  gentileza 
acouselliada  somente  pelo  próprio  valor,  e  que  a  intriga  da  corte  reprcisou, 
impedindo  por  einulai;ão  prováveis  conseipiencias  muito  venturosas  '.  E  a 
verdade  é  talvez,  que  não  passou  de  uma  galliarda  resolução  do  príncipe, 
approvada  de  muitos,  mas  tida  cm  diversa  conta  por  el-rei,  que  com  agudo 
e  justo  jnizo,  sem  lhe  notar  culpa,  lhe  divisou  graves  inconvenientes,  que 
a  sua  prudência  tratou  de  remediar  a  tempo. 

Com  esta  volta  de  Roma  para  Lisboa  tiveram  termo  por  então  as  coni- 
missões  ou  negociações  politicas  encariegadas  ao  padre  António  Vieira. 
Mas  a  sua  rara  actividade,  que  não  [lodia  solTrer  inacção,  nem  ainda  des- 
canço,  entrou  por  outras  vias  a  procurar  logo  alimento  e  exercício.  Sahiu 
com  o  padre  João  de  Soto-Maior  em  missão  á  villa  de  Torres-Vedras :  e  no 
volume  sexto  dos  sermões  anda  impresso  um  dos  que  por  aquella  occasião 
pregou  na  dita  villa '.  .\  missão  tinha  acabado  antes  do  meio  de  junho  de 
1651,  pois  que  em  caria,  escripta  do  coUegio  de  Santo  Antão  ao  padre 
Nuno  da  Cunha  em  17  do  mez,  falia  d'ella  como  concluída^.  Recolhido 
porém  a  Lisboa  de[)ois  da  missão  em  Torres-Vedras,  principiou  ou  conli- 
mioa  a  projectar  trabalíio  do  mesmo  género,  muito  mais  largo  e  muito 
mais  dilDculloso.  Aijuelle  voto,  que  dissemos  annullado  pelos  superiores, 
quando  com  elle  se  escusava  de  entrar  no  estudo  das  sciencias  mais  graves, 
ou  nunca  foi  posto  de  parle,  ou  foi  recordado  agora  com  lodo  o  escrúpulo 
de  uma  coiisciencia  delicada,  e  o  resolul(»  empenho  de  quem  desejava 
muito  gastar  o  restante  da  vida  nos  mais  ardiios  serviços  do  christianismo, 
e  do  seu  instituto  jesuítico. 

O  .Maranhão  com  os  sertões  immensos,  que  são  cortados  dos  seus  rios, 
foi  o  campo  vastíssimo,  que  agora  se  escolheu  para  o  arrotear,  e  para 
depositar  nelle  a  semente  do  evangelho.  .\  religião,  o  estado  e  a  humani- 
dade fariam  grandes  interesses,  se  esta  empresa  fosse  accommetlida  e 
proseguida  com  zelo  discreto  e  bem  encaminhada  dihgencia.  Innumeraveis 


'  Deliberou-se  o  principe  a  esta  jornada,  só  aconsflliado  do  seu  ritlor .  ■ .  rendo  o 
príncipe,  que  prevaleciam  os  que  iinulos  dn  suo  grandeza,  otc,  Porl.  Resl.,  vol  II, 
pagg.  361  e  364. 

'  Barr.  I.  I,  §§  C.  e  seguintes.  O  sermão  é  o  XIII,  do  VI  vol.,  que  na  insfiipçãi» 
tem  a  data  de  IG52.  a  qual  não  concorda  com  a  data  da  carta  ao  padre  Nuno  dadunlia, 
que  é  de  ICiJI. 

3  Eu  na  minfia  missão  passei  bem;  e  só  me  faltou  acompanhar  a  Y.  It.  na  sua  paru 
twlla  aprender,  etc.  Fragmento  copiado  por  Barros,  1.  I,  §  CII. 


42 


selvagens  trocariam  os  incommodos  de  vida  errante  e  brutal  pelas  doçuras 
do  trato  civil ;  o  império  português  grangearia  cidadãos  e  largos  territórios, 
de  que  apenas  tem  ainda  hoje  confusa  noticia,  e  grangea-los-liia  com  pe- 
quena despesa  e  menos  trabalho;  a  Kgreja  cathoiica  se  dilataria,  e  com  ella 
todos  os  proveitos  de  espirito  e  de  politica,  que  são  inseparáveis  da  crença 
religiosa  e  da  moral  evangélica  ;  e  até  as  sciencias  e  artes  cresceriam  com 
experiências  e  noticias,  e  em  matéria  riquíssima  das  suas  reQexões  e  tra- 
balhos :  e  Portugal  recolhendo  o  cêntuplo  e  muito  mais  do  cêntuplo  dos 
seus  empregos,  só  leria  que  admirar  o  zelo  invencível  de  homens  heróicos, 
e  que  abençoar  a  religião  santa,  que  exaltando  assim  os  inleudimentos  e 
reforçando  os  peitos  humanos,  é  capaz  de  obiar  por  meios  pacíficos  e  suaves 
tão  estupenda  maravilha  *. 

Mas  a  continuação  d'este  discurso  mostrará,  que  ou  o  zelo  uão  foi  bem 
discreto,  ou  os  seus  effeitos  foram  impedidos  de  estranhas  causas ;  e  que 
Vieira  depois  de  cansadas  tentativas  foi  obrigado  primeira  e  segunda  vez 
a  desistir;  até  que  emfim  detido  por  quasi  vinte  annos  na  Europa,  só  se 
tornou  á  sua  America,  agora  tão  desejada,  quando  os  annos  e  moléstias  o 
determinaram  a  procurar  o  clima  favorável,  e  o  repouso  suave  da  quinta 
do  seu  collegio  da  Bahia^.  A  vontade  d'el-rei,  a  da  rainha  e  a  do  príncipe 
D.  Theodosio  oppunham-se  com  muita  determinação  ao  intento  de  Vieira 
em  1632.  Quiz  elle  embarcar-se  occullamente ;  mas  não  teve  eífeito  a  sua 
industria,  porque  o  atalhou  a  ordem  real.  Recorreu,  vendo-se  assim  ata- 
lhado, a  representações  e  rogos,  e  por  seu  meio  chegou  a  obter  licença 
e  favoráveis  provisões  datadas  de  outubro.  E  posto  que  el-rei  ainda  mudou 
de  resolução,  e  de  novo  insistiu  na  sua  demora  em  Portugal,  o  empenho 
de  Vieira,  favorecido  de  accidentes,  não  sei  se  casuaes,  se  premeditados, 


'  Em  mil  casos  tem  a  religião  chrislã  obrado  desde  o  seu  nascimento  esta  mara- 
vilha estupenda  cm  todas  as  partes  do  globo.  E  mesmo  por  este  lado  só,  a  historia  não 
oITerece  instituição  cgualmente  benemérita  da  humanidade.  No  zelo  para  intentar  com 
resolu(;ão  e  perseverança,  na  caridade  para  solTrcr  e  attrahir,  na  generosidade  para 
desprezar  interesses  e  grangeos,  que  são  os  mais  próprios  e  suaves  instrumentos  da 
redacção  de  bárbaros,  é  e  tem  sido  singular  e  incomparável.  Tem  realizado  as  mila- 
grosas musicas  da  fabula  pagã,  e  o  que  na  gentilidade  não  eram  senão  sonhos,  são 
acontecimentos  verdadeiros  no  christianisiiio. 

-  Segunda  vez  voltou  Vieira  do  Maranl)ão  para  a  Europa  em  1661,  e  de  cá  voltou 
para  a  Bahia  em  janeiro  de  1681. 


43 


lhe  facilitou  occasião  de  se  embarcar,  e  de  saliir  scni  estorvo  da  barra  de 
Lisboa '. 

A  ii  de  novembro  de  163á  saliiu  do  Tejo  o  padre  António  Vieira,  tro- 
cando as  estimações  e  valias,  que  os  seus  talentos  e  serviços  Ibe  tiubam 
merecido  na  ÍMiropa,  por  trabalhos  árduos,  em  remotas,  pouco  conhecidas 
e  quasi  impraticáveis  regiões.  Se  a  uma  resolução  tão  estranha  o  não 
determinaram,  como  eu  creio,  escrúpulos  do  primeiro  voto,  e  motivos' 
inteira  e  puramente  chrislãos,  será  preciso  atlrihui-la  a  um  gosto  de  sin- 
gularidade, que  pelo  commum  se  nola  nos  espiíilos  muito  activos,  e  de 
que  Vieira  pôde  ser  suspeito  com  gramle  verosimilhança.  Pelo  menos  eu 
não  alcanço  outras  razões  de  procedimento  tão  encontrado  com  o  modo 
ordinário  de  pensar  e  de  obrar  dos  homens.  Mas  deixando  motivos  recôn- 
ditos, que  não  é  possível  assignar  sem  alguma  temeridade ;  a  caravella, 
em  que  se  emliarcou  António  Vieira,  depois  de  provar  ora  tormentas,  ora 
calmarias,  abordou  em  20  de  dezembro  na  villa  da  Praia  e  ilhas  de  Cabo 
Verde :  onde  se  deteve  pouco  tempo,  que  Vieira,  nunca  ocioso,  empregou 
em  fazer  doutrina  e  pregar  aos  moradores ;  e  foi  dar  fundo  no  Maranhão 
em  17  de  janeiro  de  IG3.3'-. 

A  poucos  dias  da  chegada  de  António  Vieira  ao  Maranhão,  levanlou-se 
descomposta  tormenta  de  commoção  [)opnlar  contra  os  jesuítas.  Uma  lei 
real,  que  dava  por  livres  todos  os  escravos  daquelle  districto,  e  que  se 
promulgou  com  soiemnidade,  olTereceu  a  occasião.  Suppoz-se  solicitada  e 
diligenciada  pelos  jesuitas  ;  e  sem  mais  consideração  se  arrojou  contra  elles 
o  povo  em  tumulto,  de  maneira  que  [lerigariam  nniito,  a  não  lhes  valer  a 
interposição  de  força  armada '.  Os  jesuítas  negavam  aberta  e  resolutamente  ; 
e  a  destreza  e  eloquência  de  Vieira  fizeram  aquietar  o  tumulto  e  esfriar 
o  primeiro  ardor.  Comludo  a  desconfiança  continuou ;  e  d'ella  foram  pro- 


•  Veja-se  a  carta,  que  Vieira  escreveu  ao  provincial  do  Brazil,  allcgada  em  parte 
por  Barros  no  1. 1,  §?;  CV  c  seguintes,  e  ioda  tianscripla  nas  Vozes  SauddSdS  com  o 
titulo  de  Vn:  desenganada,  e  a  provisão  d'el-iei.  Darr..  ibid.,  §  GXV. 

»  Veja-se  Aniiré  de  Barros,  1.  I,  §  CXXIX— CXXXIX.  Os  de  Cabo  Verde  fizeram 
grandes  instancias,  para  que  os  jesuitas  ticassem  residindo  na  terra,  ou  ao  menos  se 
demorassem  por  mais  tempo.  Veja-se  lambem  a  I  carta  do  III  volume  das  de  Vieira. 
Na  primeira  edição  d'este  opúsculo  se  leque  Vieira  abordou  á  ilba  de  S.  Tiiomé;  erro 
de  que  o  auetor  foi  advertido  por  um  zeloso  amigo. 

'  Barros,  ibid.,  §§  CC  e  seguintes. 


44 


cedendo  rebates  frequentes,  e  resultaram,  segundo  as  apparencias,  todas 
as  contradicções,  embaraços,  e  por  fira  damnos  e  injurias,  que  naquella 
parte  da  America  soffreu  depois  a  companiiia,  e  com  eila  o  sou  campeão 
e  principal  manteiiedor  António  Vieira.  Fosse  razão,  fosse  particular  inte- 
resse, os  jesuitas  defenderam  com  grande  constância  os  direitos  dos  indios, 
assim  antes,  como  depois  dos  resgates ;  e  confirmando  por  este  modo  as 
antecedentes  suspeitas  dos  portugueses  alli  estabelecidos,  conservaram 
sempre  e  accenderam  mais,  em  alguns  casos,  a  inimizade  pouco  soífrida 
d'aquelles  povos  *. 

Na  disputa  muito  renhida  e  larga,  que  então  se  tratou  com  muito  ardor 
entre  o  Pará  e  Maranhão  de  uma  parte,  e  os  jesuitas  de  outra,  os  jesuitas 
increpavam  os  seus  contendores  de  armarem  á  escravidão  dos  indios  só 
com  a  mira  nas  próprias  conveniências,  e  com  total  desprezo  das  da  reli- 
gião e  reino,  e  aflVonta  da  boa  razão  e  até  da  humanidade:  e  os  povos  do 
Pará  e  Maranhão  accusavam  os  jesuitas  de  armarem  unicamente  ao  seu 
interesse,  pretextando  motivos  piedosos  e  simulando  vivo  zelo  pelos  pro- 
veitos communs.  O  governo  português  daquelle  tempo  mostrou  confiar 
mais  nas  allcgações  dos  jesuitas ;  os  inimigos  d"estes  no  século  passado 
deram  por  injustamente  aggravados  em  tal  matéria  os  contendores  h  ao 
ler  os  escriptos  de  Vieira,  que  se  conservam  e  se  referem  á  dita  disputa, 
os  seus  sócios  parecem  plenamente  justificados ;  ao  ler  as  declamações 
contrarias,  a  que  alludimos,  mal  se  defende  o  leitor  de  os  pronunciar  réus 
da  culpa,  que  pela  parte  opposta  lhes  foi  attribuida :  se  os  allegados  emfim 
dos  jesuitas  e  a  sentença  do  goveino  contemporâneo,  pela  razão  da  causa 
própria  e  affecto  d'aquelle  governo,  se  tornam  suspeitosos;  o  descoberto 
ódio,  que  respira  a  impugnação  dos  detractores,  não  obriga  hoje  o  obser- 
vador imparcial  a  menos  desconfiança. 


1  Que  08  jesuitas  defenderam  constantemente  a  liberdade  dos  indios,  não  tem  du- 
vida: os  seus  contendores  não  o  negavam,  porque  era  evidente,  e  d'ahi  tinlia  a  con- 
tenda principio.  Auribuiam  porém  a  dita  defesa  a  segundas  e  perversas  tenções. 

*  Quando  leio  as  affiniiativas  nesta  parte  do  auctor  da  Deducnio  ClironoL,  e  as 
comparo  com  as  suas  Provas,  nem  posso  achar  força  nem  mesmo  ligação  e  claro  sen- 
tido, se  bem  que  noto  impeto  e  vehemencia,  que  podem  deslumbrar  quem  for  menos 
precatado.  Será  talvez  preoccupação  minha  ;  mas  confesso,  que  com  tanto  gosto  leio  os 
escriptos  de  Vieira  sobre  esta  matéria,  como  com  desgosto  e  enjoo  leio  o  affectado  e 
pedantesco  aranzel  da  Deducção. 


45 


Diflicullosa  cousa,  seuão  impossível,  é  resolver  agora  duvida  tão  iui- 
plícada;  e  até  o  teiUa-lo  parecerá  muita  confiança.  Uetermino-me  comludo 
a  declarar  o  meu  parecer,  por  isso  mesmo  que  se  não  pode  reputar  subor- 
nado por  paixão,  de  que  faltam  motivos.  É  tão  verosímil,  que  a  cubica  dos 
colonos  portugueses  na  matéria  da  escravidão  dos  índios  atropelasse  a  razão 
e  as  conveniências  publicas,  como  deixa  de  o  ser,  que  os  jesuítas  pelo 
interesse  de  cultivar  melhor  uma  chácara,  e  dominar  em  miseráveis  aldeãs 
ou  arraiaes,  allVontasscm  traliaihos  tão  árduos  e  tão  aturados,  quizessem 
incorrer  na  inimizade  dos  seus  compatriotas,  e  prejudicar  tão  abertamente 
aos  interesses  do  nosso  reino.  E  se  a  cubica  dos  colonos  é  certa,  e  os  seus 
maus  elleítos  são  bem  de  jiresumir,  também  é  muílo  de  suppor,  que  ven- 
do-se  encontrada  e  cruzada  pela  opinião  e  procedimento  dos  jesuítas,  recor- 
resse a  todos  os  meios  de  desaggravo,  e  enti'e  elles  á  falsa  imputação  de 
razijes  sinistras  e  motivos  odiosos.  Da  parte  dos  jesuítas  somente  cuíilo, 
que  muito  fiados  na  sua  valia  com  a  corte  de  Lisboa,  e  muito  esperan- 
çados na  íniluencia  exclusiva,  que  tinham  com  os  índios,  se  esqueceram  da 
sua  sagacidade  ordíuaria,  e  neste  negocio  combateram,  muito  ao  desco- 
berto e  com  ar  em  demasia  víctoríoso,  os  interesses  e  a  vaidade  daquelles 
colonos ' . 

.  Em  socegando  a  popular  tormenta  do  Maranhão,  de  que  falíamos.  Vieira, 
despedidos  padres  para  o  Pará  e  nomeados  os  que  deviam  ficar  na  cidade 
de  S.  Luiz,  foi  provendo  em  todo  o  necessário  para  a  presente  e  futura 
execução  dos  seus  grandes  desígnios:  sem  levantar  conitudo  mãu  do  ordi- 
nário trabalho,  em  que  se  empregava  incansavelmente,  ou  pregando,  ou 
ensinando  nas  ruas,  ou  visitando  enfermos,  ou  propondo  e  seguindo  arbí- 
trios de  caridade  piedosa,  com  que  despertava  em  uns  a  religião,  e  em 
outros  remediava  a  necessidade  *.  Ealtava  na  cidade  o  recurso  de  um  lios- 


'  Os  jesuítas  não  se  defendiam  sompre  de  siiberba  e  arrogância  ;  c  estes  vicios, 
que  por  um  lado  irritavam  mais  a  inveja  dos  seus  succesos,  e  llie  davam  motivo  ás 
accasações  e  queixas,  por  outro  lado  os  tornavam  muito  delicados  c  sensíveis  ás  oITensas; 
d'onde  lhes  vinha  grande  propensão  á  vingança.  Tal  foi,  cuido  eu,  a  razão  da  guerra 
perpetua,  que  sustentaram  deídc  o  principio,  e  a  verdadeira  causa  da  sua  ruína.  Cou- 
ta-se,  (|ue  nos  últimos  paroxismos  da  sociedade  dizia  ainda  o  seu  geral  Hicci  —  sint  ut 
tunt,  aut  non  sint;  este  dito  e;n  occasião  tão  critica  mostra  bem  a  sua  arrogância,  e 
explica  a  sua  catastrophe. 

»  Veja-se  Barros,  1.  II,  §§  XXVI— XLVII. 


46 


pitai,  com  o  sabido  detrimento  dos  pobres,  inconveniente  e  pouco  credito 
(l;i  republica.  Acudiu  com  suas  exhortações  a  este  ponto  António  Vieira,  e 
j)rÍMcipiaram  a  concorrer  esmolas  e  offerecimentos :  mas  como  tamanha 
fabrica  não  podia  ser  eíTiMto  de  um  eutlmsiasmo  passageiro,  a  ausência  do 
motor  e  director  principal  a  deixou  naquella  occasião  pouco  mais  do  que 
em  idéa.  Se  o  espirito  de  Vieira  a  tudo  se  dirigia  e  a  tudo  era  bastante, 
os  que  se  pegavam  de  seu  ardor,  ou  não  eram  capazes  de  emparelhar  a 
sua  energia,  ou  o  perdiam  de  todo,  quando  faltava  o  poderoso  alento,  que 
o  havia  communicado. 

Os  trabalhos  na  cidade  de  S.  Luiz  não  eram  senão  ócios  e  folgas,  com 
que  se  preparava  para  as  fadigas  e  riscos  nos  emmaranhados  sertões  do 
seu  districlo.  A  estas  fadigas  e  riscos  é  que  elle  aspirava  sobretudo;  e  ellas 
é  que  o  haviam  ciiamado  dentre  as  estimações  e  commodos  da  Europa. 
Tanto  pois  que  lhe  pareceu  chegado  o  tempo,  delerminou-se  a  ir  procurar 
os  Índios,  que  se  chamavam  Barbados,  subindo  por  um  rio,  que  tem  por 
nome  Tapicuru.  Não  havia  destes  indios  mais  que  fama  muito  incerta  no 
Maranhão,  e  a  noticia  duvidosa  devia  accrescenlar  na  phantasia  o  receio 
de  desastres  e  de  empenhos  mallogrados.  Mas  o  que  podia  acobardar  os 
ânimos  do  commum,  estimulava  mais  o  de  António  Vieira.  Assentou  com 
o  capitão  mór  na  jornada,  e  na  occasião,  em  que  convinha  que  se  flzesse; 
e  sem  demora  procedeu  a  tomar  todas  as  medidas,  intendendo-se  com 
pessoas  práticas  e  procurando  indios  de  serviço,  de  quem  fosse  acompa- 
nhado. Porém  o  capitão  mór,  em  cujos  grangeos  andavam  occupados  estes 
indios,  desejando  acudir  primeiro  aos  seus  amanhos,  deleve-os  emquanto 
os  requeriam  as  lavouras,  de  tal  sorte,  que  quando  vieram  a  ficar  desim- 
pedidos, a  occasião  era  passada ;  com  grande  sentimento  de  Vieira  que 
saboreava  antecipadamente  as  delicias  de  peregrinar  por  desertos  e  bos- 
ques, convidando  á  civilidade  e  religião  esses  poucos  homens,  que  vagavam 
com  bem  fraca  differença  de  animaes  brutos  pelo  seu  âmbito  vastíssimo*. 

O  capitão  mór  do  Maranhão  atlendia  mais  á  cultura  de  seus  tabacos, 
do  que  á  cunvcrsãu  e  civilisação  dos  indios;  mas  a  cubica  do  capitão  mór 
do  Pará  não  se  contentava  com  tão  pouco.  Vendo  Vieira  frustrada  no 
Maranhão  a  sua  esperança,  passou-se  ao  Pará,  determinado  a  remontar  o 
grande  Amazonas,  e  a  ir  recolhendo  pelas  suas  margens  os  lanços,  com 
que  a  Providencia  quizesse  galardoar  as  suas  boas  tenções.  Teve  entretanto 


>  Barros,  ibid.,  %%  XLVIII— L. 


47 


por  noticia  que  a  nação  dos  Púquiz,  que  vivia  sobre  o  rio  dos  Tocantis. 
eslava  inclinada  a  receber  o  Cin-islianisnio  e  encorporar-se  no  estado  por- 
tnguès.  Julgou  que  devia  aproveitar  occasião  tão  favorável.  Tratou  o  negocio 
com  o  capitão  mòr ;  leuiLrimJollie,  (jue  el-rei  desejava  a  reducrão,  e  não 
o  captiveiro  dos  iudios,  e  que  recomuiendára  muito  aos  jesuítas,  (jue  gran- 
geassem  christãns  e  cidadãos,  sem  muiliplicarem  barbaramente  escravos. 
Ouviu  o  capitão  múr,  e  em  seu  animo  escarneceu  tão  importuna  adver- 
tência; mas  dissimulando  com  Vieira,  despediu-o  com  uma  escolta,  que 
devia  obrar  ás  ordens  de  um  cabo  por  elle  escolliido,  e  a  quem  deu  ins- 
trucções,  publicas  para  satisfazer  Vieira,  e  particulares  para  com  despre/o 
das  ordens  del-rei  e  injuria  das  obrigações  da  iionra  e  liiimanidade  fartar 
a  sede  da  sua  avareza  e  da  dos  seus  apaniguados*. 

Queria  el-rei  D.  João  IV,  com  zelo  de  príncipe  piedoso  e  discurso  de 
bom  politico  trazer  os  indios  â  fé  christã  e  parlicipação  dos  bens  civis  no 
seio  do  seu  império.  Mas  não  queria  liga-los  ao  dito  império  com  outros 
vínculos,  que  os  de  livre  e  lionesla  vassallagcm.  E  somente  nos  casos,  em 
que  alguns  fossem  adiados  caplivos  e  destinados  á  morte  por  outros  bár- 
baros, é  que  permillia  que  fossem  remidos,  e  ficassem  como  escravos  enti-e 
nós.  Por  esta  coinmntação  suave  aquelies  infelizes  lucravam  a  vida  em 
troco  da  liberdade  ;  que  ainda,  ou  por  seus  serviços,  ou  por  generosidade 
dos  scnbores,  ou  por  acasos  da  fortuna  lhes  podia  ser  restituída.  Este 
regulamento,  no  caso  de  poder  ter  execução,  era  próprio  de  um  estadista 
humano,  pio  e  intendido;  que  mesmo  nos  casos  indicados  de  escravidão, 
só  a  consentia,  para  com  o  seu  engodo  levar  os  colonos  ao  resgate  das 
desgraçadas  victimas  da  ferocidade  selvática.  Estas  viclimas  porém  eram 
poucas  em  comparação  das  despezas  e  diíTiculdades  de  um  resgate ;  as 
necessidades  da  cultura  nas  colónias  eram  muitas;  e  ainda  as  multiplicava 
mais  a  baixa  e  crua  avareza  de  certos  particulares.  Estavam  portanto  os 
decretos  d'el-rei  neste  ponto  em  opposição  com  os  interesses,  bons  e  maus. 
dos  colonos;  e  ifaqui  devia  resultar,  que  ou  se  não  tratasse  de  descer  os 
indios  de  suas  habitações  primitivas,  ou  se  tratasse  d'esta  matéria  com 
aggravo  da  justiça,  e  sem  o  respeito  devida  ãs  ordens  reaes  *. 


'  Veja-se  André  do  Barros,  1.  II,  §§  LI  e  LII. 

-  As  reaes  providencias  eram  sabias  e  justas  em  absoluto;  mas  a  sua- oxecuíão 
naquellas  circumstancias  era  quasi  impossível.  O  modo  unieo  de  medrarem  ao  mesmo 


4» 


Em  cumprimento  d'ellas  pelo  contrario,  em  conformidade  com  o  espi- 
rito do  Ciirislianismo  e  com  mira  de  dilatar  a  Egreja  lidavam,  quanto  parecia, 
os  jesuitas  por  favorecer  os  iiidios  em  todas  as  entradas,  que  por  sua  dili- 
gencia se  faziam  ao  sertão.  Só  os  índios  chamados  de  Corda  haviam  de 
ficar  escravos;  todos  os  mais,  depois  de  descidos,  deviam  ficar  meramente 
christãos  e  vassalios.  A  isto  é  que  repugnava  altamente  a  cubica  dos 
colonos:  e  va!iam-se  de  todos  os  meios  para  ilhidirem  as  ordens  e  frusta- 
rem o  zelo;  pouco  attentos  ou  muito  indiflerenles  aos  damnos  gravíssimos, 
que  da  sua  dureza  deviam  provir  aos  indios,  ao  estado  português  em  geral, 
e  ás  mesmas  colónias.  Nem  eram,  por  desgraça,  os  que  governavam  os 
menos  culpados  d'esta  barbara  indifferença ;  antes  servindo  aos  outros  de 
exemplo  muito  escandaloso,  além  de  réus  de  próprias  culpas,  se  tornavam 
responsáveis  também  das  alheias  '. 

Serve  de  prova  a  tudo  isto  o  modo  baixo  e  aleivoso,  por  que  se  houve 
agora  o  capitão  mór  do  Pará,  (pie  até  havia  recebido  antecipadamente  o 
preço  das  victimas  da  sua  avareza.  Partiu  Vieira  com  a  escolta  e  com  o 
cabo,  que  lhe  fora  destinado ;  è  quando  se  tratou  de  realizar  a  descida  dos 
Póqiiiz,  então  percebeu  que  o  cabo  era  vez  de  guardar  as  publicas  instru- 
cções,  procedia  romo  se  tivesse  levado  as  contrarias.  Foi  a  vontade  dos 
missionários  resistida ;  o  mandado  del-rei  desprezado  com  insolência ;  e  o 
effeito  da  missão  na  maior  parte  desvanecido.  Voltou  promptamente  ao 
Pará  António  Vieira  em  busca  do  conveniente  remédio.  Mas  se  ainda  tinha 
alguma  duvida  sobre  as  ruins  tenções  e  vil  astúcia  do  capitão  mór,  desen- 
ganou-se  em  breve,  e  veio  no  inteiro  conhecimento  de  que  o  remédio  não 
podia  achar-se  no  Pará,  que  antes  era  o  próprio  assento  do  mal;  e  que  ou 
se  havia  desamparar  o  empenho  da  conversão  e  reducção  dos  indios,  ou 
se  haviam  de  pedir  a  el-rei  disposições  mais  capazes  de  sortirem  o  seu 
effeito  2. 


tempo  as  missões  e  as  coluiiias  seria  prover  ás  necessidades  das  colónias  por  outros 
braços,  que  os  de  indios,  ao  menos  em  quanto  estes  não  fossem  conformados  aos  nossos 
usos,  e  eguaes  em  direitos  aos  cidadãos  portugueses ;  e  tirar  ao  governo  civil  toda  a 
influencia  sobre  as  missões  e  a  primeira  educação  dos  indios,  salvo  a  de  as  auxiliar  e 
de  as  vigiar  com  inteireza  quanto  ao  cumprimento  de  boas  leis.  Mas  para  o  provimento 
por  outros  braços  não  suppriam  o?  cabedacs  ;  para  conlcr  asarrogações  da  auctoridadc 
civil  não  bastaria  em  tamanha  distancia  a  força  do  governo  principal. 

'  E  o  que  diz  André  de  Barros,  o  que  em  vários  logares  insinua  Vieira,  e  o  que 
é  fácil  de  crer  a  respeito  de  alguns,  não  só  capitães  mores,  mas  ainda  governadores. 

*  O  acontecido  com  os  dois  ca])itães  mores  refere  Barros^  ealém  da  verosimilhança 


49 


PosU»  eió  òonsellio  dos  jesailas  o  perplexo  estado  da  einprôsa  das 
Aiissões  e  o  seu  remédio,  tomaram  por  fim  o  arbítrio  de  se  tornar  Vieira 
a  Lisboa;  esperando  da  sua  valia,  zelo  e  destreza,  que  ellícaz  é  promptá- 
mente  negociasse  o  que  se  iiuvia  mister,  para  correrem  as  missões  send' 
emliaraço,  e  com  os  proveitos  religiosos  e  teniporaes,  que  se  podiam 
esperar.  Snjeilouse  Vieii'a  ao  voto  connuum,  e  passou  logo  ao  Maranhão; 
onde  em  grande  segredo  foi  dispondo  a  viagem,  e  ponderando  com  vagai* 
o  que  serviria  mellior  ao  desvio  dos  presentes  obstáculos  e  á  cautela 
contra  os  qne  pudessem  sobrevir.  INHo  bastava  conter  o  commum  do  povo 
nas  colónias  e  por  freio  ;i  cubica  caprichosa  dos  seus  governantes;  ainda 
era  necessário  chamar  á  unanimidade  e  accordo  os  sacerdotes,  que  uão 
eram  jesuitas,  a  cujas  insinuações,  ou  suggestões,  na  opinião  dos  últimos, 
se  deviam  attribuir  em  boa  parte  a  desconfiança  dos  colouos  e  a  repu- 
gnância, ijue  estes  oppuulianí  aos  projectos  da  Companhia  de  Jesus,  na 
matéria  da  reducção  dos  Índios  *. 

Chegou  por  meado  de  junlio  de  IGol  a  occasíão  de  se  embarcar  Vieira, 
que  com  elTeilo  embarcou  occullanieule  a  lo  ou  10  deste  umjz.  Não  quiz 
porém  dei.\ar  o  Maranlião,  sem  fazer  conhecidas  de  seus  moradores  as 
culpas  e  aggravos,  cuja  reparação  o  trazia  de  novo  ao  reino;  e  no  sermão 
de  Santo  António,  pregado  três  dias  antes  da  sua  partida,  desafogou  o  seu 
zelo,  cobrindo-se  com  véo  de  allegoria,  e  e.xprobando  aos  peixes  o  que  de 
si  deviam  intender  os  homens:  e  feito  este  preparo  começou  a  viagem, 
em  (jue  devia  experimentar  giande  i'igor  da  Ibrluna,  compensado  todavia 
por  soccorro  da  Providencia  -. 


«los  factos,  uão  parece  razrw  siispuitá-lo  n(|iii  de  linitimciilo.  Mas  se  os  factos  são  ver- 
dadeiros, evideute  liça,  que  se  da  parte  dus  uiissiuiiarius  pudia  liaver  zelo,  da  dos 
Colonos  uãii  havia  senão  cruel  avareza 

'  A  realidade  d'esta  insinuação  parece  confirmada  pelo  enii)enlio,  com  que  ajunta, 
presidida  pelo  duque  de  Aveiro,  regulou  a  parte,  que  deviam  ter  nas  missões  as  mais 
ordens  religiosas.  Mas  até  a  persuade  a  natural  emulação,  a  dianteira  que  levavam  os 
jesuitas,  e  a  indisputável  arrogância  dos  últimos;  raras  vezes  no  modo,  mas  na  sub- 
stancia das  cousas  quasi  sempre  arrogantes. 

*  O  sermão,  de  que  aqui  se  falia,  é  o  XI  da  parte  II,  allegoria,  que  no  tempo  é 
natural  (|ue  interessasse  pelas  allusões,  mas  que  agora  parece  nuiito  exótica  e  mesmo 
ridicula.  .4  innii  annlinha  e  o  iiinão  polvo  parecem  extravagâncias  muito  absur- 
das. Todavia  ainda  sem  fazer  conta  com  a  cxcellente  linguagem,  paga  em  varias  pas- 
sagens o  trabalho  da  leitura:  e  com  eITeito  Isto  mesmo  se  deve  dizer  e  intender  dos 
seus  sennòes,  ainda  os  mais  desprezíveis;  e  pôde  ser  que  não  clieguem  a  Ires  os  que 
sirvam  de  excepção. 
4 


50 


Teriam  passado  dois  mezes,  navegavam  pela  altura  da  ilha  do  Corvo, 
qiiaudo  os  carregou  tormenta  desfeita,  cuja  fuiia  voltou  o  navio,  mettendo 
a  borda  do  mar  ate  meio  do  convez.  c  obrigando  a  gente  a  passar-se  para 
o  costado,  onde  es[)erava  ser  comida  das  ondas  por  momentos.  Alliviado 
comtudo  de  maslos  o  navio,  a  mesma  força  do  mar  o  virou  segunda  vez 
e  pôz  a  direito;  de  sorte  (jue  os  naufi-.iganles  poderam  recoiher-se  dentro, 
como  vinham  de  primeiro.  A  falta  ãr.  maslos,  a  de  velas  e  enxárcias  os 
tinha  sempre  em  grande  o  justo  receio,  quando  avistaram  de  longe  uma 
nau,  que  corria  com  a  mesma  tormenta:  mas  o  vishimbre  de  esperança, 
que  então  lhes  raiou,  desvaneceu-se  depressa,  porque  a  nau  tornou  logo 
a  desapparecer.  Accresoentou-se  o  horror  daquelle  triste  estado  com  o  da 
noite,  que  no  emtanto  sobreveio,  e  que  cada  ura  suppôz  que  seria  a  ultima 
da  vida.  A  nau,  ()ue  tinham  avistado,  fez-se  todavia  em  outra  volta;  e  sem 
o  saber  veio  de  noite  atravessar-se  com  o  navio,  que  boiava  á  discreção 
dos  ventos.  Era  um  corsário  hollandès,  que  vagava,  commettendo  roubos 
por  aquelles  mares,  e  de  quem  não  podiam  esperar  tratamento  muito 
generoso;  se  porém  fez  presa  no  navio,  recolheu  a  seu  bordo  os  naufra- 
gantes,  e  passados  nove  dias  os  foi  lançar,  postoqne  despojados  e  até 
despidos,  nas  praias  da  ilha  Graciosa. 

Com  largueza  muito  de  admirar  nas  suas  circumstancias  proveu  An- 
tónio Vieira,  ajudando-se  dos  seus  créditos  na  Graciosa,  a  necessidade  dos 
seus  companheiros;  de  (luera  logo  se  apartou,  passanilo-se  á  ilha  Terceira 
e  da  Terceira  á  de  S.  Miguel.  Depois  de  alguma  demora  nesta  ultima,  em 
que  pregou  o  conhecido  sermão  de  Santa  Thereza,  partiu  em  um  navio 
inglês  a  24  de  outubro  de  1054  para  Lisboa,  onde,  soffrendo  ainda  no  mar 
outra  grande  tempestade,  deu  fundo  finalmente  já  em  novembro  do  mesmo 
anuo  '. 

El-rei  D.  João  IV  achava-se  em  Salvaterra  gravemente  infermo,  e  foi 
preciso  esperar  a  sua  melhora  e  convalescença,  para  dar  principio  a  reque- 
rimentos. Pregou  |)or  aquelle  tempo  alguns  sermiJes  em  Lisboa  António 
Vieira,  e  entre  elles  o  da  sexagésima,  a  19  de  fevereiro  de  1055.  Neste 
sermão,  que  é  um  dos  menos  defeituosos  do  auctor,  se  houveram  [)or 
censurados  os  prégad()res  do  tempo;  qiu'  soffrendd  muito  mal  a  censui"), 


«  Veja-se  Darros,  I.  lí,  ^^§  LXVIK-LXXVIII.  O  suimiin  de  Santa  Tlieroza  é  o  VIU 
da  part.  IV,  muito  admirado  no  tempo  por  suas  fmuras  o  alíoctações.  Não  se  deve 
confundir  com  o  XV  da  part,  III,  também  de  Santa  Tiíereza. 


òi 


(ralaram  de  se  desaggravar,  conibalendo  Vieira  com  Ioda  a  acrimonia  dd 
reseulimeiíto  e  da  emulação,  (]iie  se  reputa  oITuscada  e  vencida  *.  Vieira 
poréui  uão  deu  neste  caso,  como  era  outros  do  mesmo  género,  mais  coar- 
tada  ijue  nobre  e  airoso  silencio;  a  única,  com  eITeilo,  que  o  homem  supie- 
rior  deve  dar  ás  provocações  ou  de  vingança  injusta,  ou  de  imprudente 
semrazão. 

Recobrando  el-rei  a  saúde  necessária  para  se  entregar  aos  negócios, 
propõz  António  Vieira  o  seu.  Matéria  tão  grave  não  devia  ser  tratada  sem 
egual  ponderação.  Os  interesses  públicos  e  particulares  neila  envolvidos 
eram  muito  relevantes.  Do  Pará  e  Maranhão  foram  logo  mandados  a 
Lisboa  procuradores,  que  justificassem  o  passado,  e  que  obstassem  a  reso- 
luções inconvenientes  á  utilidade  das  colónias.  .\mor  próprio,  cubica, 
interesses  presentes  repugnavam  á  humanidade,  justiça  e  proveitos  remotos, 
porém  mais  certos  e  maioi'es.  Asseulou  a  prudência  del-rei  em  commetter 
a  decisão  a  pessoas  de  conheciJ;is  leltras,  do  inteireza  e  respeito.  Mandou 
formar  delias  uma  junta,  cuja  presidência  fiou  de  .sujeito  |ior  nascimento 
e  titulo  tão  eminente,  como  era  o  dni]ue  de  .\veiro  D.  Itaymundo  de  Len- 
castre. A  junta,  depois  de  ouvir  os  jesuítas  por  bôcca  de  António  Vieira, 
de  ouvir  os  procuradores  das  colónias,  e  de  considerar  tudo  com  grande 
madureza,  achou  por  parte  dos  jesuítas  a  razão  e  interesse  discreto,  e 
tomou  o  acconio  conforme;  cm  que  os  mesmos  procuradores  convierara, 
e  que  por  ultimo  roborado  com  approvação  real.  foi  mandado  pôr  em 
inteira  e.xecução  *. 

Queria  Vieira  ser  o  portador  d'estas  noticias  e  das  ordens  reaes.  Mas 
el-rei,  sempre  desejoso  de  o  ter  mais  perlo,  insinuou  aos  jesuítas,  que 
pondo  entre  si  esta  matéria  em  conselho,  lhe  impedissem  a  partida; 
intendendo  que  este  seria  o  meio  mais  eííicaz  para  o  demorar.  Vieira 
porém  alcançando  licença  para  entrar  no  conselho,  que  sobre  isto  faziam 
os  jesuítas,  e  para  orar  a  sua  causa,  ponderou  taes  razões  de  utilidade 
commura,  e  de  vocação,  honra  e  delicadeza  própria,  c  allegou-as  com 
tamanho  ardor  e  valentia  de  discurso,  que  se  resolveu  a  pluralidade  dos 


I  São  censurados  ua  verdaJí;,  c  justameule  censurados,  porém  do  modo  vago.  O 
>ermão  é  o  I  da  I  parte,  que  secve  de  introducção  a  todos  os  mais  com  muita  proprie- 
dade. 

*  Esta  junta,  com  o  nome  de  junta  das  missões,  se  tomou  depois  permanente  por 
conseilio  e  a  instancias  de  Autoniu  Vieira;  e  linha  as  suas  sessões  em  S.  Roque.— Barr. 
ib.,  §§  XCY-CVI. 


52 


vogaes  a  ceder  antes  á  força  dos  seus  allegados,  do  que  ajudar  o  gosto 
especial  d'el-rei  '.  Não  obstou  por  outro  modo  a  discreta  condescendência 
do  monarcha;  e  Vieira,  negociados  os  despaclios  necessários,  e  governado 
tudo  o  que  requeria  a  viagem  e  o  seu  propósito,  embarcou  no  porto  de 
Lisboa  a  IG  de  abril.  A  jornada  foi  mais  venturosa,  os  mares  e  ventos 
menos  descorlezes,  e  a  17  ou  18  de  maio  seguinte  cbegou  ao  Maranhão. 
Mas  não  costuma  a  inconstância  do  oceano  abonançar  por  algum  tempo, 
senão  pai'a  erguer  depois  maiores  serras  de  suas  ondas,  e  jogar  com 
maior  ludibrio  os  tristes  aventureiros,  que  se  fiaram  de  sua  mansidão 
apparente,  e  que  por  fim  são  obrigados,  pelo  menos  a  desistir  de  sua 
empresa ;  ainda  que  possuam  tão  denodado  brio  e  coração  tão  seguro, 
como  era  evidentemente  o  com  que  a  natureza  dotou  e  ennobreceu  a 
pessoa  de  António  Vieira. 

Seis  annos  bem  completos  e  bem  trabalhados  se  deteve  agora  António 
Vieira  nesta  parte  da  America  portuguesa  -.  Hecebido  com  melhor  rosto 
no  Maranhão,  auxiliado  pelo  zelo  do  governador  André  Vidal  de  Negrei- 
ros, entrou  a  cumprir  com  o  regimento,  (jue  levava  d'el-rei.  Deu  o  pri- 
meiro cuidado  ás  aldeias  vizinhas,  que  compoz  com  prudência,  e  proveu 
de  pastores  e  mestres,  tendo  em  vista  não  só  a  religião,  mas  também  a 
educação  civil  dos  indios,  (lue  se  achavam  já  d'antes  aldeados.  Porém, 
como  as  suas  idéas  vastas  não  podiam  satisfazer-se  com  tão  pouco,  voou 
logo  mais  largo  com  o  pensamento.  Em  uns  logares  do  sertão  viviam  po- 
vos, que  tendo  abraçado  e  professado  o  cliristianismo  caiholico,  por  effeito 
das  conquistas  liollandésas  e  das  perturbações,  de  que  foram  acompanha- 
das, primeiramente  o  corromperam  e  depois  o  desprezaram:  em  outros 
havia  povos,  que  tentando  se  em  tempo  passado  a  sua  conversão,  ou  a 
repugnaram,  ou  foram  delia  por  quakjuer  modo  divertidos:  em  toda  a 
parle  emfim  havia  bárbaros,  que  convidar  para  o  seio  da  Igreja,  e  que 
trazer  á  união  com  os  vassallos  da  coroa  portuguesa  e  á  cultura  e  policia, 
que  d'esta  união  lhes  devia  resultar.  A  todos  estes  objectos  estendeu  Vieira 
os  seus  illimitados  designios;  sem  o  amedrontarem  trabalhos  e  perigos, 
sem  o  estorvar  a  consideração  de  rios,  serranias,  brenhas,  areaes,  desertos 


•  Barros  (ib.  §  CXII)  .allcga  como  formaes  as  palavras  de  Vieira;  e  certamente 
que  nào  parecem  de  outrem.  Barros  não  sabia  imitar  Vieira,  cujo  estylo,  fora  dos  ser- 
mões, era  sempre  natural  e  elegante. 

2  Chegou  em  maio  adiantado  de  1635,  voltou  por  fins  de  1661. 


53 


e  tantos  outros  obstáculos,  que  em  um  dilatado  paiz,  pouco  ou  nada  pene- 
irado dos  liomens,  costuma  oíTerecer  á  ousadia  dos  enipreliendedores  a 
natureza.  E  porque  para  tão  imniensa  seara  o  numero  dos  seus  obreiros, 
dado  que  fosse  mais  crescido,  não  podia  ser  sullicieute,  ainda  projectava 
passar  pessoalmente  à  Bahia,  e  pedir  ao  provincial  ajudadores,  com  que 
reforçasse  os  que  possuia  já,  e  os  que  eslava  esperando  da  Europa*. 

Se  empresa  tão  gigantesca  não  era  maior,  que  o  coração,  ou  que  a 
pliantasia  de  Vieira,  sem  duvida  era  muilo  maior,  que  as  suas  presentes 
forças.  Nos  ânimos  e  disposições  dos  bárbaros  accresciam  diíliculdades; 
a  falia  de  cooperadores  ou  não  admitlia  remédio,  ou  o  linlja  diílicultoso, 
lento  e  sempre  apoucado;  e  a  repugnância  dos  ci  lonos,  ura  mais  tímida, 
ora  mais  resoluta,  diflicultava  os  e.xpedienles,  perturbava  os  planos,  tor- 
nava sem  eITeito  as  lenlalivas.  Apesar  de  tudo,  fizeram-se  por  direcção  de 
Vieira  varias  entradas  ao  sertão  com  muito  bom  successo;  renovou-se  a 
missão  da  serra  de  Ibiapába;  reduziram-se  alg:umas  nações,  conbeceram-se 
outras;  grangearam-se  noticias  de  Jogares  e  produclos,  ainda  que  muito  á 
custa  da  paciência,  da  saúde  e  até  das  vidas  dos  operários  jesuítas.  E  se 
bem  António  Vieira  dava  os  arbilrios  e  communicava  o  impulso  desde  as 
colónias,  parte  porque  a  primeira  mola  devia  ter  alli  o  seu  logar,  parte 
porque  dispondo-se  em  alguns  casos  a  ir  pessoalmente,  foi  pelo  poder 
superior  embaraçado :  nunca  esteve  comludo  Ião  quieto,  que  não  fizesse 
repetidas  viagens  do  Maranhão  ao  Pará,  e  pelo  contrario:  que  não  fosse 
com  summo  trabalho  visitar  e  alTeiçoar  a  missão  de  Ibiapába;  e  com  maior 
risco  socegar  e  amansar  os  Miccngaibas,  cujas  hostilidades,  que  tinham  as 
colónias  como  em  apertado  sitio,  não  ponde  o  governador  Pedro  de  Mello 
conter  por  outro  meio,  que  a  industria  e  animosa  diligencia  de  Vieira*. 

Ás  repugnancias  e  encontros  dos  colonos,  que  foram  mais  delermina- 


'  São  muito  para  conliecer  c  admirar  os  projectos  e  trabalhos  de  Vieira  e  os  dos 
seu?  sócios  em  todos  estes  seis  annos.  Refere-os  Barros  (ib.  desde  o  §  CXXV  até  ao 
lim  do  livro  II),  e  a  sua  relação  ainda  que  pudera  ser  menos  larga  e  mais  simples,  é 
comtudo  curiosa.  Isto  bastara,  quando  mais  nada  soubéssemos,  para  ter  Vieira  na  conta 
de  homem  fora  do  çommum. 

'  O  que  respeita  á  missão  de  Ibiaiiábn.  rnnia  o  mesmo  Vieira  no  primeiro  papel, 
que  entre  as  Vozes  Saudosas  se  intitula  Vnz  Histórica :  e  no  tocante  á  sua  pessoa,  da 
pag.  8:1  em  diante.  O  que  respeita  aos  Mieengaibas .  conta  Barros  no  I.  III,  §|  1  a  L,  e 
o  mesmo  Vieira  na  carta  a  el-rei  D.  AfTonso  VI,  que  vem  no  ultimo  tomo  dos  sermões, 
e  é  datada  de  11  de  fevereiro  de  1660. 


54 


dos  logo  que  constou  do  fallecimento  del-rei  D.  João  IV,  foi  resistindo 
com  animo  e  prudência.  A  rainha  regente,  sim,  deu  signaes  de  querer  con- 
tinuar favot  ás  missões  do  estado  do  Maranhão :  mas  devia  causar  pouco 
receio  o  vigor  de  uma  regência,  embaraçada  de  mais  a  mais  com  cuida- 
dos de  guerra,  com  intrigas  de  corte  e  com  discórdia  entre  os  maiores  *. 
Vieira  resolveu  comtudo  soíTrer  fume  a  tormenta,  e  aguardar,  sem  pôr  de 
parte  o  começado,  por  tempos  mais  serenos.  Porém  os  moradores  do  Ma- 
ranhão, que  talvez  esperariam  que  os  jesuítas  á  força  de  suas  contrarie- 
dades voluntariamente  se  retirassem,  e  ao  menos  se  sujeitassem;  vendo 
que  succedia  contra  o  que  imaginavam,  romperam  em  motim  formal  e 
prenderam  os  jesuita.»--.  Informado  deste  successo,  correu  António  Vieira 
ao  Pará,  d"onde  andava  ausenle,  por  ver  se  alli  atalhava  egual  rompimento. 
Mas  a  prevenção  foi  inulil;  |)ori|uc  com  seus  companheiros  foi  elle  mesmo 
preso  e  remettido  para  o  Maranhão.  Tratou  de  se  justificar,  qniz  fazer  re- 
presentações e  exhortações^:  mas  os  do  Maranlião  não  quizeram  ouvil-o, 
os  do  Pará  leram  os  seus  protestos  sem  ;;!gum  bom  elfeito;  e  Vieira  com 
os  mais  jesuítas,  entre  desprezos  e  vilipêndios,  foram  obrigados  a  navegar 
para  Lisboa,  cujo  porto  Vieira  tomou  ainda  dentro  do  anuo  de  1661. 


Se  Lisboa,  mais  culta  e  menos  apaixonada,  por  seu  agasalho  e  brando 
trato  consolasse  António  Vieira  do  descomedimento  grosseiro,  cora  que  o 


'  Veja-se  a  carta  da  rainha  com  data  de  12  de  maio  de  1639,  que  Barros  (l.  III, 
§  LI)  traz  ciipiada:  c  em  que  se  louvam  as  suas  diligencias,  e  se  llic  lecoramenda  a 
conlinua^iãu  e  a  parlicipação  dos  impedimentos,  que  foicem  occorrendo. 

2  Veja-se  Banos,  I.  Ill,  desde  o  §  LXXXIV,  c  o  mesmo  Vieira  no  papel  apontado 
em  a  nota  seguinte. 

'  Os  jirotestos  e  exhortações,  dirigidas  desde  a  caravella,  em  que  foi  mettido,  à 
camará  do  Pará  em  data  de  18  de  agosto  de  lC6i,  podem  verse  no  I.  Ili  do  Barros, 
que  as  allega  em  parle  desde  o  §  C;  e  ao  todo  nas  Vozes  Saudoxas  com  o  titulo  de  Voz 
Parenelica,  a  pag.  189. 

N.  B.  Em  Ms.  se  me  communicou  do  archivo  da  Academia  a  cópia  de  uma  peti- 
ção, que  desde  a  caravella  dirigiu  Vieira  ao  governador  D.  Pedro  de  Mello,  e  em  que 
requeria  que  o  deixassem  vir  com  os  mais  jesuítas  na  nau  Sacramento,  e  não  sepa- 
rado d'elles  na  caravella:  que  segundo  elle  diz,  não  era  mais  que  um  liarco  sardinheiro 
de  Setúbal,  roto  e  sem  marinhagem,  mais  azado  para  fazer  naufrágio  do  que  viagem. 
Esla  petição  não  é  de  menos  serviço  para  representar  os  encontros  e  acintes  (pie  então 
solTreu,  do  que  a  Voz  Parenetiai. 


55 


estado  (io  Maranhão,  entre  tantas  circumstancias  de  insulto  bárbaro  e  vio- 
lência alTronlosa,  o  arrojou  de  si;  poderia  elle  pelas  allen(jões  da  pátria 
esquecer-se  fucilmenle  das  injurias  e  ingratidão  da  lerra  estrangeira.  Po- 
rém a  sua  volla  para  Li.sboa  não  loi  reslitui(,ão  á  pátria,  íoi  desterro;  em 
que  não  Ibrain  menores  os  aggravos,  accrfscenlados  ainda  com  a  lem- 
brança de  tempos  mais  venturosos,  e  a  rellexão  de  que  para  seu  abati- 
mento e  ruina  a  mesma  pátria  conjurava  com  a  terra  estranha.  Do  que 
temos  contado  se  colhe  a  estimação,  em  qae  o  tivera  el-rei  D.  João  IV,  e 
a  constância  de  nffccto.  com  que  o  mesmo  lei,  sen  íillio  o  princi[)e  D.  Theo- 
dosio  e  a  rainha  D.  Lniza  em  todas  as  occasiões  o  honraram.  Mas  el-rei  e 
o  príncipe  L).  Theodosio  iram  íallecidos;  e  a  raiidia  D.  Luiza.  posto  que 
ainda  continuava  com  o  governo  do  reino,  dispunha-se  já  para  o  entregar 
ao  príncipe  successor,  e  achava-se  em  tal  condição,  que  só  podia  ajuntar 
a  outras  maguas  a  de  se  ver  desatlendida  nas  pessoas  dos  que  mais  favo- 
recia '. 

Logo  a  6  de  janeiro  de  1(502  pregou  Vieira  na  capella  real,  tendo  por 
ouvinte  a  rainha,  que.  como  dissemos,  ainda  regia  o  reino.  A  festividade 
e  o  evangelho,  referindo  e  celebrando  a  primeira  conversão  da  gentilidade, 
traziam  á  memoria  a  conversão  do  gentio  da  America,  e  davam  occasião 
para  lastimas  do  seu  desamparo:  lançados  e  atropellados  os  mestres  e 
pastores,  e  elle  entregue  de  lodo  á  rudeza  barbara  dos  seus  matos,  ou  à 
sorte  mofina  de  injustos  captiveiros.  Não  a  perdeu  o  pregador,  que  com 
nmito  es[)iríto  e  até  elegância  rcpiesentou  a  miserável  orfandade  dos  ín- 
dios, e  contou  os  desatinos  dos  colonos  e  as  injurias  feitas  aos  missioná- 
rios*. Foi  ouvido  com  geral  sentimento,  e  moveu-se  especialmente  a  rainha 
a  remediar  os  daunios,  a  emendar  os  aggravos  e  a  castigar  a  insolência 
de  vassallos  refractari(js.  Com  este  propósito  principal  nomeou  novo  gover- 
nador para  o  Maranhão;  fazendo-lhe  ellicazes  reconmiendações  a  favor  dos 
Índios,  em  satisfação  c  auxilio  dos  missionários  seus  defensores,  e  contra 
as  ousadas  pretensões  da  cubica.  (Jueixam-sc  os  jesuítas  do  pouco  res- 
peito, que  o  governador  guardou  a  estas  recommeudações^:  e  é  certo  que 


'  Vcja-se  o  Port.  lirsl.,  |iarl.  11.  II.  V  c  VI. 

'  E.slc  siTiiião  !■  n  XV  tia  pari.  IV,  pap.  4!)!.  Vrja-si!  fy|ircialiii('iilc  o  §  III,  ii."  5.'I2 
ali'  5\\ :  LeidiUnu  exie  fumo.  ou  assoprou  cslc  incêndio  enlre  as  piilkas  de  quatro  chou- 
panas, que  com  nome  de  ridade  de  Belém  puderam  ser  pátria  do  Anti-Christo. 

'  Veja-se  Barros,  1.  III,  §§  CXXXVII  e  CXXXVIll. 


56 


um  século  depois  não  havia  meliiorado  o  negocio  fia  conversão  e  reducção 
dos  Índios;  que  deixaremos  agora,  para  seguirmos  Vieira  luctando  em 
Portugal  com  fortuna  egualmentc  contraria. 

Desde  muito  antes  mostrava  a  rainlia  I).  Lniza,  e  provavelmente  sem 
astuta  simulação,  viva  impaciência  do  encargo  do  governo.  Na  declinação 
da  edade,  na  desconsolação  da  viuvez,  combatida  de  escrúpulos  por  uma 
consciência  religiosa,  deviam  opprimi-la  muito  tantos  e  tão  graves  cuidados, 
em  occasião  de  guerra,  entre  desuniões  da  nobreza  e  desconfianças  dos 
povos.  Porém  el-rei  D.  AlTonso,  por  infermidade,  por  descuido,  por  con- 
versação de  pessoas  rasteiras,  dava  pouca  esperança  de  dirigir  o  Estado 
com  acerto;  e  esta  duvida  suspendia  a  determinação  da  rainha  e  inclinava 
o  parecer  dos  mais  zelosos  a  que  ella  continuasse.  Accrescia  o  desejo  de 
pôr  casa  ao  infante  e  de  ultimar  o  casamento  de  sua  filha;  pontos,  que 
requeriam  madureza  e  ao  mesmo  tempo  expedição,  que  não  esperava  dos 
descuidos  d"el-rei,  ou  da  vontade  dos  seus  conselheiros.  Mas  como  ambos 
estes  negócios  se  achassem  era  1662  já  concluídos;  como  se  tivessem  as 
razões  de  impaciência  augmentado;  e  como  el-rei.  que  já  contava  19  ânuos, 
não  occultasse  o  desejo  de  reinar  por  si,  e  mesmo  propensão  de  o  fazer 
sem  guardar  à  rainha  o  devido  respeito;  tomou  esta  princeza  a  resolução 
final :  deixando  ao  parecer  de  intendidos  e  leaes,  unicamente  o  modo  mais 
discreto  de  a  pôr  em  eíTeito  '. 

Satisfazer  a  el-rei,  sem  desar  da  rainha  regente  e  sem  escândalo  da 
nação,  era  dilficultoso.  El-rei  queria  tomar  por  suas  mãos  o  que  lhe  devia, 
segundo  a  boa  razão  e  antigos  usos,  ser  entregue  por  mãos  de  sua  mãe. 
As  formalidades  e  cautelas,  que  a  rainha  queria  usar  para  manter  o  seu 
decoro,  reputava  seu  filho  destrezas  para  dilatar  a  regência.  Parecia  de 
mais  a  mais  coisa  importantíssima,  e  na  verdade  o  era,  á  honra  d'el-rei  e 
ao  bem  do  reino,  tirar  do  seu  lado,  antes  que  lhe  fosse  entregue  o  governo, 
as  pessoas  de  baixa  sorte,  que  o  traziam  aliucinado  e  sujeito  a  seus  inde- 
corosos caprichos.  Mas  este  expediente  vigoroso  não  era  fácil  de  tomar;  e 
ferindo-o  em  parte  muito  sensitiva,  podia  ter  gravíssimas  consequências. 
E  se  el-rei  não  obrava  em  taes  matérias  inteiramente  por  seu  arbítrio, 
também  não  obrava  pelo  das  pessoas  indignas,  que  mais  conversava,  mas 
sim  por  impulso  de  quem  ajuntava  habilidade  com  a  energia  e  perseve- 


>  A  primeira  tentativa  da  rainlia  para  Largar  o  govcran  c  referida  iio  Porhtg.  Red ., 
p.  II,  liv.  V,  pag.  378  e  seg.  da  dita  ediç.  de  1759,  tom.  I!I;  a  segunda  e  efíicaz  é  refe- 
rida, ibid.,  tom.  IV,  pag.  54  e  seg. 


57 


rança  da  ambição.  A  rainha  portanto,  ainda  qno  tinlia  grande  inlendiniento, 
devia  em  lai  aperto,  mesmo  quando  liasse  muito  do  próprio  conselho, 
mostrar  que  se  governava  pelos  alheios.  E  na  verdade  houve-se  neste 
imphcado  negocio,  até  á  entrega  dos  séllos  a  23  de  jmiho  do  dito  anno, 
com  muito  acerto;  e  sempre  de  accordo  com  sujeitos  tão  conhecidos  por 
sua  agudeza,  como  dignos  de  confiança  pela  devoção  á  sua  pessoa  *. 

Foi  um  destes  sujeitos  o  padre  António  Vieira;  ouvido  com  os  mais 
em  todo  aquelle  negocio  e  assignado  no  papel,  que  o  secretario  dEstado 
leu  a  el-rei  na  occasião  em  que  foram  presos  os  dois  irmãos  Coiitis  e  seus 
companheiros.  O  resoluto  procedimento  da  dita  prisão  snccedeu  a  20  de 
junho.  El-rei  saliiu  logo  do  paço  e  passou  para  Alcântara,  instigado  e 
acompanhado  dos  condes  de  Castello  Melhor  e  Alhougiiia,  e  de  Sebastião 
César  de  Menezes.  Devia  acabar  sem  demora  a  regência  da  rainha:  e  não 
havia  duvida  da  sua  parte.  Mas  ou  porque  os  conselheiros  d"el-rei  na  ver- 
dade suppozessem  que  a  havia,  ou  porque  de  proj)osilo  se  quizesse  fazer 
com  irregularidade  e  rompimento  o  que  in)i)ortava  muito  ser  feito  com 
quietação  c  boa  forma;  el-rei  repugnava  ao  que  se  lhe  propunha  da  parte 
da  regente  sobre  esta  matéria.  A  crise  era  delicada,  os  ânimos  andavam 
em  grande  perturbação;  comtudo  a  regente  e  os  que  ella  consultava 
governarara-se  tão  judiciosamente,  que  o  arrojo  d'el-rei  e  a  ambição  dos 
que  o  instigavam  tiveram  que  ceder  a  conselhos  mais  moderados :  e  a 
entrega  do  governo  fez-se  com  tranquillidade,  ao  menos  aiiparenle,  c 
segundo  a  conhecida  prática  dos  maiores  *. 

A  mesma  discreção,  com  que  os  conselheiros  da  rainha  I).  Lniza  enca- 
minharam o  negocio  da  entrega  do  governo  a  um  e.xilo  formal  e  pacifico, 
sem  desanctoridade  da  regente  e  sem  descrédito  del-rei,  os  fazia  mais  de 
recear  para  os  que  tinham  a  direcção  principal  do  presente  reinado.  O 
triumvirato,  como  lhe  chama  com  certa  propriedade  U.  Luiz  de  Menezes, 
que  dentro  de  pouco  tempo  se  devia  embaraçar  comsigo  mesmo  ou  dis- 
solver, não  se  demorou  em  ir  com  forças  ainda  unidas  coiitia  os  inimigos 
communs '.  D.  Nuno  Alvares  Pereira,  primeiro  duque  de  Cadaval,  foi 


'  Veja-se  o  1'ort.  lirftaur.,  tom.  IV,  pag.  ."16  e  scg. 

*  Conseguiu->e,  de|»iis  do  varias  propostas  e  rciilicas.  qnij  el-rci  vollasse  para  o 
paro,  e  que  a  raiuha  Itio  entregasse;  de  sua  mão  os  sellos  em  presença  das  pessoas,  a 
que  rompetia,  e  |)ara  isso  convocadas. 

'  Pouco  depois  se  tomou  suspeito  o  conde  de  Atliouguia,  e  sendo  alíronlado  nas 


58 


desterrado  para  Almeida,  onde  esteve  até  1G64;  o  conde  de  Soure,  o  de 
Poinbeiro,  o  monteiro-mòr  e  Pedro  Vieira  da  Silva  foram  mandados  para 
outros  logares  em  distancia  de  oO  léguas  da  corte;  e  em  razão  de  egual 
distancia  foi  António  Vieira  mandado  para  o  sen  collegio  do  Porto.  E  d'este 
mesmo  contratempo,  da  causa  e  dos  companheiros  nelle,  se  colhe  bem  a 
iniluencia,  que  lograva  com  as  personagens  mais  auclorizadas  da  antiga 
corte,  e  quanto  aos  contrários  pareciam  de  temer  os  seus  recursos  e  con- 
selhos *. 

A  distancia  do  collegio  do  Porto,  onde  Vieira  chegou  em  agosto,  e  tal- 
vez mesmo  em  julho  de  1GG2,  [tarece  que  ainda  não  era  grande  no  conceito 
ou  na  vontade  dos  que  haviam  maquinado  o  seu  degredo  ^.  Foi  elle  avisado 
de  que  o  intento  era  fazé-lo  conduzir  a  Angola  ou  ao  Brazil ;  e  outros 
avisos  estendiam-se  até  á  índia  ^.  Porém  ou  estes  avisos  foram  mais  fun- 
dados no  temor  de  quem  os  fazia,  do  que  era  realidade,  ou  mudaram  de 
intento  os  seus  oppostos.  E  o  certo  é,  que  em  vez  de  se  augmcntar,  se 
dimiuuiu  a  distancia  da  corte;  pois  que  em  princípios  de  16G3  teve  ordem, 
com  que  logo  cumpriu,  para  passar  do  collegio  do  Porto  para  o  de  Coim- 
bra. Esta  ordem  insinua  elle  ser  procedida  de  suspeita,  a  que  deu  occasião 
uma  carta  sua,  dirigida  a  D.  Roílogo  de  Menezes  *.  Entre  as  correspon- 


pcssoas  de  seus  amigos  e  ii;iroiites,  priíiciíiioii  didefença  entre  eite  c  o  conde  de 
C.nslello  Mellior,  que  se  aiigineMlnii  cada  v(^z  mais  até  liiial  desconcerto.  Sebastião 
César  por  suspeitas  e  ciuniiís  foi  tamliern  desterrado;  logo  para  as  vizintiaiiças  de 
Lisboa,  e  emfim  para  o  convento  da  liatalha.  Port.  licst.,  tom.  IV,  pagg.  191-194.  Para 
o  desterro  dos  conselheiros  da  rainha  1).  Luiza,  vcja-se  ib.,  pag.  81. 

'  Que  se  temiam  de  António  Vieira,  não  pódc  entrar  em  duvida,  e  também  a  não 
pode  ter,  que  o  que  d'elle  lemiam,  eram  os  pareceres  c  expedientes  *. 

*  JV.  B.  No  memorial  ao  princii)e  I)  Pedro  diz  Vieira:  no  anno  de  61,  governando 
já  a  rainha  que  está  em  (jloria,  íiimbem  amstin  sempre  em  todas  as  juntas  de  ministros 
mais  confidentes  de  S.  Majestade  e  de  V,  Alteza,  sendo  elle  o  instrumento  mais  immediato, 
que  i>or  ordem  dos  mais,  propunha  e  solicitara  us  ultimas  resolvções. 

2  Tire  (iriso  haverá  gninzc  dias,  que  me  estava  decretado  novo  desterro:  uma  versão 
diz,  que  para  o  Brazil.  outra  para  o  Maranhão,  outra  para  Anijola.  Carta  de  Vieira, 
n.  XVIII  do  vol.  1,  cujo  sobrcscripto  está  errado,  jiorque  é  ao  duque  de  Cadaval,,  quando 
deve  ser  para  o  marquez  de  Gouveia. 

3  Cá  tive  meus  rebates  como  o  anno  passado,  de  me  quererem  mudar  o  deyredo  para 
mais  longe  nesta  occasião  de  nau  da,  índia;  mas  não  são  necessárias  as  calmas  de  Guiné, 
uew  íís  lariiteiitas  da  caho  da  Boa  Esperança,  etc,  vol.  I,  cart.  XXIV. 

*  Veja-se  a  carta  III,  do  vol.  Ill,  das  de  Vieira. 


59 


dencias,  que  Vieira  continuou  por  caria,  desde  que  saliiu  ile  Lisboa,  no- 
lam-se  as  (jue  teve  com  este  lidalgo  e  com  o  marquez  de  Gouveia;  lie 
ambas  as  qunes  conservamos  monumentos,  que  não  são  imlilTercnles  para 
a  historia  de  Vieira  e  a  do  seu  tempo,  e  que  são  muito  para  estimar  em 
razão  da  sua  forma.  K  como  de  Vieira  dão  noticias,  que  servem  a  esta 
relação,  será  necessário  dar  summariamente  ao  leitor  algum  conhecimento 
da  condição,  em  que  se  achavam  estes  dois  fidalgos,  e  da  substancia  das 
cartas,  que  possuímos,  encaminiiadas  a  um  e  outro. 

D.  João  da  Silva,  segundo  martjuez  de  Gduveia,  e  nllimo  dos  que  eram 
por  varonia  da  casa  de  Portalegre,  não  desafiou  tanto  a  inimizade  do 
triumvirato,  e  por  esse  motivo  não  Ibi  comprcliendiílo  no  numero  dos 
desterrados.  Mas  como  em  razão  das  disposições,  que  na  casa  d"ei-rei  se 
fizeram  pelo  arbilrio  dos  novos  conselheiros,  se  viu  sem  influencia  no  paço, 
e  coarctado  no  exercício  e  prerogalivas  de  cargo  de  mordomo  mòr,  em 
que  succedera  a  seu  pae  o  primeiro  marquez  de  Gouveia ;  com  isto  desgos- 
toso, pediu  licença  para  se  retirar  da  corte.  Negou-sc-ihe  ao  primeiro 
requerimento;  mas  instando,  foi-lhe  concedida:  com  a  declaração  de  que 
não  tornaria  á  corte  sem  ordem  d'el-rei.  Helirouse  então  para  a  sua  villa 
de  Gouveia  por  janeiro  de  1G63,  e  ao  tempo  d'este  seu  retiro  c  um  pouco 
mais  adiante  é  que  se  refere  boa  parle  das  cartas,  que  Vieira  lhe  dirigiu, 
e  de  que  agora  nos  fazemos  cargo  Dão  a  ver  as  ditas  cartas,  que  o  des- 
gosto do  governo  presente  era  commum  ao  marquez  de  Gouveia  e  a  Vieira: 
porém  ainda  que  Vieira  uma  ou  outra  vez  lhe  aponta  as  altas  esperanças, 
em  que  o  traziam  acerca  de  futuras  prosperidades  portuguesas  as  suas 
prophecias,  é  muito  levemente;  e  da  pessoa  do  infante  não  lhe  falia,  senão 
pouco  e  sem  grandes  desafogos:  donde  infiro,  que  cultivando  a  amizade 
do  marquez,  e  fiando  de  seus  oHicios  em  opportuna  occasião  meliioramento 
de  fortuna,  punha  comtudo  na  sua  aíTeição  e  caracter  menos  segurança, 
do  que  no  de  D.  Hodrigo  de  Menezes  '. 

Foi  D.  Rodrigo  de  Menezes,  filho  du  segundo  conde  de  Gantanhede,  e 
irmão  do  primeiro  marquez  de  Marialva,  o  vencedor  das  linlias  d  Klvas  e 
de  Montes  Claros.  Seguindo  o  caminho  das  leltras,  que  estudou  em  Coim- 
bra, veio  a  ser  presidente  do  desembargo  do  paço,  regedor  das  justiças  e 


'  As  cartas  escriptas  ao  marquez  de  (Jouv(!Ía  desde  Coimbra  vèrii  no  vdl.  111. 
entre  V  e  XXVIII;  mas  uma  ou  outra  se  acham  tamljein  nos  vol.  I  c  II.  Na  Yll  e  VIII 
do  dito  vol.  III,  se  pôde  ver  o  que  diz  das  suas  altas  esperanças. 


60 


do  conselho  destado;  e  por  seu  nascimento  occupou  os  logares  de  cama- 
rista e  estribeiro  mór  do  principe  regente.  Acceito  em  todo  o  tempo  a 
este  principe,  não  tomou  comtudo  parle  nos  successos,  com  que  a  regência 
da  rainha  D.  Luiza  se  conchiiu.  Não  o  alcançou  pois  o  turbilhão,  que 
arremessou  para  Almeida  o  duque  de  Cadaval,  para  Loulé  o  conde  de 
Soure  e  para  o  Porto  António  Vieira.  Sem  embargo  disso,  ou  porque  a 
sua  casa  nos  annos  de  1662  e  63  se  viu  menos  favorecida  do  governo;  ou 
porque  não  podia  accommodar-se  com  os  desconcertos,  se  não  eram  insa- 
nias,  do  paço,  allestados  uniformemente  pelos  contemporâneos ;  ou  porque 
emfim  muito  entregue  ao  partido  do  infante,  se  julgava  implicado  nas 
desatlenções  e  riscos,  que  este  principe  corria;  parece  certo  que  inclinava 
muito  para  outra  ordem  de  coisas,  e  que  desejoso  de  mudanças,  sentia 
com  os  mais,  que  as  desejavam,  e  especialmente  com  Vieira,  que  além  de 
as  desejar,  ou  por  isso  que  as  desejava  com  ardor,  as  imaginava  e  antes 
sonhava,  não  só  infalliveis,  mas  até  muito  chegadas. 

Esta  commuiiicação  de  desejos  e  pensamentos  consta  claramente  da 
correspondência.  O  infante  pelos  symbolos  de  Santelmo  e  do  Corpo  Sanln 
é  apontado  com  frequência  e  inclinação  visivel;  os  vicios  e  erros  da  côrle 
são  referidos  ou  alludidos  com  encarecida  lastima ;  os  seus  descuidos 
apparenles  são  commentados  com  empenho ;  os  mesmos  successos  felizes, 
se  não  abatidos  ou  delraliidos  em  razão  da  muita  parte  que  nelles  teve  o 
marquez  de  Marialva,  ao  menos  são  reputados  pouco  bastantes  para  a 
completa  restauração  do  reino  '.  Porém  sobretudo  são  inculcadas  com  toda 
a  clareza,  que  as  circumstancias  solfriam,  as  esperanças  vastas  de  um 
largo  império  e  brilhantíssima  gloria  portuguesa,  e  de  prodigioso  triumpho 
da  Igreja  catholica  sobre  a  infidelidade  mahomelana,  e  até  sobre  a  rebel- 
lião  das  seitas  chrislãs  separadas.  António  Vieira  dá  conta  das  prophecias, 
em  que  as  suas  esperanças  assentavam;  communica  a  obra  mysteriosa, 
em  que  as  ia  desenvolvendo,  e  os  seus  progressos;  pede  a  D.  Rodrigo  de 
Menezes  a  coadjuvação  de  conselho  e  de  livros:  e  bem  se  alcança,  que  a 
amizade  de  D.  Rodrigo  lhe  não  faltava  com  estes  soccorros  *. 


'  As  carias  escriptas  do  Coimbra  a  D.  Rodrigo  de  Menezes  podem  ler-se  (c  mere- 
cem ser  lidas)  principalmente  no  I  vol.,  números  XX-IjXXXI.  Algumas  poucas  vêm 
no  viil.  II. 

2  IJe  tudo  isto  é  Ijaslante  prova  o  seguinte  fragmento  da  carta  XXI  do  I  vol. : 
Aqnrlle  papel  ,se  vae  fazendo,  quanto  o  permitte  a  frieza  do  tempo  e  a  fraqueza  da  xaude ; 
was  não  o  verá  o  mundo,  sem  que  V.  S.  o  veja  e  o  emende  primeiro.  Aquelles  documentos. 


61 


Nenhum  homem  pôde  ser  inteiramente  superior  ao  seu  século.  As  idéas 
e  opiuiões,  nelle  dominantes,  o  hão  de  sujeitar  mais  ou  menos.  E  ou  porque 
n3o  ha  intendimento  tão  agudo,  que  penetre  a  muito  larga  distancia  do 
ponto,  a  que  alcança  a  totalidade  dos  seus  contemporâneos;  ou  porque 
não  ha  espirito  tão  isento,  que  chegue  a  se  hbertar  de  todos  os  [irejuizos 
e  preoccupações ;  ou  emfmi  porípie  não  ha  audácia  tão  atrevida,  que  se 
lembre  de  alTrontar  em  cheio  o  commum  sentir  da  geração  a  (jue  [)erteiice: 
é  certo,  que  os  mais  adiantados  nunca  o  são  a  perder  lolainieute  de  vista 
aquelles,  com  quem  entraram  na  mesma  carreira;  os  mais  singulares 
guardam  sempre  essenciaes  analogias  com  o  commum;  os  maiores  origi- 
naes  nunca  excluem  toda  a  similliança.  Aristóteles  no  tempo  de  Cecmps 
não  fora  Aristóteles:  e  Newton,  alongando-se  tanto  da  sua  edade,  sempre 
mostrou  que  não  era  de  outra.  E  assim  como  a  virtude  mais  pura  tem 
sempre  certa  liga  da  imperfeição  da  natureza  humana ;  assim  o  mais  bri- 
lhante engenho  nunca  discute  plenamente  as  sombras,  de  que  se  acha 
esciu-ecido  o  próprio  horisonte.  Os  espíritos  extraordinários,  de  que  a 
bisioria  nos  refere  o  apparecimento  em  séculos  tenebrosos,  nunca  passaram 
de  luzeiros  fracos  e  incertos;  e  não  avaliamos  o  seu  grande  poder  tanto 
pela  claridade,  que  communicaram,  como  pelos  obstáculos  da  cerração 
densa,  por  que  romperam. 

Se  António  Vieira  por  mera  condescendência  sacrificou  nas  nraçi5es  do 
púlpito  ao  gosto  do  tempo,  que  tinha  por  estragado;  muito  sinceramente 
ao  contrario  abraçou  as  credulidades,  e  se  entregou  ás  visões,  ou  abusões, 
que  ainda  no  século  XVII,  dominaram  mais  ou  menos  toda  a  Europa.  Não 
ha  século,  que  não  se  iiluda  com  engauos,  que  não  abrace  e  não  adore 
erros:  e  se  algum  presumisse  de  si  esse  privilegio  de  infallivel,  não  pudera 
offerecer  do  seu  engano  e  erro  argumento  mais  decisivo.  Rimo-uos  da 
sisuda  gravidade,  com  que  nossos  passados  creram  e  defenderam  illusões: 
pagar-nos-lião  na  mesma  moeda  os  nossos  vindouros;  e  pagar-lhes-ha 
lambem  a  elles  a  sua  posteridade.  No  presupposlo  Qrme  de  nossas  opiniões, 
no  fervor  de  nossas  emprezas,  parece-nos  o  engano  ou  erro  incrível;  e 


em  que  {aliei  na  curta  passada,  não  dêni  cuidado  a  V-  S.,  porque  ainda  depois  do  en- 
trudo rirão  a  tempo.  E  na  caria  seguinte  diz :  As  jusli/irarões  do  livro  do  Beato  Amadeu 
estimei  tjrandemente  ver  peta  variedade  e  incerteza,  com  que  nelle  faliam  os  auctores. . . 
As  de  S.  Fr.  Gil  tomara  também  ver,  e  me  lembra  que  as  tinha  antigamente  um  espar- 
teWo  das  portas  da  Mouraria. 


62 


aiuda  quando  ostentamos  duvidas  modestas,  a  duvida  sahe  á  lingua  ou  á 
penna,  mas  a  convicção  fica  no  animo.  E  chega  a  tanto  aqui  a  nossa  fra- 
queza, que  mesmo  observando  bem  o  que  aconteceu  aos  que  nos  prece- 
deram, nos  ficamos  lisonjeando  de  mais  isentos.  Esta  mal  considerada 
arrogância  do  amor  próprio  é  proveitosa,  porque  de  outra  sorte  o  género 
humano  se  precii}itaria  em  um  pyrrhonismo  incrle,  mais  prejudicial,  que  a 
dita  arrogância:  mas  notemos  de  caminho,  quão  pouco  deve  blasonar  de 
poderes  inteliecluaes  uma  natureza,  a  quem  é  preciso  eutregar-se  a  certos 
defeitos,  para  fugir  o  damno  de  outros  mais  perigosos. 

Os  portugueses  do  século  XVII  criam  as  profecias  de  Gonçaliaaes 
Bandarra,  esperavam  o  encoberto,  assustavam-se  de  cometas,  liam  futuros 
nas  estrellas,  sabiam  cora  prognósticos  '.  Não  eram  elles  todavia  os  únicos 
europeus,  que  no  seu  tempo  se  podem  notar  d'esta  fraqueza:  porém  as 
suas  desgraças  desde  a  bataiiia  de  Alcácer,  os  seus  receios  depois  da 
acciamagão  de  1040  os  tinham  talvez  mais  crédulos;  visto  que  o  homem 
nos  grandes  males  e  temores  costuma  ser  mais  ceito  ludibrio  da  propensão, 
que  todos  temos,  por  um  lado  a  engrossar  na  phantasia  os  temidos  desas- 
tres, e  por  outro  a  converter  os  nossos  mais  vivos  desejos  em  ardentes 
esperanças.  Tegou-se  também  d'este  contagio  António  Vieira.  E  como  tinha 
tanto  de  agudo  e  de  especulativo,  não  só  foi  adiante  de  todos  os  outros, 
mas  foi  o  corypheu  e  oráculo  dos  mais  ^.  Não  poniio  duvida  em  que  alguma 
vez  encarecese  as  próprias  opiniões,  ou  que  apurado  pela  disputa  e  contra- 
dicção,  procedesse  mais  longe,  do  que  ao  principio  intentara  ;  mas  o  modo 
de  pensar  dos  tempos,  o  das  pessoas,  que  tratava  e  respeitava,  a  sua 
franqueza  pelo  commum  muito  resoluta,  persuadem  que  se  houve  alguma 
hyperbole  nos  accidentes,  na  substancia  de  seus  conceitos  sobre  a  matéria 
sujeita  não  faltava  sinceridade  ^. 

Consta  que  sobre  similhanles  assumptos  escrevera  Vieira  já  antes  do 


•  Quando  não  constasse  de  outro  modo,  das  cartas  de  Vieira  se  manifesta  pelo  que 
toca  aos  grandes  e  aos  doutos;  d' onde  se  pode  fazer  argumento  para  a  gente  do  povo. 

2  Nem  foi  outra  a  razão,  por  que  empreliendeu  a  obra,  de  que  falia  a  D.  Rodrigo 
tle  Menezes. 

'  As  razões  apontadas  são  graves;  e  é  certo,  de  mais  a  mais,  que  em  toda  a 
correspondência,  que  temos  de  Vieira  impressa,  não  se  acha  uma  palavra,  que  desminta 
a  nossa  afflrmativa.  É  porém  provável,  que  disputamlo  ou  arguiiulo,  passasse  além 
do  próprio  convencimento. 


63 


desterro  para  o  Porto,  e  que  no  Porto  e  em  Coimbra  continuou  a  escrever. 
Para  se  ajudar  na  composição  d'esta  obra,  é  que  pedia  a  D.  Rodrigo  de 
.Meuezes  os  opúsculos  do  ahhade  Joaquim  e  outros  de  lai  natureza.  Mas  não 
alliruiarei,  qut!  esta  obra  ora  a  mesma  qnií  o  pa[iel  iuliluladu  ]'siicraiir(i.'í 
lie  Portugal,  (/idiuo  império  do  mundo  *.  Esle  [)apt'l  liavia  já  sabido  da  sua 
mão,  quando  ainda  durava  aqnelle  Irabaliio;  porque  por  clle  foi  delatado, 
e  a  seu  respeito  foi  inquirido,  ao  mesmo  tempo  qm  aflirmava  aos  seus 
correspondentes,  que  se  ia  occupando  com  a  obra  referida.  Comtudo  sus- 
peito, que  se  o  papel  denunciado  não  era  absúlulameníe  o  mesmo,  seria 
d'elle  extracto  ou  parle  de  algum  vullo,  que  Vieira  separou  e  communicou; 
pois  que  não  só  é  muito  de  crer,  que  cunviubam  no  propósito  c  maleria, 
mas  lambem  é  certo,  que  o  auctor  nas  cartas,  escriptas  de  Coimbra  antes 
de  outubro  de  1603,  falia  de  papel  commnnicado,  que  segundo  o  que 
parece,  dizia  respeito  ao  mesmo  assumpto  *. 

O  pa[)el  intitulado  Eifprranças  de  Portugal,  quinto  império  do  mundo, 
foi  denunciado  por  principios  de  1003,  ou  pouco  adeanle.  O  santo  oíBcio 
de  Lisboa  maiidou-o  examinar  com  escriipulo,  e  o  mesmo  praticou  a  con- 
gregação de  Homa.  Toparam  os  censores,  tanto  os  portugueses,  como  os 
romanos,  com  algumas  proposições  arrojadas,  que  notaram  gravemente. 
E  accrescendo  ainda  denuncias  de  proposições  erróneas,  que  o  auctor 
arriscara  ou  no  [julpilo  ou  em  particular  conversação,  foi  António  Vieira  cha- 
mado á  inijuisição  de  Coimbra.  O  promotor  do  tribunal  olTereceii  libeiio 
por  outubro  ou  novembro  do  dito  anno ;  e  liavido  Vieira  como  reu,  pro- 


*  o  modo.  por  (jiie  da  obra  falia  a  D.  Kndrigo  de  Mouezcs,  inculca  sempre  que 
sobre  ella  linliaiii  fallado  pessoalmente;  o  que  só  podia  ser  em  Lisboa  antes  do  des- 
terro. Veja-se  particularmente  a  carta  XXV,  do  I  vol.  Na  carta  n.  XXXVll,  diz:  o  do 
ablmde  Joaquim  espero  roíd  airororo. 

■  Suppiíz  que  V.  S.  Ifirmii  por  bem.qiii'  eu  corltiííte  este  pequeno  retalho  da  peça. .  . 
Por  eslu  rausa  fiz  rleirão  d'afiueltcs  eapiliilos  mais  rapazes,  etc.  Cart.,  vol.  I.  n.  LIX.  Xa 
carta  XF.Vl  do  vol.  II.  falia  porém  d(!  papel  escripto  ao  bispo  do  Japão,  durando  ainda 
o  governo  da  rainlia  M.  l-uiza.  de  que  pelo  mysterio  e  mais  circunislancias  se  poderia 
conjecturar  que  foi  n  papel  delalado  ao  santo  olticio  *. 

•  -V.  B.  Não  lia  duvida  que  o  papel  delatado  ao  santo  oíDcio  foi  o  mesmo  quinto 
império,  que  António  Vieira  dirigiu  desde  o  Amazonas  ao  bispo  eleito  do  Japão,  logo 
depois  da  morte  d  el-rei  I).  Jnão  IV :  não  era  pois  o  mesmo  ou  parte  do  (|ue  compunha 
por  ma.)  e  em  que  fallava  a  D.  Rodrigo  de  .Menezes;  mas  timho  que  convinham  na 
substancia. 


64 


cedeu  o  seu  negocio,  correndo  os  termos  usados,  e  acudindo  elle  com  as 
coarladas  e  respostas,  que  julgava  opportunas,  já  por  escripto,  já  de  viva 
voz,  nas  occasiões,  em  que  para  isso  ia  do  coilegio  á  inquisição.  Mas  largas 
6  fortes  moléstias,  que  llie  sobrevieram,  impediram  muito  a  marclia  do 
processo;  de  maneira  que  ainda  em  14  de  setemijro  de  ItJGfJ  apresentava 
muitas  mãos  de  papel  escriptas  em  sua  defesa  '.  A  correspondência  porém 
com  D.  Rodrigo  de  Menezes,  com  o  marquez  de  Gouvéa,  com  o  duque  de 
Cadaval  e  seu  irmão  1).  Tlieodosio,  continuou  em  todo  a(]uelle  espaço  de 
tempo  tão  frequente,  tão  desassombi-ado  e  com  tão  forte  tintura  das  mes- 
mas opiniões,  de  que  em  juizo  era  arguido  e  processado,  que  não  é 
possível  inferir  d'ella,  se  exceptuarmos  poucas,  breves  e  não  muito  claras 
passagens,  que  o  agitava  cuidado  tamanho,  e  menos  ainda  que  succumbia 
ao  justo  receio  das  suas  consequências  ^. 

l'or  princípios  de  outubro  de  10C5  tomou  o  tribunal  do  santo  officio  a 
resolução  de  o  deixar  recluso  em  uma  das  suas  casas  de  custodia.  As  razões 
d'esta  resolução  aponta  a  sentença  por  termos  tão  vagos,  e  modo  tão  con- 
ciso, que  não  podem  comprehender-se  ao  cei'lo.  É  uma  d'ellas  achar-se  que 
as  proposições  e  denundaçues  accrescidas  coiilinhain  não  sô  doutrina  nova, 
perigosa  e  falsa ;  mas  lambem  outras  matérias  de  grande  peso  e  importância. 
Porém  não  alcanço  como  a  doutrina  das  primeiras  nove  proposições  se 
possa  reputar  menos  perigosa  e  falsa,  que  a  das  accrescidas  :  e  as  matérias 
•outras,  que  as  dontrinaes,  por  maior  peso  e  importância,  que  se  llies  queirai 
suppor,  a  não  tocarem,  como  parece  que  não  tocavam,  em  ponto  de  cos- 
tumes, ficavam  fora  da  jurisdicção  de  um  tribunal  erigido  contra  a  heré- 
tica pravidade.  A  outra  razão  apontada  é,  parecer  muito  conveniente  por  todos: 
ns  respeitos  averigua-las  (as  proposições  e  denuuciações  accrescidas)  com  a 
maior  madureza  e  circumspecção,  e  com  a  segurança  da  pessoa  do  réu. 


«  André  di;  n;irros,  1.  III,  §  CLXII.  E  supponlio  ser  este  o  segundo  papel  por  elte 
offereeido,  de  que  falia  a  sentença  n.°  45. 

^  As  passagens  breves  e  pouco  claras,  de  que  fallo,  podem  ver-se  nas  cartas  LII, 
LV  8  LVI  do  I  vol.  Na  LV  diz  elle  a  este  respeito  o  seguinte :  V.  S.peta  mercê,  que  me 
faz,  não  tome  pena  peto  que  digo,  que  o  meu  corarão  é  muito  grande,  e  muito  costumado 
a  navegar  com  grandes  tormentas,  e  só  me  fatta  nesta  o  altivio  da  communicarão  de  V. 
S.,  que  ile  tudo  o  mais  me  rio,  e  verdadeiramente  é  para  rir.  Bem  a  propósito  da  tor- 
menta vinha  agora  o  senlior  Sanletmo.  Dizia  o  nosso  príncipe,  que  não  havia  peior  gente 
que  os  semidoutos  (e  ainda  são  peiores  sem  boa  vontade).  Deus  sabe  o  que  faz,  e  porque, 
e  para  que. 


65 


Porém  a  reclusão  não  se  representa  de  muito  serviço  para  a  madureza  dás 
averiguações  :  e  os  fnndamenlos  por  que  amciíifia  a  seyuraiira  da  pessoa  do 
réu.  como  não  são  declarados,  mal  podem  ser  agora  aduiiltidos,  nem  ainda 
intendidos  do  leitor. 

Comtudõ,  porque  à  critica  modesta  (e  não  queremos  nós  fazer  uso  de 
entra)  não  é  licito  em  caso  de  duvida  decidir,  que  um  tribunal  obrou  sem 
snlliciente  motivo,  suppomos  que  o  era  o  que  determinou  o  santo  oflicio 
de  Coimbra  à  reclusão  de  António  Vieira.  Esta  reclusão,  que  principiou, 
como  diziamos,  com  outubro  de  1G65,  durou  até  23  de  dezembro  de  1667. 
Passou-se  este  largo  espaço  em  pedir  a  Vieira  explicações,  era  examinar 
as  que  elle  oíTerecia,  em  altender  ás  suas  replicas,  e  em  o  exhortar  á 
desistência  e  sujeição.  Não  era  possivel  tomar  ás  mãos  um  homem  tão 
agudo  e  tão  exercitado  em  argucias  e  finuias  de  discurso ;  e  por  muito 
destros  que  fossem  os  contendores,  não  poderiam  |)ò-li)  em  aperto,  de  que 
se  não  desembaraçasse  por  evasiva  especiosa.  Não  havia  meio :  ou  elle  se 
havia  de  sujeitar  muito  espontaneamente,  ou  o  tribunal  o  havia  de  con- 
demnar  por  invencível  contumácia.  Condemna-lo  poiém  de  contumácia,  era 
muito  perigoso ;  movè-lo  a  bem  voluntária  sujeição,  não  tinha  dilTiculdade 
pouco  grave. 

Deste  enleio  sahiu  o  tribunal  pela  decisão  de  Roma.  Alexandre  VII 
approvoa  a  censura,  feita  pelos  qualificadores  da  congregação  do  santo 
otlicio :  e  desde  que  a  Vieira  constou  esta  approvação,  desceu  a  desdizer-se 
e  a  retractar-se  do  que  tinha  sustentado,  e  a  reconhecer  a  verdade  em  con- 
trario; pedindo  que  a  sua  causa  fosse  decidida  nestes  últimos  termos' 
Lavrou-se  a  sentença,  que,  expendido  largamente  o  relatório,  manda  que 
spja  privado  para  sempre  de  voz  aclita  e  passiva  e  do  poder  de  pregar,  e 
reiltiso  no  collegio  ou  casa  de  sua  religião,  (/xe  o  mnto  ojlicio  lhe  assigiiar; 
e  que  por  lerinu,  por  elle  assignado,  se  obrigue  a  não  tratar  tnais  das  pro- 
posirões,  de  que  foi  arguido  no  decurso  da  sua  causa;  e  de  maior  condemnação 
o  releva,  havendo  respeito  d  sua  desistência,  relractação,  protestos  e  ao  muito 
lenipo  de  sua  reclusão :  com  outras  considerações,  que  no  caso  se  tiveram. 
Esta  sentença  foi  lida  ao  réu  na  sala  do  santo  olFicio,  perante  os  inquisi- 
Jnrps  e  mais  ministros,  e  algumas  pessoas  religiosas,  e  outras  ecclesiasticas 


•  Veja-se  nas  Provax  da  Dedv.n:  Chronol.,  n.»  XLV,  n  seniença  do  santo  offlcio, 
n.'  lOi— 108. 


66 


do  corpo  da  iuiveisidade,  na  tarde  do  dito  dia  23  de  dezembro  de  1667  ; 
e  na  manhã  seguinte  llie  foi  lida  no  seu  coliegio  de  Coimbra,  em  presença 
de  toda  a  coramuiiidade,  por  um  dos  notários  do  tribunal*:  com  o  que 
teve  fim  este  importante  incidente,  c  trai)albo  duro  e  pesado  sobre  todos 
os  de  que  abundou  a  vida  dilatada  e  trabalhada  de  António  Vieira. 

Assignou  o  santo  officio  para  reclusão  a  residência  de  Pedroso,  a  dez- 
oito léguas  de  Coimbra  na  estrada  do  Porto.  Porém  estando  Vieira  ainda 
em  Coimbra,  lhe  foi  pelo  conselho  geral  commutada  a  residência  de  Pedroso 
na  casa  da  Cotovia  de  Lisboa-;  aos  seis  mezes  depois  de  publicada  a  sen- 
tença, foi  em  tudo  dispensado  e  perdoado  pelo  mesmo  conselho:  e  tinha 
já  passado  da  casa  da  Cotovia  para  o  coliegio  de  Santo  Antão,  antes  de 
sahir  para  Roma  em  1669  ^.  Bem  que  as  culpas,  de  que  Vieira  foi  arguido, 
me  parecem  de  certo  momento,  o  modo,  por  que  neste  negocio  se  com- 
portou o  santo  oíTicio,  tenho  comtudo  por  estranho.  A  implicância,  que 
reconheço  neste  dito,  me  obriga  a  propor  algumas  ponderações,  que  devera 
envolver  historia  de  Vieira,  e  que  por  isso  não  tenho  por  alheias  d'este 
Discurso.  Se  a  minha  imparcialidade  não  é  ainda  bem  manifesta,  repito  que 
não  quero  favorecer  contra  razão  e  justiça  a  causa  de  Vieira,  nem  quero 
fazer  ao  tribunal  do  santo  oílicio  injuria.  Nunca  tive,  nem  podia  ter,  o  dito 
tribunal  por  infallivel :  mas  tive-o  sempre  por  observante  das  suas  regras, 
e  por  animado  do  sincero  desejo  de  alcançar  o  seu  legitimo  propósito ; 
posto  que  tudo  isto  subordinado  aos  princípios  que  professava,  as  idéas 
contemporâneas,  sobre  cuja  verdade  e  apuramento  não  pretendo  pronun- 
ciar agora,  e  à  influencia  poderosa  do  jogo  das  causas  politicas. 

As  seis  proposições,  a  que  se  podem  reduzir  as  nove,  extrahidas  do 
papel  Quinto  Império  do  Mundo,  são  certamente  fátuas  e  temerárias ;  nem 
tèm  desculpa  alguma,  senão  no  modo  de  pensar  dos  tempos,  na  illusão  das 
paixões,  no  ardor  exaltado  dos  partidos.  Nas  replicas,  Vieira  torceu  repre- 
hensivelmente  o.  sentido  das  Escripturas,  e  fez  applicações,  plausíveis  sim 
nos  termos,  porém  absurdas  e  ineptas  na  substancia.  O  seu  Millenium  não 


'  Tudo  consta  da  sentença  citada  e  seu  appendix. 

2  Também  consta  do  dito  appendix,  e  de  André  de  Barros,  1.  III,  §  CLXXVlI. 

'  Barros  diz  que  em  breve  passou  para  o  coliegio  de  Santo  Antão,  e  certamente 
nelle  residia  já,  quando  pregou  o  sermão  de  Santo  Ignacio  (p.  I,  n.°  VI),  que  se  diz  na 
inscripção  pregado  em  1669.  Também  suspeito  que  foi  anterior  á  partida  para  Roma  a 
carta  LVII,  do  vol.  II,  escripta  de  Santo  Antão  ao  duque  de  Cadaval. 


67 


I)  Milleiéiiini  carual  e  toipe.  que  reprovou  a  Egreja  antiga ;  mas  tal  idéa 
e  tal  palavra  loram  reproduzidas  com  pouco  fimdamento,  e  ainda  menos 
aviso.  As  em[)rèsas  do  sermão  de  S.  Pedro  Noiasco  e  outros,  são  dignas 
de  muito  reparo  e  até  reprovação ;  mas  eram,  para  o  dizer  assim,  exqtii- 
siíiirs  daquella  edade,  em  que  a  grande  ambição  dos  pregadores  sò  atirava 
a  distinguir-se  por  novidades,  por  singularidades,  por  meros  jogos  de 
engenho,  que  entrelinham  e  talvez  admiravam  ouvintes  de  mau  gosto,  mas 
realmente  desdiziam  do  verdadeiro  zelo  e  deshonravam  o  juizo  dos  seus 
andores.  Em  summa  que,  tudo  bem  considerado  e  contrapesado,  as  pro- 
posiçiJes  notadas  de  Vieira  mais  me  parecem  paradoxos,  do  que  erros ; 
mais  extravagâncias  dignas  de  riso,  que  alRrmativas  perigosas,  merecedoras 
de  uma  seria  e  formal  condemnação. 

Foram  porém  condemnadas  com  a  mais  séria  formalidade ;  e  as  penas 
impostas,  por  si  mesmas  e  pelo  apparato  da  publicação,  foram  maiores, 
se  me  não  engano,  do  que  a  culpa  requeria.  Privado  para  sempre  de  voz 
activa  e  passiva  e  da  faculdade  de  pregar!  Reclusão  perpetua,  e  em  casa 
determinada,  e  porventura  a  menos  bem  situada  e  comnioda  de  quantas 
possuia  neste  reino  a  sociedade  !  Termo  de  não  tratar  mais,  nem  de  palavra, 
liem  por  escripln,  das  proposições  controvertidas  no  decurso  da  causa ! 
Publicação  com  tantas  circiunstancias  e  tão  graves  de  confusão  e  de  abati- 
mento !  E  tudo  isto,  ainda  rclevatido-se-llie  a  maior  condemiiarão,  que  por 
suas  culpas  merecia  t  E  pi-ecedendo  desistência,  retractação  e  protestos  do 
réu ;  e  mais  de  dois  annos  de  reclusão  em  cárcere,  e  talvez  quatro  de 
sujeição  ás  ordens  e  mandados  do  tribunal  •!  Se  António  Vieira  tinha  com 
o  tribanal  a  opinião  de  sinceramente  submettido,  tantas  e  tão  ásperas  cau- 
telas parecem  snperfluas  e  muito  duras  para  com  sujeito  de  taes  prendas 
e  serviços  :  se  não  tinha  aquella  opinião,  o  conhecimento  dos  seus  talentos, 
a  experiência  de  casos  análogos  aconselhava  moderação,  que  brandamente 
contivesse,  em  vez  de  dureza,  que  mais  o  incitasse.  Que  se  podia  reservar 
para  um  herético?  para  um  corruptor  da  moral  no  sagrado  do  confessio- 
nário ?  para  um  traidor  dos  segredos  da  penitencia  com  desacato  do  minis- 


'  A  prisão  durou  desde  princípios  dn  outubro  do  1663  alé  23  (If.  dezembro  de  1667, 
e  da  mesma  senlenra  se  infere  bem,  (|ue  o  seu  negocio  couieçára  a  ser  tratado  muito; 
tempo  antes  ;  porqui;  pi  incipiou  muito  antes  de  ser  offerecido  pelo  promotor  o  libelio, 
e  do  libelio  á  reclusão  correram,  ao  menos,  treze  mezes. 


68 


terio,  com  ruiiiii  das  consciências,  cora  escândalo  dos  fieis,  e  talvez  peri- 
gosas perlurljações  da  ordem  civil  ? 

Os  mesmos  ministros  do  santo  ofiicio,  por  outro  lado,  inculcaram  como 
pouco  grave  a  culpa,  a  que  se  impuz<.'ra  na  s(  nlença  tamanlia  pena.  Ob- 
serva Barros  com  muita  razão,  que  nem  obrigaram  Vieira  a  que  fizesse 
abjuração  de  Icri :  abjuração  praticada  nos  casos  ainda  menos  importantes. 
O  degredo  foi  sem  demora  trocado  co:n  a  residência  em  Lisboa  ;  a  reclusão 
perpetua  acabou  dentro  de  seis  mezes;  a  21  de  junho  de  10(58  devia  já 
pregar  na  corte';  a  indulgência  emfim  do  conselho  geral  converteu  em 
branduras  todos  os  rigores  da  Mesa  de  Coimbra.  Poderá  referir-se  esta 
mudança  á  opinião  differente  dos  juizes  de  Lisboa :  mas  a  isso  obsta,  que 
a  qualificação  de  Lisboa  foi  a  mesma  por  que  Coimbra  se  governou  ;  e  que 
a  Mesa  inferior  não  i)odia  desviar-se  tão  largamente  do  parecer  do  conselho, 
nem  resolver  tão  [)ouco  de  accordo  com  elle  em  matéria  tão  relevante,  e 
acerca  de  sujeito  Ião  conhecido  e  tão  notável.  De  sorte  que,  tendo  a  tudo 
isto  a  devida  attenção,  é  difQculloso  absolver,  ou  a  sentença  de  excesso  de 
severidade,  ou  a  brandura,  que  a  dispensou  tão  cabal  e  promptamente, 
da  nota  de  incohereucia. 

Não  tinham  passado  mais  de  Ires  dias  depois  que  fora  restituído  ao 
collegio  de  Coimbra,  quando  no  dito  collegio  o  foi  visitar  o  mesmo  presi- 
dente da  Mesa  do  santo  oCficio.  Repetiu  por  outras  vezes  esta  obsequio ; 
e  os  mais  ministros  o  imitaram,  todos  com  significações,  diz  André  de 
Barros,  de  estimação  rara,  e  de  honra  singular.  Vieira,  escrevendo  ao  duque 
de  Cadaval,  insinua  estes  favores,  atleudiveis  com  effeito,  e  até  me  parece 
que  insinua  cousa  de  maior  importância  2.  Em  chegando  a  Lisboa,  recebeu 
eguaes  contemplações  de  ministros  da  inquisição  tão  graves,  como  eram 
por  suas  qualidades  e  empregos  I).  Veríssimo  de  Lencastre,  dej)OÍs  inqui- 
sidor geral,  e  D.  Diogo  de  Sousa,  depois  arcebispo  de  Évora.  De  muitas 
outras  personagens  da  primeira  nobreza  foi  tratado  com  attenção  muito 
distincta,  ou  por  cartas  de  consolação,  encaminhadas  desde  logo  a  Coimbra, 


1  Devia  pregar  110  dia  de  annos  da  rainha  D.  Maria  Francisca,  21  de  junho  de  1608: 
mas  impedido  por  ninleslia  (ou  por  oulro  motivo?)  não  pregou  :  porém  o  sermão  i' 
o  priuKíiro  que  anda  estampado  no  tom.  XIV. 

2  Os  senhores  de  cá  (vol.  II,  cart.  Lli),  quf  me  têm  visitado  por  vezes,  ticertim  a 
mesma  noticia,  posto  que  ainda  não  o  despirho.  Ou!ras  cotisus  intendi  d'elli'S,  que  pode- 
riam ser  de  alqnm  nllivio,  se  as  soubera  o  mundo. 


69 


OH  por  cumiiriínentos  pessoaes  na  Cotovia  de  Lisboa  '.  E  é  certo,  que  este 
trabalho,  coiirumliiulo  por  algum  tempo  e  abatendo  Vieira,  lhe  redundou 
era  gloria  :  e  que  podia  dizer,  sem  faltar  um  ponto  á  verdade,  que  no  des- 
barato tinha  achado  occasião  de  trium[ilio;  ou  antes,  que  por  isso  mesmo 
que  soffròra  rota  lastimosa,  triumphou  com  mais  circumstancias  de  appa- 
ratoso  Inzimenlo. 

Incohereiícias  tão  palpáveis  em  um  Iribuual,  que  se  portou  em  todo  o 
lempo  com  grande  tonto  e  madureza,  a  coincidência  da  mudança  de  Vieira 
para  melhor  fortuna  cum  a  do  governo  e  negócios  do  reino,  me  levam  a 
suspeitar,  que  a  foituna  se  tornou  para  Vieira  mais  benigna,  porque  o 
meneio  dos  negócios  do  reino  passou  a  outras  mãos.  El-rei  D.  AÍTonso 
desistiu  por  um  acto  datado  de  23  de  novembro  de  i667;  António  Vieira 
voltou  do  santo  ofUcio  para  o  collegio  de  Coimbra  um  niez  precisamente 
depois  daquelia  desistência.  Na  regência  do  príncipe  D.  Pedro  ficou  tendo 
muita  parto  e  grande  influxo  o  duque  de  Cadaval,  que  favorecia  com  par- 
ticularidade António  Vieira;  e  do  mesmo  príncipe  era  estimado  e  bem  visto 
D.  Rodrigo  de  Jlenezes,  intimo  de  Vieira  e  seu  participante  dos  segredos, 
que  deram  occasião  aos  desabrimentos,  que  provou  o  jesuíta*.  Como  é 
possível,  observando-se  (aes  correspondências  e  respeitos,  dei.xar  de  inferir 
que  a  expedição  do  negocio  de  Vieira,  e  mais  ainda  o  favor  e  attenções, 
que  exporimentfju  depois  da  soltura,  procederam  da  inlerveução  de  auclo- 
ridade  mais  poderosa  ?  As  primeiras  cartas,  que  Vieira  escreveu  ao  duque 
de  Cadaval  no  principio  de  l(j(J8,  ainda  de  Coimbra,  accrescenlam  os  mo- 
tivos a  esta  illação ,  porque  d  ellas  se  conhece,  que  o  duque  tomava  parlo 
muilo  activa  no  remédio  dos  seus  contratempos,  e  que  com  este  fim  ate 
se  constituía  arbitro  do  seu  posterior  comportamento  ^. 

Se  ha  porém  razão  de  suspeitar  que  o  favor  da  côrle  teve  na  emenda 
da  fortuna  de  Vieira  muita  influencia,  também  a  ha  de  suspeitar,  (juc  os 
trabalhos,  que  nesia  occasião  padeceu,  procederam  do  seu  desfavoi'.  Que 


'  Barros,  I.  III,  §  CLXXIX. 

'  Colhe-se  necessariamente  das  Cartas  para  I).  liodrigo  de  Menezes,  ijiie  elle  e 
Vieira  linliam  n  mesmo  modo  de  pensar  àcerea  d'esta  matéria,  c  que  reeiproeainente 
SC  eommiinieavam  as  suas  esperanças  e  fumlamentos  d'ellíis. 

'  Irei  pura  ondp  me  mandarem,  pois  assim  1'.  /v  o  manda.  Vol.  II,  cari.  lil.  Como 
V.  E.  não  repara  no  modo,  mnl  pude  arhar  inconveniente  nelle,  quem  obedece  em  tudo 
(eomo  V  E.  lhe  mandou,  aos  olhos  fechados).  Itiid.,  cart.  LV. 


70 


a  corte  d'el-rei  D.  Afifonso  lhe  era  contraria,  não  admitle  duvida.  O  encur- 
tar-Uie  no  desterro  a  distancia  de  Lisboa,  chamando-o  do  Porto  para 
Coimbra,  não  se  pôde  allribuir  a  desejo  de  lhe  dar  aliivio.  E  obsei  vando-se, 
que  Coimbra  foi,  quasi  logo  o  iheatro,  em  que  passou  a  scena  desagra- 
dável que  temos  referido,  tem  logar  a  suspeita  de  que  o  que  podia  parecer 
encaminhado  a  mitigar  rigor,  tinha  o  verdadeiro  propósito  de  lhe  augmentar 
a  pena '.  Exphca-se  bem  d"este  modo  a  perseguição  d'elle  só,  por  culpas, 
era  que  o  numero  dos  cúmplices  era  tão  avultado  e  pouco  menos  que  uni- 
versal ;  a  reclusão,  sem  motivo,  que  satisfaça  o  leitor  da  sentença  ;  a  dureza, 
pouco  proporcionada,  das  penas  por  ella  impostas;  a  inconsequência,  com 
que  o  santo  oflicio  notou  e  castigou  sermões,  que  veiu  depois  a  permiltir, 
que  com  grande  elogio  se  estampassem  sem  differença  ^ ;  e  tinalmente  o 
seguinte  obsequio  dos  inquisidoiTS  e  mais  ministros,  no  qual  se  implicava 
de  certo  modo  a  escusa  do  procedimento  anterior,  como  referindo-o  antes 
a  impulso  alheio,  do  que  á  própria  ou  deliberada  opinião. 

Por  mais  que  eu  discorra,  não  posso  achar  outro  sentido  accommodado 
áquellas  palavras  de  Vieira  na  carta  para  o  duque  de  Cadaval — Outras 
cousas  intendi  d'elles  (os  inquisidores  de  Coimbra,  que  o  visitaram),  (jue 
podcram  ser  de  abjum  aliivio,  se  as  soubera  o  inundo.  Os  in(]uisidores  mais 
as  insinuavam,  do  que  as  diziam ;  não  podiam  ser  reveladas  ao  mundo ; 
poderam  porém  ser  de  aliivio  a  Vieira,  no  caso  que  fossem  reveladas.  O 
que  tudo  parece  indicar  impulso  de  prepotência ;  o  qual  certamente  dimi- 
nuía em  Vieira  o  descrédito,  e  pelo  santo  oflicio  não  podia  ser  inculcado 
sem  rebuço,  e  menos  ainda  ser  divulgado.  Vejo  que  se  oppõe  a  esta  sup- 
posição  o  rigor  da  sentença,  iio  caso  que  fosse  lançada  depois  de  23  de 
novembro;  porque  já  então  os  que  a  proferiram,  não  eram  determinados 
por  aquelle  impidso,  antes  o  eram  pelo  contrario,  visto  o  favor  da  regência 
para  com  Vieira.  Mas  a  sentença  podia  ser  proferida  antes  do  dito  praso : 
ou  o  santo  olíicio  julgou,  que  não  podia  voltar  atraz  sem  grande  desar,  e 
a  regência  viu-se  obrigada  a  condescender;  intendendo  que  as  penas  deviam 


<  Veio  do  Porto  para  Coimbra  em  janeiro  de  166IÍ ;  e  por  boa  eonta,  dentro  d'e?se 
mesmo  anno  foi  delatado,  e  o  ?eu  negocio  posto  em  tela  judic-ial  no  santo  ofilcio. 

*  Vieira  estava  na  America,  as  pai.xôes  tinham  esfriado ;  foram  portanto  vistos  os 
sermões  com  os  mesmos  olhos,  com  que  o  sei  iain  em  1665,  se  as  paixões  não  estivessem 
muito  accesas.  Fora  do  primeiro  tomo,  todos  os  mais  se  estamparam,  depois  que  Vieira 
se  retirou  para  o  Brazil. 


71 


cessar  com  o  perdão,  e  que  a  um  homem,  como  Vieira,  seria  muito  fácil 
deseuibaraçir-se  do  descrédito,  como  depois  provou  o  successo.  E  não  ha 
duvida,  que  das  cartas  se  vé,  que  o  duque  de  Cadaval  se  inclinava  a  con- 
descendências, e  que  aconselhava  a  Vieira,  que  nisto  fosse  do  mesmo 
parecer '. 

Nas  priíieiras  duas  cartas  escriptas  ao  duque  de  Cadaval  a  3  e  9  de 
janeiro,  de;  ou  quinze  dias  depois  da  soltura,  usa  Vieira  termos,  que 
mostram  nuito  abatimento  de  animo;  se  bem  que  de  nenhum  se  pôde 
inferir  baiveza '.  Na  de  9  de  janeiro  chega  a  declarar,  que  a  não  o  pren- 
derem os  extremos  de  affeclo,  que  devia  ao  duque,  se  desterraria  volunta- 
riamente para  tiiuiln  longe  da  pátria.  Mas  já  na  terceira  datada  de  16  de 
janeiro,  >osto  que  elle  a  diz  escripta  7)ão  pelo  António  Vieira  que  foi,  mas 
pelo  qne  é,  ou  o  que  deixou  de  ser,  renasce  a  sua  energia ;  e  apparece 
(juasi  s»m  diíferença  na  de  20  de  fevereiro.  A  dòr,  como  elle  escreve,  ia 
crescento  mais,  quanto  mais  iam  esfriando  as  feridas.  Porém  a  reflexão  de 
(jue  lido  era  nascido  das  tramas  de  perseguidores,  a  consideração  da 
imporanoia  dos  cúmplices,  a  protecção  manifesta  de  poderosos  amigos,  e 
a  lioira,  que  elle  tinha  por  certo,  que  lhe  faziam  os  estranhos,  o  iam  conso- 
lan*  ao  mesmo  passo.  E  |)osso  aflirniar,  quanto  ao  desgosto,  que  nesta 
«ccasião  o  em  outras  declarou  da  palria,  que  os  seus  queixumes  não 
influiam  no  affeclo;  e  que  nos  encontros,  em  que  d'clla  se  linha  por  mais 
offendido,  nem  parece  menos  disposto  para  a  servir,  nem  se  empregava 
cum  menos  ardor  no  seu  serviço,  do  que  .se  a  pátria  o  tratasse  sempre 
como  pedia  o  seu  merecimento. 

Uiz  André  de  Barros,  que  no  anno  de  1(568  passou  de  Coimbra  para 
o  noviciado  da  Cotovia  de  Lisboa ;  e  eu  conjecturo  que  foi  logo  em  março, 
ou  pouco  depois  ^.  Notei  já,  que  a  suspensão  de  pregar  foi  levantada, 
incompletos  ainda  seis  raezes  desde  a  publicação  da  sentença ;  e  que  Vieira 
devia  pregar  a  21  de  junho,  em  occasião  dos  annos  da  rainha  D.  Maria 
Francisca,  e  por  ordem  do  príncipe  regente.  O  sermão  foi  composto,  e 


•  Vejam-se  especialmente  as  citadas  carta?  LI,  LIl,  LV  do  vol.  11. 

í  Sol»e  tanto  tirsengano  do  mundo  estava  e  estou  resoluto  a  o  tratar  como  cite  me 
'  III  Iratatlo,  e  não  apparecer  mais  undi-  me  reja. . .  Eu,  Senhor,  firo  sempre  aos  pés  de 
r.  E.  sem  disnirso,  nemjui:o,  c  lioje  mais  rendido  que  nunca,  pnrquf  linjr  mais  obrigado. 
Vol.  II,  cart.  I.I. 

'  forque  deiiois  do  20  de  fevereiro  não  apparece  correspondência  de  Coimbra 
■•nlre  Vieira  e  o  duque.,  ou  seu  irm.lo,  ou  D.  Rodrigo  de  Menezes. 


anda  estampado;  mas  Vieira,  em  razão  de  enfermidade,  não  o  recitou  do 
púlpito.  Não  sei  se  pregou  ontro  algum  no  decurso  do  dito  anno;  porém 
restam  cinco,  entre  os  impressos,  pregados  até  fim  de  jullio  de  1(369.  A 
6  de  janeiro  pregou  extemporaneamente  na  [iresença  do  princip?  D.  Pedro, 
em  applauso  do  nascimento  da  infanta  D.  Izabel,  succedido  na  luadrugada 
do  mesmo  dia  '.  Pregou  também  na  (juaresma;  e  coroou  os  seiB  trabalhos 
concionatorios  d'cste  anno  em  Portugal  com  o  sermão  de  Sacto  Ignacio 
já  na  egreja  de  Santo  Antão  "K  O  concurso  de  ouvintes  neste  ultimo  foi 
estupendo:  e  de  todos  eiles  recolheu  Vieira  créditos,  que  renovaram  os 
antigos,  e  que  poderiam  apagar  a  nódoa  originada  da  sentença,  n^  conceito 
de  todos  os  que  não  fossem  por  emulação  ou  por  outros  respeitos  seus 
obstinados  inimigos. 

Parece  todavia,  que  este  apiilanso  não  foi  bastante  para  conttntar  de 
todo,  na  matéria  do  credito  próprio,  a  delicadeza  de  Vieira  ^.  E  ou  por 
este  motivo,  ou  por  outros,  tomou  de  accordo  com  os  seus  sócios  \  reso- 
lução de  trocar,  ao  menos  por  algum  tempo,  a  residência  de  Lisbòí  pela 
de  Roma. 

Bem  que  Vieira  tinha  toda  a  razão  de  esperar  muito  da  benevolência 
do  principe  regente,  e  bem  que  este  príncipe,  por  si  e  por  seus  favore- 
cidos, lhe  não  faltou  com  signaes  de  sua  aííeição,  suspeito  que  Vieira  se 
não  deu  por  inteiramente  pago  dos  serviços  feitos  a  seus  pães  e  a  elld, 
mesmo.  Talvez  requeria  Vieira  a  mesma  privaiiça  intima,  que  lograra  coní 
el-rei  I).  João  IV,  e  a  que  o  regente,  seja  por  caracter,  seja  por  politica, 
não  sabia  sujeitar-se:  talvez  desejava  no  seu  negocio,  e  isto  me  parece 
mais  provável,  maiores  demonstrações  em  seu  favor,  e  mais  cabal  satis- 
fação; com  que  o  regente,  ou  por  escrúpulo  ou  pelas  razões  de  estado, 
se  não  resolveu  a  condescender.  Como  quer  que  fosse,  ver-se-ha  que 
Vieira  se  achava  queixoso  da  nova  côrle;  e  que  depois  da  sua  partida  o 
não  esteve  menos,  como  declarou  em  varias  occasiões.  Não  alega  comtudo 
André  de  Barros  mais  razão  da  |)aríida,  que  a  da  conveniência  de  mudar 


1  o  exteiiiporaiuHj  ú  VIII  na  pari.  XII;  os  outros  quatro  são  na  I  pait.,  V,  VI,  IX 
e  XII.  A  cireumstancia  de  virem  na  part.  I.niostra  a  conta,  cm  (pic  os  linha  o  auelor, 
que  nella  coUocou  os  ipie  reputava  melhores. 

2  Yeja-se  André  de  Barros,  1.  III,  §  CLXXXIV  e  seg. 

'  Mostra-se  muilo  delicado  em  matérias  de  credito,  escrevendo  na  carta  Lll, 
vol.  II:  Cnm  que  ressnu  o  escrúpulo  da  rnmdoida,  posto  (pie  não  o  do  credito,  que  rada 
hora  está  mais  vivo  na  minha  immortipcaíjão. 


73 


de  estancia  pelo  respeito  do  desar,  causado  pela  nota  do  santo  officio; 
uem  eu,  na  falta  de  documeulos,  me  atrevo  a  allegar  decisivamente  outra  '. 

A  partida,  qiie  não  podia  ter  logar  sem  consentimento  do  principe,  e 
em  que  de  certo  conveio  o  duípie  de  Cadaval,  prelextouse  com  um  nego- 
cio do  commum  da  companhia  cm  Roma;  que  ou  andava  traçado  d'antes, 
ou  foi  suscitado  por  esta  occasião  e  para  este  eíTeito.  Residia  por  parte  de 
Portugal  em  Roma  João  de  Roxas  de  Azevedo,  que  fora  secretario  do 
principe  emquauto  infante,  e  que  nas  desavenças,  com  que  o  governo 
d"el-rei  D.  Affonso  se  concluiu,  se  houve  com  tanta  fidelidade,  como  lirmeza 
e  intelligencia  *.  A  João  de  Roxas  dirigiu  por  mãos  de  Vieira  o  principe 
regente  carta  datada  de  9  de  agosto  de  1009.  Recommenda-lhe  nesta 
carta,  que  ajude  Vieira  em  tudo  o  que  se  lhe  offerecer  para  os  negócios 
de  sua  religião,  a  que  ia  mandado  por  seus  prelados;  e  que  o  ajude  de 
maneira,  que  se  veja,  na  confiança  com  que  o  tratar  e  conminnicar  (iiial 
é  a  cslimação,  que  elle  princi[)C  regente  faz  de  sua  pessoa  ^.  Sem  endiargo 
de  termos  tão  honrados,  ficou  Vieira  descontente;  do  qiic  se  pôde  inferir 
sem  violência,  (jue  requeria  Vieira,  e  ao  menos  esperava  muito  mais. 

Era  lo  de  ago.<to  de  16(5!)  partiu  António  Vieira  para  Roma,  onde 
chegou  a  21  de  novembro  do  mesmo  anno.  A  viagem  foi  demorada,  por- 
que tomou  Alicante,  e  arribou  com  grande  temporal  a  Marselha;  mas  a 
demora  foi  o  maior  incommodo.  Em  Roma  foi  recebido  pelos  jesuítas  com 
mostras  pouco  ordinárias  de  distincção,  que  o  obrigaram  a  reflectir  com 
dòr  para  as  esquivanças  e  desabrimentos  de  Portugal.  Vieram  esperá-lo  a 
duas  milhas  da  cidade,  e  como  em  tiiumidio  foi  levado  ao  geral,  em  quem 
as  demonstrações  de  alTecto  não  foram  menores.  Ia  encarregado  pelo 
duque  de  Cadaval,  então  viuvo,  de  lhe  prociUMr  casamento  em  llalia; 
intendendo-se  neste  negocio  com  uma  senhora  de  muito  alta  qualidade, 
que  era  do  parentesco  do  dnque,  e  que  acceitou  a  commissão  com  grande 
zelo.  Chegou  Vieira  no  dia  21,  a  22  foi  logo  visitar  a  senhoia,  com  quem 
lhe  cumpria  tratar  este  negocio,  e  no  mesmo  dia  escreveu  ao  duque.  Este 
rasgo  de  gratidão  lhe  faz  certamente  grande  honra.  Não  ia  contente  do 


•  Veja-se  Barros  ibid.,  §  CLXXXIX. 

*  Veja-se  o  Portiit/nl  Rist.  I.  Xlí.  e  Hist.  Cm.,  tom.  VII,  i)ag.  433.  Por  se  escusar 
António  Cavide,  foi  eleito  para  secretario  do  infante  Jo.5o  de  Hoxas,  então  dí^semiiar- 
gador  dos  aggravos,  merecedor  de  todos  as  ijraiides  rmpregnx. 

'  Veja-se  esta  carta  em  Barros  (ibid.,  §  CXC),  (jiie  a  diz  copiada  do  original,  (pie 
linlia  em  seu  puder. 


74 


reino;  mas  nem  o  desgosto,  nem  os  enfados  de  larga  jornada,  nem  os 
alvoroços,  com  que  foi  recebido,  abafaram  o  agradecimento,  de  que  se 
considerava,  e  justamente,  devedor  ao  duque.  A  promptidão  de  o  mostrar 
não  é  a  menor  parte  da  bizarria :  podendo  dizer-se  sem  exaggeração,  que 
os  primeiros  passos,  que  deu  em  Roma,  e  a  primeira  vez,  que  tomou  a 
penna,  foi  em  desempenho  primoroso  da  sagrada  divida  do  reconheci- 
mento *. 

A  D.  Rodrigo  de  Menezes  escreveu  também  com  data  de  27  de  novem- 
bro, e  a  D.  Theodosio,  irmão  do  duque  de  Cadaval,  a  16  do  mez  seguinte: 
sendo  muito  de  reparar,  que  satisfizesse  primeiro  ás  dividas  de  agradeci- 
mento e  de  amizade,  que  às  observaucias  do  respeito  e  a  cortejos,  em  que 
pudera  ir  interessada  a  própria  conveniência  *.  A  carta,  que  escreveu  à 
rainha  da  Grã-Bretanha,  foi  escripta  depois  de  todas  estas;  e  tem  a  data 
de  21  de  dezembro  de  16C9.  Vieira  tinha  intentado  fazer  viagem  por  In- 
glaterra, com  o  fim,  provavelmente,  de  empenhar  em  seu  favor  o  coração 
d'esta  princeza,  cuja  intercessão  lhe  podia  ser  em  Roma  de  grande  pro- 
veito. Mas  como  até  a  derrota  dependeu  do  arbitrio  do  regente  de  Portu- 
gal, recusou  este  o  seu  consentimento  áquelle  ponto  de  fazer  caminho  por 
Inglaterra ;  e  recusou-o,  no  conceito  de  Vieira,  por  isso  mesmo  que  intendia, 
que  o  viajante  desejava  servir-se  da  occasião  para  ir  munido  de  um  pode- 
roso valimento.  A  [)ondera(;ão  ;iniarga  deste  desfavor  do  príncipe  D.  Pedro 
é  a  principal  matéria  da  carta  para  a  rainha  :  e  não  pude  negar  o  leitor 
alguma  compaixão  aos  lamentos,  em  que  com  grande  vehemencia  são  os 
seus  serviços  aos  reis  e  ao  reino  conh-untados  com  tal  e.Ntremo,  como  elle 
o  reputava,  de  sequidão,  usado  por  connivencia  com  interesses  ou  com 
paixões  alheias  ^ 

Por  esta  carta  se  vè,  que  António  Vieira  queria  reparar  em  Roma  as 


'  Tudo  isto  consta  das  cartas  LX  do  vol.  II  e  XXXIl  do  III. 

'  A  carta  a  D.  Rodrigo  de  Menezes  (XXXII  do  vol.  III)  tem  a  data  de  7  de  dezem- 
bro, mas  comparando-a  com  a  do  D.  Theodosio  LXI  do  vol.  II  e  a  outra  a  D.  Rodrigo 
de  Menezes  LIX  do  mesmo  volume,  concluo,  que  a  data  da  XXXII  do  vol.  Ill  deve  ser 
a  que  aponto  acima,  e  que  7  de  dezembro  pertence  antes  á  LIX  do  vol.  II.  Esta  ultima 
c  ccitamente  errada,  pois  c  de  Roma  cm  1665. 

'  E  só  porque  os  N.  N.  N.  não  magiiumem,  qur  S.  .1.  ]iiir  eslr  rodeio  consentia 
no  fim  da  jornada,  me  não  concedeu,  que  passasse  uma  vez  por  amor  de  mm  aquelle 
mesmo  canal  de  Inglaterra,  cm  qnc  sete  rezes  me  ri  perdido  pela  conserrnrão  da  sua 
coroa.  Yol.  II,  cart.  LXII. 


indignidades,  que  havia  padecido  em  Coinilira :  e  que  julgando  que  as  pa- 
decera por  causa  do  mesmo  regente,  e  por  ser  inventor  e  arbitrisla  da 
companhia  do  commercio  do  Brazil,  se  imaginava  com  direito  a  conseguir 
d'elle,  como  infante  D.  Pedro  e  como  governador  do  reino,  o  favor  da  sua 
protecção  real  nas  pretensões,  que  intentava  na  Guria.  Mas  se  elle  padeceu 
as  indignidades  de  Coimhra  por  causa  do  infante,  é  preciso  concluir  que 
procederam  muilo,  como  suspeitamos,  de  impulso  da  antiga  còrle:  e  se  o 
invento  e  arbítrio  da  companhia  do  commercio  foi  outro  principio  do  seu 
trabalho,  é  provável  illação,  que  o  qne  uaquelle  caso  lidou  Vieira  por  con- 
tentar os  christãos  novos,  foi  mal  olhado  pelo  santo  olficio,  e  ijue  o  tribunal, 
processando-o  em  1007,  se  recordou  deste  antigo  aggravo.  Tal  |)arece  ser 
a  opinião  de  Vieira ;  o  qual  tirava  deste  supposto,  qne  o  regente,  levado 
de  sua  politica,  guardava  com  o  sanlo  oílicio  contemplações,  a  que  sujei- 
tava o  que  a  Vieira  era  devido;  e  qne  por  isso  não  só  lhe  recusara  mais 
amplas  e  favoráveis  ordens  para  o  embaixador,  mas  até  chegara  a  lhe  im- 
pedir a  occasião  de  tomar  e  levar  por  escudo  a  efficaz  valia  de  sua  irmã, 
a  rainha  da  Grã-Bretanha  '. 

Não  são  na  caria  de  27  de  novembro  menos  lastimosas  as  queixas 
acerca  do  príncipe  regente,  conimunicadas  a  D.  Rodrigo  de  Menezes;  antes 
o  silencio,  que  affecla  sobre  os  termos  das  reaes  recommendações  ao  em- 
baixador e  protector,  as  torna  ainda  mais  sentidas*.  Eslava  muito  morti- 
ficada a  vaidade  de  Vieira;  o  seu  interesse  lhe  parecia  muito  desprezado: 
e  uma  e  outra  cousa  o  tinham  iasoíTrido,  e  o  arrojaram  ás  declarações, 
escriptas  á  rainha  de  Inglaterra,  de  que  elle  mesmo  conhece  o  pouco  decoro, 
e  ás  outras,  escriptas  a  D.  Rodrigo  de  Menezes,  que  só  na  consummada 
discreção  de  um  provado  amigo  puderam  deixar  de  ser  arriscadas.  A  dôr 
o  fez  esquecer  dos  conselhos  e  máximas  bem  sisudas,  que  ainda  em  22 
de  março  daquelle  anuo  tinha  pregado  no  sermão  dos  pretendentes:  e 
este  delíquio  pasmoso  da  memoria  tenacissima  de  Vieira  provaria  plena- 


>  Não  ha  que  duvidar  de  (jue  os  príncipes  podem  ser,  e  são  algumas  vezes  ingratos 
e  injustos:  mas  também  é  certo,  tpie  tia  casos  em  que  os  necessita  a  razão  de  Estado 
a  acções  ou  omissões,  a  que  o  interesse  e  vaidade  dos  pretendentes  uão  quer  ou  não 
sabe  dar  desconto:  e  uão  .sei  se  era  este  o  caso,  cm  que  a<iui  se  achava  Vieira. 

*  Xos  IcrinoA  das  inrtax^  qw  tvou.xi'  paru  o  cmhíiixdilor  f  iirolcrtur,  não  falto  jida 
rererenciít,  que  devo  á  /iniin  de  sim  allezu,  que  Deus  ijuardc,  e  porque  temo,  que  a  dòr 
de  cliaya  Ião  fremt,  me  obrigue  n  alguma  voz,  de  que  se  ofjenda  o  meu  amor.  Vol.  111, 
c.  XXXII, 


mente,  se  fosse  necessário,  a  incoherencia  entre  as  máximas  e  praticas  do 
homem,  quando  ou  propõe  friamente  como  consellieiro,  ou  tem  de  praticar 
o  que  aconselhou  a  outros  nas  varias  Decorrências  da  sua  mesma  vida. 
Esta  incoherencia  é  na  verdade  ordinária,  e  por  isso  bem  conhecida;  mas 
é  para  notar  niuilo  nos  homens  mais  dislinctos,  porque  parecendo  nelles 
mais  estranha,  leva  com  maior  efficacia  os  observadores  ao  desengano 
próprio,  e  á  cautella  sobre  si,  que  deve  provir  de  tal  desengano. 

Não  se  doía  Vieira  somente  da  protecção  negada  pelo  príncipe  regente 
aos  seus  negócios,  e  até  impedida  por  outros  caminhos,  mas  de  se  lhe  não 
dar  parte  nas  incumbências  da  corte  de  Portugal  em  Roma.  Considerava 
a  confiança  e  aucloridade,  com  que  n  enviara  ei-rei  D.  João  IV,  e  notava 
com  desgosto  a  diíierença  da  sua  condição  actual  *.  Escreveu  ao  príncipe 
regente;  mas  não  o  contentou  mais  a  resposta.  Representou,  rogou  por 
meio  de  D.  Rodrigo  de  Menezes;  e  no  estudado  silencio  deste  fidalgo  teve 
o  desengano  de  nenhuma  efficacia  das  suas  representações.  D.  Rodrigo  de 
Menezes  não  faltava  em  coisa  alguma  com  os  ofíicios,  que  pedia  a  razão 
de  constante  amigo;  porém  não  liie  podendo  tornar  resposta,  que  o  satis- 
fizesse, resolveu  declarar-se  por  silencio,  de  que  a  penetração  de  Vieira 
alcançou  logo  o  sentido.  Outras  vezes  o  assegurava  nmilo  positivamente 
D.  Rodrigo  da  graça  e  estimação  de  S.  Alteza:  faltando  com  tudo  corres- 
pondência entre  os  aff^ectos  inculcados  e  os  favores  elfectivos,  que  Vieira 
pedia,  olhava  para  protestos  meramente  verbaes,  como  para  ca[)ciosa  lin- 
guagem, com  que  as  cortes  usam  dissimular  o  desfavor,  illudindo  as  espe- 
ranças dos  pretendentes  '^. 

Adoçava  Itália  estes  dissabores  de  António  Vieira,  não  só  pela  contem- 
plação das  pessoas  mais  grave.',  da  companhia  e  de  fora,  mas  lambem  pela 
dos  príncipes  em  Roma  e  nos  outros  Estados.  O  príncipe  herdeiro  do 
grão-ducado  da  Toscana,  que  conhecera  em  Ilollanda  e  tratara  em  Lisboa, 
achava-se  em  Marselha,  quando  alli  arribou  Vieira.  Não  faltou  este  em  ir 
cumprimentar  o  príncipe,  e  entre  ambos  se  enlaçou  por  esta  occasião  cor- 
respondência, que  o  príncipe  cultivou  depois  com  assiduidade,  escrevendo- 


'  Veja-se  a  mesma  carta. 

2  Isto  tudo  se  extrahiu  das  cartas,  esi'iii)tas  em  1670.  se.  no  vol.  I,  82-84,  no  II, 
63-68j  no  III,  '37--ií3.  Do  animo  de  S.  A.,  que  K.  S.  ttinto  me  assegwn,  nunca  duvidei. . . 
S.  A.  resolveu  melhor,  do  que  eu  soube  ■pedir;  porque  se  o  que  peco  ê  justo,  ficará  mais 
justificado  sem  a  protecção  do  seu  real  favor:  e  se  o  não  é,  fica  menos  arriscada  a  in- 
terposição da  sua  auctoridade.  C.  XXXV  do  vol.  III.  Compare-se  a  c.  LXX  do  vol.  II. 


77 


lhe  de  sua  mão  em  quasi  lodos  os  correios.  O  regeule  de  Portugal  linlia 
uma  filha  nascida  de  pouco;  olhava-se  já,  uão  sei  por  que  razão,  como 
princeza  herdeira,  e  se  ao  príncipe  da  Toscana  parecia  bem  entrar  a  sua 
casa  por  este  moio  na  posse  da  coroa  d'este  reino,  Vieira  do  seu  lado  jul- 
gava, que  se  o  porlo  de  Lisboa  se  ajuntasse  e  unisse  com  o  de  Leorne,  seria 
o  nwllior  casaincnlo  do  mar  e  da  lerra  K  Pondo  agora  de  parle  o  jaizo  sobre 
esta  opiuião,  é  certo  que  o  desejo  de  tão  vantajosa  alliança  obrigou  o 
priucipe  de  Toscana,  em  principe  e  depois  de  grão-duqiie,  a  tratar  Vieira 
com  attcnções  particulares,  como  suppondo,  que  se  poderá  concluir  por 
sua  via  a  desejada  união:  e  Vieira  voltando  a  Portugal,  com  effeito  des- 
empenhou a  esperança  do  grão-duquo,  quanto  a  propor  nos  melhores 
termos  a  sua  pretensão;  porém  a  vontade  da  rainha  D.  Maria  Francisca, 
que  tinha  grande  pre[)onderancia,  pendia  para  Sabóia:  e  por  fim  o  tempo 
trouxe  acontecimentos,  com  que  todos  estes  projectos  se  desvaneceram; 
porque  nem  a  união  com  Sabóia  se  realisou,  nem  a  princeza  chegou  a  ser 
herdeira,  havendo  em  segundas  núpcias  o  principe  D.  Pedro  posteridade 
masculina,  que  segurou  a  successão  em  príncipes  naturaes,  por  eulão  com 
grande  firmeza  -. 

As  altençijes,  que  experimentou  em  Roma,  na  maior  parte  procederam 
do  conhecimento,  ou  da  noticia  dos  seus  talentos  raros,  e  em  especial  do 
credito  grangeado  no  ministério  do  púlpito.  A  fama,  que  o  tinha  precedido, 
publicava  o  agigantado  conceito,  que  por  esta  via  adijuirira  em  Purtugal: 
e  os  portugueses,  que  alli  viviam,  deram-se  pressa  a  [iroporcionar  occasião, 
em  que  satisfizessem  a  própria  curiosidade,  e  acreditassem  o  engenho  dos 
seus  compatriotas.  Vieira  não  houve  mister  muito  rogado.  Pregou  aos 
portugueses  de  Roma  com  o  mesmo  successo  que  aos  de  Lisboa ;  e  ainda 
melhor  merecido.  Ccmo  os  vicios  oratórios,  taxados  nos  seus  sermões,  não 
eram  tanto  seus,  como  alheios,  dominavam  mais  ou  menos,  segundo  o 
gosto  dos  ouvintes.  D'aqui  nascia,  reputo  eu,  que  em  geral  os  sermões, 
que  pregou  em  Roma,  se  não  eram  de  todo  isentos,  eram  sempre  mais 
depurados  do  que  os  outros '.  Os  louvores  da  nação  portugueza,  que  soavam 


'  Veja-se  Barros,  I.  IV,  §§  V-VII.  Mas  tirou-o,  e  alguma  vez  por  formaes  palavras, 
da  relarjão  oITerccida  por  Vieira  ao  priucipe  D.  l^edro,  que  vem  no  vol.  Ill  depois  da 
c.  XLV,  escripla  ao  grão-dut|ue,  e  da  resposta  do  ultimo. 

*  Veja-se  a  relação  citada  na  nota  antecedente. 

'  O  sermão  de  S.  Bartholomeu,  I2.°  do  vol.  II,  o  da  Paz  em  geral,  7."  do  vol.  VII, 
o  10."  do  vol.  VII.  são  muito  estimáveis,  ao  menos  em  graúdo  parte. 


78 


mellior  na  terra  estranha,  e  a  que  Vieira  nas  occasiões  não  sabia  faltar, 
ainda  lhes  accrescentavam  a  formosura  no  parecer  do  auditório.  Accendeu-se 
neste  o  entliusiasmo,  doljrou  os  concursos,  rompeu  em  appiausos,  cujo 
estrondo  chegou  aos  ouvidos  dos  italianos,  e  os  moveu  a  vivo  desejo  de 
escutarem  tão  appiaudido  orador. 

No  volume  duodécimo  dos  sermões  estampados  é  um  d"elles  o  sermão 
de  santo  António,  que  alli  se  diz  segunda  parte  de  outro  pregado  também 
em  Roma  em  IC70.  E  se  o  de  1070  confirma  plenamente  o  que  disse  dos 
louvores  de  Portugal,  com  que  Vieira  augmentava  o  preço  dos  sermões, 
pregados  aos  naturaes,  o  do  volume  duodécimo  o  desmente  em  egual  ou 
maior  grau.  É  na  verdade  uma  invectiva  virulenta  contra  a  nação,  um 
sarcasmo  continuado;  em  que  o  rancor  nem  dá  logar  ás  facécias,  para  que 
Vieira  tinha  talento  decidido.  Quem  o  lè  com  antecedente  conhecimento  da 
vida  de  Vieira,  não  pôde  deixar  de  concluir,  que  alli  se  propoz  tomar  in- 
teiro desaggravo  das  indignidades  de  Coimbra,  das  perseguições  dos  emulos 
de  Lisboa,  das  tibiezas  ou  indilferenças  da  sua  corte.  Elle  mesmo  diz  logo 
no  principio:  Hoje  faz  um  anno  preguei  aos  poiíngtiêses  as  luzes  da  sua 
dação;  agora  lhes  descobrirei  a  elles  e  a  lodos  as  sombras  d' essas  mesmas 
luzes.  Porém  este  sermão  não  chegou  a  ser  pregado;  e  ainda  que  doença 
se  diz  ser  a  causa,  por  que  o  não  foi,  eu  me  inclino  mais  a  suppôr  politica, 
ou  antes  arrependimenio.  O  auclor  tinha  sem  duvida  a  respeito  da  sua  pátria 
os  affectos  de  um  amante ;  e  as  maiores  estranhezas,  em  que  pôde  romper 
um  amante,  ou  de  maltratado  ou  de  zeloso,  em  vez  de  chegarem  a  ser 
aggravos,  ficam  em  argumentos  da  intensidade  da  sua  paixão*. 

Desejavam  vivamente  os  italianos  ouvir,  como  iamos  dizendo,  orador 
tão  admirado.  Mas  oppunha  um  grande  obstáculo  a  differença  das  duas 
linguas.  Não  ignorava  Vieira,  que  a  perfeição,  com  que  elle  se  declarava 
na  própria,  lhe  lucrava  grande  parte  dos  appiausos;  nem  podia  desco- 
nhecer, que  por  mais  senhor  que  estivesse  do  idioma  italiano,  pareceria 
sempre  baibaro  á  delicadeza  dos  ouvidos  romanos.  Quando  a  memoria, 
certamente  muito  piompta  e  Del,   lhe  facilitasse  a  cópia,  propriedade  e 


'  O  que  pregou  em  1670  é  o  S."  no  vol.  II:  o  que  devia  pregar  em  1671  é  o  11." 
no  vol.  XII.  Com  eITeito  a  bilis  lhe  afogou  a  facécia:  o  num.  318  é  que  me  parece 
menos  mal  humorado  e  mais  engenhoso.  Da  c.  XCIV  do  vol.  I,  se  infere  bem,  (jue  não 
foi  doença  a  causa  de  se  não  pregar  este  sermão.  —  No  que  respeita  à  sua  paixão  por 
Portugal,  veja-se  a  c.  XXXVI  do  vol.  III,  onde  allega  com  o  sermão  de  santo  António, 
pregado  em  1670. 


79 


viveza,  por  que  tanlo  se  distinguia  na  sua  liugua,  conao  poderia  pouco  uso 
e  em  anãos  crescidos,  dar-ilic  naturalidade  e  graça  de  pronuncia  na  es- 
tranha '?  Tentar  pois  similhante  euipreza,  seria  o  mesmo  que  com  menos 
meios  c  maiores  impedimentos  accommetter  conilicto,  em  que  iiie  ia  mais 
empenliada  a  lioura.  Temeridade  clianiava  eile,  e  justamente,  á  lembrança 
de  aílrontar  tamanho  risco;  e  temeridade  a  que,  pelo  muito  que  tinha  de 
arrogância,  caberia  maior  e  mais  bem  empregada  confusão.  Ingenuamente 
aliegou  estas  valentes  escusas  contra  varias  tentativas,  com  que  o  provo- 
caram os  curiosos.  Porém  nem  por  isso  desistiram ;  e  valendo-se  de  todos 
os  meios,  o  geral  da  sociedade  o  determinou  Gnalmente,  por  obediência, 
a  expôr-se,  segundo  os  termos,  com  que  Vieira  se  recusava,  a  desiionrur-se 
a  si  próprio,  e  a  deshourar  a  companhia  -. 

Não  eram  os  jesuitas  tão  desprezadores  da  honra  da  companhia,  que 
se  resolvessem  a  aventural-a  a  risco,  ainda  meramente  provável:  ao  con- 
trario, a  houra  de  toda  a  sociedade  era  o  seu  dominante  afifecto  e  propó- 
sito continuo;  donde  nasciam  aquella  harmonia  admirável  em  concorrer  ao 
mesmo  fim,  e  concórdia  não  menos  admirável  entre  os  particulares,  de 
que  o  todo  era  composto.  Quando  neste  ponto  tivessem,  do  que  não  sei 
que  haja  suíliciente  argumento,  algum  descuido,  não  seria  em  Roma  e 
perante  as  maiores  pessoas  d'ella,  e  acerca  de  sujeito,  que  deseja\am 
mostrar  benemérito  das  graças  assignaladas  do  soberano  Pontífice  ^  Por 
outro  lado,  na  casa  dos  jesuitas,  em  que  vivia  Vieira,  não  podiam  faltar 
homens  intendidos,  que  avaliassem  ao  justo  o  perigo,  comparando  as  difli- 
culdades  cora  a  capacidade  do  seu  sócio.  O  geral  João  Paulo  Oliva  era 
particularmente  uui  homem  douto  para  o  seu  tempo,  avisado  e  havido  pelo 
melhor  pregador,  que  tinha  então  Itália;  e  por  todas  estas  razões  se  deve 


•  Se  y.  E.  ouvir  dizer,  que  o  padre  Vieira  préyou  cm  Roma  em  língua  italiana,  não 
condemne  V.  E.  u  temeridnde,  porque  elte  a  teve  por  tal.  C.  CXVIII,  vol.  I.  E  sem  em- 
bargo dos  defeitos  de  pronuncia,  de  que  nelle  me  desculpo,  ele.  C.  LXXIII,  do  vol.  II. 

*  Resistiu  sempre,  não  só  aos  empenhos  de  grandes  senhores  desta  corte,  mas  ao  de- 
sejo e  instancias  do  seu  geral,  o  qual  por  ultima  resolução,  lhe  poz  obediência  para  que 
pregasse,  respondendo  a  todas  as  suas  objecções :  que  lhe  mandava,  que  se  deshonrasse  a 
si,  o  deshonrasse  a  elle,  e  deshonrasse  a  companhia:  e  assim  o  fiz.  C.  CXVIII  do  vol.  I,  e 
O  mesmo  na  c  LXXIll  do  vol.  II. 

'  Eu  suspeito  que  Vieira  se  propunha  obter  do  papa  revogação  da  sentença  de 
Coimbra,  e  ucsla  pretensão  ia  interessada  ceitamente  toda  a  sociedade.  E  quando 
esta  suspeita  não  tenha  logar,  sempre  é  fora  de  duvida,  que  desejava  do  Papa  algum 
distim-to  favor  em  tal  matéria. 


80 


repnlar  juiz  competente  naquelle  caso.  Era  alfeiçoado  a  Vieira;  mas  nem 
é  de  suppôr,  que  o  ciiegasse  a  cegar  a  afleição  de  lodo,  nem  é  de  suppôr, 
que  enganosamente  o  preoccupasse  acerca  do  merecimento  de  Vieira  uma 
afifeição,  que  no  dito  merecimento  tiniia  inteii'amonte  origem.  Vieira  não 
parecia  jjenemerito  a  Oliva,  porque  este  se  llie  inclinava;  inclinava-se-lhe 
muito  Oliva,  porque  o  reputava  egualmente  benemérito. 

Estas  considerações  tiram  toda  a  duvida  sobre  o  conceito,  que  na  com- 
panhia de  Roma  tinlia  Vieira,  e  também  a  tirariam,  se  fosse  necessário, 
sobre  os  extraordinários  talentos  de  Vieira,  que  determinavam  juizes  tão 
competentes  e  tão  precatados  a  expòl-o  a  uma  prova,  que  em  quaesquer 
outras  circumstancias  seria  muito  temerária.  Sahiu  da  prova,  como  os  seus 
sócios  tinham  esperado.  O  primeiro  sermão  em  italiano  foi  o  das  chagas  de 
S.  Francisco,  ouvido  com  tanta  satisfação,  que  a  instancias  de  cardeaes  o 
encarregou  logo  Oliva  de  outros  dois  na  mesma  lingua  *.  E  se  Oliva  no  pri- 
meiro caso  se  tinha  aventurado  um  pouco,  porque  bom  juizo  depende  de 
perfeito  conhecimento,  e  perfeito  conhecimento  só  o  costuma  dar  judiciosa 
experiência,  não  foi  assim  no  caso  segundo.  Presenciara  as  approvações  do 
auditório,  e  ouvira  o  sermão,  que  as  tinha  merecido.  Os  defeitos  de  pro- 
nuncia eram  infalliveis,  os  de  linguagem  são  muito  para  suspeitar.  Dos 
primeiros  attesta  o  mesmo  Vieira,  e  a  sua  atteslação  não  era  necessária ; 
dos  outros  [lòde  lãzer-se  juizo  pelo  que  elle  diz  em  alguma  parte,  que 
estudava  então,  e  ainda  depois,  os  rudimentos  da  lingua  italiana  ^.  Com 
tudo  é  forçoso  concluir,  que  elles  não  foram  tão  enormes,  que  chegassem 
a  desfigurar  toi'pemenle  a  substancia,  e  que  a  substancia  tinha  tal  preço 
no  juizo  do  auditório,  que  lli'o  não  tirava  a  impropriedade  dos  accidentes. 
O  juizo  d'aquelle  auditório  não  é  agora  o  nosso;  mas  era  de  esperar  que 
fosse  o  do  seu  tempo,  e  não  o  d'este ;  e  na  felicidade  rara  do  engenho  de 
Vieira  somos  nós  sempre  obrigados  a  convir  com  aqiiellcs  romanos. 

Pregou  os  dois  sermíjes,  de  que  depois  do  das  chagas  de  S.  Francisco 


í  Foi  tão  bem  recebido  dos  cardeaes  e  grandes  d'esta  corte,  que  o  mesmo  padre  geral 
me  tem  avisado  para  pregar  em  dois  congressos,  em  que  assiste  jiinlo  todo  o  sacro  col- 
legio,  a  instancias  das  mesmas  eminências.  C.  LXXIII  do  vol.  II. 

*  Sei  a  lingua  do  Maranhão  e  a  portuguesa,  e  é  grande  desgraça,  que  podendo  servir 
com  qualquer  d'ellas  á  minha  pátria  e  ao  meu  principe,  haja  nesta  edade  de  estudar  uma 
lingua  estrangeirq,  para  servir,  e  sem  fructo,  a  gostos  também  estrangeiros.  Ibid.  Esta 
earta  é  datada  do  outubro  de  1682,  e  em  alguma  de  data  posterior  falia,  se  bem  me 
lembro,  de  estudar'  rudimentos  de  italiano. 


o  encarregou  Oliva,  e  pregou  alguns  mais,  lambem  em  italiano;  e  todos 
com  assistência  de  uniilos  cardeaes  e  outras  pessoas  notáveis,  com  grande 
coucin-so  do  povo  e  com  o  a|iplauso,  que  é  de  siii)pòr  do  empenlio,  com 
que  continuavam  a  ouvil-o  *.  Aquellas  agudezas,  aquellas  empresas  ines- 
peradas, ai]uelias  provas  claras  e  ao  parecer  convincentes  das  affirmativas 
mais  singulares,  aquelles  textos  obrigados  com  tão  destra  verosimilhança 
a  servir  ás  singularidades  do  orador,  eram  as  delicias  do  século,  e  attes- 
tavam  na  verdade  pouco  vulgar  engenho.  Itália  linha  o  gosto  ura  pouco 
menos  corrupto,  mas  sempre  corrupto;  e  não  ha  duvida  que  delia  se  de- 
rivou para  os  outros  paizes,  onde  porém  fez  maior  progresso,  a  degene- 
ração da  eloquência  e  [)oesia.  A  circumstancia  de  Vieira  pregar  em  italiano 
com  tão  pouco  tempo  de  residir  em  Itália  e  em  edade  tão  imprópria  para 
bem  tomar  uma  lingua  estranha,  augmenlava  a  admiração  em  um  século, 
em  que  a  victoria  das  dillicuklades  era  a  única,  ou  quasi  a  única  medida 
do  talento.  Pei'doavam-se-lhe  os  erros  de  linguagem,  os  defeitos  de  pro- 
nuncia ;  ou  antes  se  lhe  levavam  em  conta,  como  testimunhos  da  difficul- 
dade  vencida.  Erafim  os  elogios,  que  Vieira  graiigeou,  pregando  em  lingua 
alheia,  não  parecem  menores,  que  os  que  grangeava  pregando  na  própria: 
coisa  pasmosa  para  quem  hoje  julga,  como  nós  julgamos,  que  consistia  na 
formosura  da  lingua  portuguesa  o  principal  merecimento  dos  seus  sermões. 
Entre  os  ouvintes  de  António  Vieira  em  Itália  não  deve,  nem  pôde 
esquecer  a  celehie  rainha  da  Suécia.  Vivia  em  Roma  por  aquelle  tempo 
Chrislina  Alexandra,  lilha  do  grande  Gustavo,  quasi  tão  famosa  pela  sin- 
gularidade de  sua  vida  e  denodo  de  suas  resoluções,  como  seu  pai  por 
iliustrcs  victorias.  Esta  senhora,  depois  de  tomar  posse  da  coroa,  que  lhe 
coube  por  herança,  delerminon-se  a  largal-a;  preferindo  ao  seu  esplendor 
o  descanço  de  uma  vida  particular  e  as  doçuras  da  liberdade,  que  mal  se 
podem  lograr  de  companhia  com  o  apparaloso  captiveiro  da  realeza.  Tem 
sido  variamente  estimada  uma  acção  tão  extraordinária.  Os  seus  affeiçoados 
levam  às  nuvens  o  discreto  desengano,  o  acerto  raro,  o  animo  varonil,  e  mais 
que  varonil,  da  sua  determinação;  referindo-a  a  perfeito  conhecimento  da 
vaidade,  ou  da  falsidade  das  grandezas,  e  a  um  espirito  não  menos  va- 
lente, que  penetrante,  que  assim  sabia  executar,  como  compreheuder  o 
preço  de  insignes  acções.  Os  poucos  affectos  ou  os  praguerdos  imaginam-lhe 
motivos  menos  nobres,  taxam  a  abdicação  de  extravagância,  attribuem-lhe 


*  Falia  dos  grandes  concursos  André  de  Barros,  1.  IV,  §  XXXIV. 


82 


arrependimento,  que  a  ser  verdadeiro,  provaria  pouco  airosa  inconstância, 
e  deslustraria  a  gentileza,  que  a  todos  á  primeira  vista  representa  o  des- 
prezo de  ura  throno;  e  onde  os  apaixonados  louvam  a  sabedoria  e  flrmeza 
de  uma  heroina,  elles  não  achara  mais  que  desacerto  e  leviandade  de  uma 
dona  caprichosa  *. 

Ao  desprezo  do  throno  ajuntou  a  i-aiiiha  Christina  mudança  de  religião, 
trocando  pelo  catholicismo  a  crenga,  em  que  tinha  sido  educada.  E  já  se 
vê,  que  este  passo  importantíssimo  devia  ler  admiradores  e  pregoeiros,  e 
também  ardentes  detractores.  Para  os  catliolicos,  que  perspicácia  em  re- 
conhecer a  verdade  por  entre  as  sombras  da  preoccupação !  que  valor  em 
romper  cadeias,  que  enleavam  o  intendimento,  ainda  antes  d'elle  ter  usol 
que  sacrifício  generoso  de  hábitos,  commodos,  opinião  em  larga  parte  da 
Europa  à  pureza  da  fé  e  integiidade  da  moral  da  igreja  romana  1  Para  os 
sectários  de  Suécia,  que  cegueira  em  deixar  Jerusalém  por  Babylonia!  que 
fraqueza  em  ceder  aos  paralogismos  da  superstição !  que  irreverência  dos 
estatutos  dos  Maiores,  e  desacato  contra  a  religião  e  piedade  da  própria 
igreja!  As  causas  de  ambas  as  resoluções,  as  obras  da  vida  posterior  deviam 
ser  pela  mesma  razão  assignadas  e  referidas  cora  egual  variedade,  e  antes 
contrariedade;  e  com  eífeito,  sublime  sabedoria  cora  loucura  imprudente, 
graves  e  pios  procedimentos  com  leviandades  e  nódoas  na  decência  do  sexo 
e  no  decoro  da  jerarquia,  correspondem-se  exactamente  no  modo  de  avaliar 
e  de  contar  dos  dois  partidos.  E  Christina  ó  uma  das  personagens  de  fama 
mais  duvidosa,  que  apparece  na  historia  moderna ;  e  precisamente  está  a 
origem  da  duvida  em  duas  resoluções,  que  se  a  prudência  as  dictasse,  e 
as  confirmasse  constância  e  coherencia,  a  tornariam  digna  do  maior  res- 
peito e  mesmo  admiração  da  posteridade  ^. 

A  primeira  coisa,  que  lembra  neste  conflicto  de  opiniões  ao  observador 
agora  frio  pelo  tempo  e  desinteresse,  é  rejeitar  todas  ellas.  Mas  onde  fun- 
dará juizo?  Parece  pois  mais  acertado  conl'ronlal-as,  rebalèl-as  umas  com 
outras,  e  tirar  o  resultado  provável;  que  se  bem  descontentaria  egualmente 
ambos  os  partidos,  será  o  mais  chegado  á  verdade,  e  o  menos  desappro- 


1  A  paixão  não  sabe  pintar,  senão  ou  anjos  de  luz,  ou  anjos  de  trevas:  notar 
manclias  na  fonnosiu'a,  ou  relevar  na  fealdade  alguma  feição  mais  feliz,  só  pertence 
á  imparcialidade. 

*  O  amor  do  poder  subjugado,  as  preoccupações  sacrificadas  á  verdade  sã,  na 
ordem  moral,  os  dois  tropheus  mais  honrados  do  homem;  e  na  verdade  não  são  menos 
raros,  do  que  honrados  nas  circumstaucias,  que  se  representam  no  texto. 


83 


vado  pelús  judiciosos.  Não  pode  negar-se  que  a  rainha  de  Suécia  se  não 
deixou  deslumbrar  com  o  briilio  de  uma  coroa,  e  que  é  coisa  rara  este 
desprezo  do  throno,  de  que,  ainda  p(?r  extravagância,  se  não  apontara 
muitos  exemplos.  Que  os  inconvenientes,  que  se  lho  seguiram,  lhe  cau- 
sassem arrependimento,,  não  sò  o  tenho  por  possivel,  mas  até  por  muito 
provável :  porém  se  este  arrependimento  pôde  desfazer  na  primeira  reso- 
lução, não  é  com  tudo  muito  estranho,  porque  é  próprio  e  quasi  necessário 
á  fraqueza  humana,  parecer-lhe  a  condição  presente  sempre  inferior  á  que 
tem  passado,  ou  á  que  imagina  de  futuro.  Na  sua  mudança  para  o  catho- 
licismo  julgo  que  não  houve  falta  de  exame  e  de  attenção  às  razões  por 
uma  e  outra  parte ;  e  ainda  quando  houvesse  erro,  sujeitar,  feitas  as  pru- 
dentes diligencias,  hábitos  e  preoccupações  ao  que  se  tem  por  verdade,  é 
sempre  louvável  e  nunca  muito  vulgar.  Fraquezas  do  sexo  ou  da  humani- 
dade são  incoherentes  com  a  sincera  profissão  do  evangelho,  qual  é  a  da 
igreja  romana;  mas  nada  tem  com  a  discreção  de  a  preferir:  e  se  houvés- 
semos de  leprovar  quem  se  mostra  incoherente  entre  a  profissão  e  a  prá- 
tica, quem  approvariamos  ou  na  igreja  romana,  ou  nas  seitas,  que  a  dei- 
xaram? Intendo  pois  que  se  Chrislina  abdicasse  sem  arrependimento,  e 
se  convertesse  sem  posterior  incohereucia  de  suas  obras  com  a  moral  pro- 
fessada, seria  mulher  uiiica;  e  que  mesmo,  com  certo  arrependimento  da 
abdicação  e  certa  incohereucia  de  obras,  poucos  têm  sido  os  morlaes,  que 
lhe  sejam  similhanles. 

Os  gahos,  que  recebia  Vieira  pelas  suas  pregações  era  itahano,  che- 
garam ao  conhecimento  d'esta  princeza,  que  desejou  logo  julgar  por  si 
mesma.  Receava-se  Vieira  muito  do  juizo  de  uma  personagem,  cujo  extra- 
ordinário e  sublime  génio,  diz  elle,  se  satisfaz  mal,  ainda  do  que  não  é  ordi- 
nário. Porém  a  ordem  dos  seus  prelados  venceu  a  repugnância;  e  em 
carta  para  o  marquez  de,  Gouveia  lhe  communica,  que  por  15  ou  18  de 
março  de  1073  devia  pregar  á  rainha  da  Suécia*.  Cuido  que  este  sermão 
loi  o  primeiro;  e  certamente  que  nada  tem  com  os  cinco  discursos  intitu- 
lados: As  cinco  pedras  de  David,  pregados  em  1674.  Nas  terças  feiras  da 
quaresma  do  dito  anno  os  pregou  elle  na  igreja  de  S.  Salvador  in  Lauro; 
Ilide  no  coro  assistiam  a  S.  Magestade  muitos  dos  senhores  cardeaes,  e  na 
/reja  o  mais  illustre  e  escolhido  d'aquelle  thealro  do  mundo.  Da  approvação 
falia  Vieira  em  termos  modestos;  porém  transluz  pelo  véo  da  modéstia  a 


Veja-se  a  carta  CXXX  do  vol,  I, 


84 


satisfação  própria,  envolvida  era  agradecida  admiração  da  pacimcia  e  huma- 
nidade grande,  com  que  faltando  cm  língua  estrangeira  e  mal  limada,  foram 
perdoados  os  seus  erros,  e  ouvidos  seus  discursos,  mais  largos  do  que  os  per- 
millia  o  costume  ^ 

Do  gosto  da  mesma  rainha  para  as  discussões  engenhosas  procedeu 
também  o  papel  intitulado:  Lagrimas  de  Heraclito.  Entre  os  divertimentos, 
não  indignos  na  verdade  de  uma  princeza,  (jue  havia  no  palácio  romano 
de  Christina,  era  um  d"elles  a  cultura  da  philosopíiia  e  das  lettras  em  socie- 
dade ou  academia,  que  se  compunha  de  cardeaes  e  outras  pessoas  de  avan- 
tajado talento  e  de  conhecidas  luzes.  Succedeu  propôr-se  nesta  academia 
o  problema :  Se  linha  mais  ou  menos  razão  llradito  para  chorar,  do  que 
Demócrito  para  se  rir  d'este  mundo.  Foram  escolhidos  para  coiileiídores  dos 
dois  lados  Jeronymo  Galaneo  e  António  Vieira,  um  e  oulro  jesuitas.  Cedeu 
Vieira  ao  seu  concorrente  o  arbitrio  da  escolha,  e  Cataneo  deixou-ihe  por 
assumpto  as  lagrimas  de  Heraclito.  A  defesa  deste  assumpto  é  que  se 
contém  no  papel,  de  que  falíamos.  André  de  Barros  o  tem  por  muito  su- 
perior á  defesa  de  Demócrito.  Não  podemos  nós  fazer  comparação,  porque 
não  possuímos  ambas  as  obras;  mas  se  naquelle  tempo  a  de  Vieira  me- 
receu applausos,  hoje  teria,  se  o  auctor  a  compozesse  hoje,  fortuna  muito 
contraria.  Neste  escripto  apparece  sempre  alguma  faisca,  que  não  desdiz 
do  seu  engenho;  mas  parece-me  ao  todo  papel  de  pouco  preçu,  ainda  dados 
os  descontos,  que  são  devidos  áquella  edade  e  á  occasião;  e  se  faço  menção 
d'elle,  é  tão  somente  por  sor  pontual,  e  por  dar  a  vér  a  imparcial  dili- 
gencia, com  que  procedo  nesta  relação  '^. 

Quiz  a  rainha  em  attenção  aos  talentos,  que  lhe  reconlieceu  para  a 
oratória  christã,  nomeal-o  seu  pregador;  porém  Vieira  declinou  o  titulo, 
sem  se  negar  ao  occasional  exercício.  O  motivo,  por  que  declinou  o  titulo, 
parece  ser  o  reparo  politico,  que  temeu  da  corte  de  Lisboa.  Poderá,  ao 
menos,  pedir  espaço  e  usar  com  a  sua  corte  a  contemplação  de  a  fazer 
sabedora,  e  de  se  sujeitar  em  tal  matéria  ao  seu  arbitrio;  mas  ou  porque 
julgou  que  isto  mesmo  seria  reparavel,  ou  porque  quiz  andar  ainda  mais 


"T- -i-'  As  cinco  pedras  de.  David,  traduzulas  pelo  mesmo  auctor  em  castelliano,  o  foram 
também  em  português  pelo  conde  da  Ericeira  D.  Francisco  Xavier  do  Menezes;  e  esta 
traducção  portuguesa  vem  no  tom.  XIV  dos  sermões  cora  uma  prévia  iutroducção,  que 
é  a  mesma  que  o  auctor  poz  em  frente  da  versão  castelliana. 

*  Este  papel,  vertido  em  português  pelo  mesmo  conde  da  Ericeira,  vem  no  dito 
tom.  XIV,  e  é  precedido  de  uma  noticia  histórica,  composta  pelo  traductor. 


85 


fino  cora  o  seu  príncipe ;  é  cerlo  que  nem  tratou  de  fazer  uso  d'este  meio. 
A  leraerid;u1o  ooni  luJo  oii  a  emulação,  disto  mesmo  lhe  fez  culpa ;  e  foi 
murmurailo  em  Lisí)i)a  de  acceitar  lilulo  em  serviço  de  principe  estran- 
geiro, faitaiiilo  ás  attcnções  com  o  próprio.  A  culpa  não  foi  muito  formal, 
e  até  não  posso  allirinar  se  foi  levada  á  presença  do  regente :  mas  Vieira 
sempre  iiiteudcu,  que  era  necessário  defender-se  a  um  dos  seus  corres- 
pondentes, iuteressaiido-o  para  que  as  suas  desculpas  fossem  divulgadas; 
com  o  intento,  que  da  cai'ta  é  manifesto,  ou  de  antecipar  ou  de  remediar 
algum  desgosto,  que  podesso  nascer  da  calumniosa  imputação*. 

Os  sermões  á  rainha  da  Suécia,  e  muitos  outros  em  italiano  e  em  por- 
tuguês, foram  compostos  e  pronunciados  por  Vieira  entre  moléstias  graves 
e  mnito  repetidas.  Amargamente  se  queixava '  elle,  quando  residia  em 
Coimbra,  do  pouco  favor,  ou  da  muita  injuria,  que  recebia  do  clima 
d'aqiiella  cidade;  mas  não  se  queixava  depois  menos  do  de  Roma,  que 
certamente  o  não  tratou  melhor.  Passou  em  cama  a  maior  parte  do  tempo, 
e  viveu  sempre  á  discreção  dos  médicos  e  em  uso  de  remédios.  Aos  effeilos 
do  clima  accresceu  um  temeroso  desastre,  que  lhe  podéra  ser  fatal.  Descia 
de  noite  uma  escada  de  pedra ;  e  ou  por  descuido,  ou  por  embaraço,  caiu 
por  ella  de  rosto,  com  lodo  o  peso  do  corpo  e  dos  aíinos.  Ficou  ferido  na 
cabeça  e  maltratado  de  uma  perna  por  tal  modo,  que  em  braços  foi  reco- 
lhido ao  seu  aposento,  donde  não  sahiu,  senão  ajndando-se  de  muletas, 
passados  dezesete  dias.  Sem  embargo  de  trabalho,  doenças,  desastres, 
ainda  entretinha  correspondências  epistolares,  tratava  negócios  e  visitava 
as  antiguidades  romanas,  que  sabia  apreciar  e  preferir  *.  E  verdadeira- 
mente é  magua,  que  a  sorte  de  visitar  os  monumentos  antigos  de  Roma 
lhe  não  coubesse  em  melhores  disposições  do  seu  século  e  suas :  nas  quaes 
podéra  tão  privilegiado  intendimento  e  memoria  accumular  amena  eru- 
dição, enriquecer-se  de  solida  philosophia,  e  imbuir-se  de  puro  gosto,  que 
aquelles  insignes  monumentos  recordam,  e  de  que  a  seu  modo  ainda  hoje 
dão  liçijes. 

Procurou  por  conselho  dos  médicos  o  beneficio  dos  ares  de  Albano, 


>  Folgarei  que  lá  se  saiba,  que  posto  quf  fiz  todas  as  prégarõcs,  não  arceitei  o  titulo, 
nem  provisão,  etc.  Vol.  1,  c.  CXL  ao  marquez  de  Gouveia,  lâ  de  abril  de  1674. 

N.  B.  No  memorial  ao  principe  D.  Pedio  diz  que  tem  noticia  de  que  S.  A.  não 
ouvira  com  muito  agrado  liavel-o  feito  a  rainha  da  Suécia  seu  pregador. 

*  Mais  ijoslo  de  vér  cm  Roma  as  ruinas  e  desenganos  do  que  foi,  que  a  vaidade  e 
variedade  do  que  é.  G.  LXXXV,  vol.  I. 


Villa,  em  outro  tempo,  do  grande  Pompeu,  procurou  o  de  ares  marítimos ; 
mas  continuou  a  rebeldia  de  suas  enfermidades,  e  por  fim  convenceu-se 
de  que  em  vão  esperava  remédio  na  residência  de  Itália.  Intentava  Vieira, 
se  me  não  engana  a  minha  conjectura,  alcançar  em  Roma  revogação  da 
sentença,  contra  elle  proferida  na  Inquisição  de  Coimbra;  e  para  isto 
desejava  levar  apertadas  recommendações  do  regente  para  os  seus  ministros 
na  Guria,  e  ser  favorecido  pela  protecção  da  rainha  de  Inglaterra.  Recu- 
sou-se,  como  vimos,  o  regente,  e  até  lhe  atalhou  o  recurso  á  protecção  de 
sua  irmã.  Esta  princeza  de  mais  d'isso  ao  ler  o  sermão  dos  annos  da  rainha 
D.  Maria  Francisca,  houve  por  menos  attendido  o  respeito  d'el-rei  D.  Afifonso ; 
d'onde  passou  a  olhar  Vieira,  como  um  dos  instrumentos,  que  haviam 
effeituado  a  sua  deposição  *.  Viu-se  por  tanto  desassistido,  até  da  esperança 
de  valias  tão  poderosas;  e  resignado  com  a  presente  fortuna,  desceu  de 
Ião  alta  pretensão,  limitando-se  a  pedir  para  o  futuro  isenção  da  auctori- 
dade  do  santo  oíTicio  de  Portugal,  que  ultimamente  lhe  concedeu,  em  ter- 
mos de  grande  recommcndação  e  honra,  o  papa  Clemente  X,  já  no  anno 
de  1675  2. 

Com  a  necessidade  de  reparar  a  saúde  longe  de  Roma,  e  com  o  remate 
do  seu  principal  negocio,  ficou  Vieira,  não  só  desimpedido,  mas  como  obri- 
gado a  voltar  para  este  reino.  Este  era  certamente  o  seu  desejo.  Ignoramos 
a  causa  e  os  mais  particulares  da  proposta,  que  por  parte  do  príncipe 
regente  se  lhe  fez  de  voltar,  já  desde  1G7I.  Mas  não  ha  duvida  que  se 
lhe  fez  ^.  "Vieira  respondeu  recordando  as  ingratidões  de  Portugal;  incul- 
cando as  estimações  de  Roma,  o  seu  desprezo  do  mundo,  e  a  paz,  em  (|ue 
vivia  com  jesuitas  estrangeiros;  concluía  porém  sempre  com  os  protestos 
mais  decididos  de  querer  servir  a  pátria  e  o  príncipe,  e  de  obedecer  ao 
mais  leve  aceno  d"este  ultimo.  Que  Poi'lugai  o  tinha  tratado  com  dureza, 
é  certo;  que  era  em  Roma  muito  estimado,  também  o  é;  que  vivia  em  paz 
com  os  jesuitas  romanos,  é  bem  de  crer:  mas  se  Vieira  sinceramente 
aífirmava  de  si  soberano  desprezo  do  mundo,  parece-me  que  se  enganava. 


'  Yejam-se  as  cartas  LXVII  c  LXXIII  do  vol.  II. 

*  Barros  (1.  V  §§  CCLXIII  e  seg.)  traz  copiados  os  principaos  fragmentos  do  breve 
de  Clemente  X.  Em  outro  logar  (1.  IV  |  LXXXIII)  refere  um  dito  do  mesmo  papa 
acerca  de  Vieira,  que  mostra  penetração :  Demos  graças  a  Deus  por  fazer  este  homem 
catholieo  romano;  porque  se  o  não  fosse,  poderia  dar  muito  ciiuJado  á  sua  Igreja. 

3  Vejam-se  as  cartas  LXXII  e  LXXIII  do  vol.  II  e  XXXVIII,  XLIII  do  III.  Alguma 
desconfiança  me  resta  porém  das  suas  datas,  e  por  isso  hesito  entre  1671  e  72. 


87 


O  coração  Imniano  é  um  abysmo,  ou  um  labyrintlio.  muitas  vezes  desco- 
nhecido d"aquellL's  mesmos  que  o  possuem.  De  nós  allirmamos,  imagiua- 
mos  em  niuilos  casos  o  que  está  louge  de  ser  como  cuidamos:  e  o  mais  é, 
que  isto  uão  só  uos  acontece  por  engano  da  falsa  confiança  ou  da  vã  glo- 
ria, mas  também,  posto  que  mais  raramente,  por  erro  de  falsa  desconfiança, 
ou  supposição  muito  rasteira.  E  é  verdade,  que  a  correspondência  de 
Vieira  no  mesmo  tempo  desdizia  daquellas  aíDrmações:  porque  se  bem 
não  argue  um  liouiein  muito  enlevado  no  mundo  e  desvelado  com  suas 
esperanças,  não  argue  mais  o  |)erfeilo  desengano,  que  leva  unicamente  ao 
que  é  solido  e  importante  para  a  felicidade  intendida,  e  ao  desprezo  firme, 
porém  desafleclado,  de  tudo  o  que  não  passa  de  vulgar  e  pbantastica 
illusão. 

Requereu  António  Vieira  na  dita  occasião,  que  o  príncipe  D.  Pedro 
mandasse  escrever  ao  geral  da  Companhia,  instando  pela  sua  volta  para 
Lisboa.  Mandou  escrever  o  príncipe;  e  o  geral,  ainda  que  apontou  diflicul- 
dades,  não  deixou  de  condescender.  Fallava-se  na  resposta  do  geral  em 
detrimentos  da  compauliia  de  Roma  com  a  ausência  de  Vieira,  e  em  pro- 
jectos de  o  demorar  como  assistente  de  Portugal  e  pregador  do  summo 
pontífice:  mas  tudo  isto  por  fim  se  punha  de  parte,  por  contentar  e  obe- 
decer a  sua  alteza  *.  Comtudo  esta  negociação  ficou  suspensa  no  eCfeito;  e 
da  correspondência  de  Vieira  não  pude  alcançar  o  motivo.  É  porém  de 
presumir,  ou  que  da  parte  do  regente  esfriassem  as  instancias,  ou  que  a 
Vieira  parecesse,  que  voltar  naquella  condição  não  era  bem  seguro.  Pelo 
breve  de  Clemente  X  se  vé,  que  elle  se  precatava  contra  novos  embaraços 
com  o  santo  olUcio :  da  variedade  das  cortes  não  havia  que  confiar  na  sua 
constante  protecção,  e  muito  menos  à  vista  das  contemplações,  que  com  o 
santo  oflicio  guardava  o  regente;  da  má  vontade  dos  emulos  não  se  podia 
esperar  que  usassem  indulgência;  e  da  parte  do  tribunal,  se  o  julgava 
resentido  (lor  elle  propender  para  os  interesses  dos  christãos  novos,  real- 
mente tinha  que  temer  pouco  favorável  disposição. 

Como  quer  que  fosse.  Vieira  munido  de  breve  pontificio,  obrigado  de 
suas  moléstias,  e  nunca  esquecido  da  pátria,  saliiu  de  Roma  encaminhan- 
do-se  para  Lisboa.  Houve  quem  assignasse  a  esta  jornada  o  anuo  de  1677 : 
Barros  rejeita  a  opinião,  e  assigna  o  de  1G75.  Noto  porém  que  rejeitando 
a  opinião,  nem  por  isso  aponta  os  fundamentos,  com  que  a  rejeita.  Mas  é 


•  Veja-se  a  carta  XLIII  do  vol.  III,  escripla  ao  príncipe  D.  Pedro. 


88 


valentíssimo  o  que  offerecem  duas  cartas  ao  gran-duque  de  Toscana,  datadas 
ambas  de  Lisboa  em  5  de  novembro  de  1675,  e  a  resposta  do  gran-diKjue, 
sem  data  de  logar,  porém  com  a  de  30  de  dezembro  do  mesmo  anno  '.  Á 
vista  de  taes  documentos,  não  pôde  ficar  duvida  de  que  partiu  de  Roma 
em  maio,  e  tinha  chegado  a  Lisboa  antes  de  novembro,  depois  de  uma 
ausência  de  seis  annos  ^.  Fez  seu  caminho  por  Florença,  onde  em  agosto 
conferiu  com  o  gran-duque  o  intentado  casamento  do  seu  herdeiro  com  a 
herdeira  de  Portugal;  e  recebidas  as  informações  necessárias  para  tratar 
o  negocio  com  justo  conhecimento,  tomou  a  seu  cargo  introduzi-lo,  e  com- 
municar  o  que  passasse,  com  todas  as  cautelas,  que  muito  requeria,  além 
da  gravidade  da  matéria,  a  politica  bem  circumspecla  do  gran-duipe. 

Passados  poucos  dias  da  sua  chegada  a  Lisboa,  desempenhou  prompta- 
mente  António  Vieira  o  que  tinha  promeltido  a  este  respeito  ao  gran-duque 
do  Toscana.  O  príncipe  regente,  sem  acceitar  ou  rejeitar,  encarregou-o  de 
escrever  ao  gran-duque,  pedindo  ainda  mais  declarações.  Escreveu  Vieira, 
e  o  gran-duque,  á  vista  das  suas  cartas,  houve  por  desfeita  toda  a  nego- 
ciação; e  nestes  termos  se  explicou  em  concisa  resposta.  Em  taes  circum- 
stancias,  pouco  mais  ou  menos,  é  que  o  regente  ordenou  a  Vieira,  que 
pozesse  por  escripto  o  que  tinha  passado  com  o  gran-duque.  Obedeceu 
Vieira  e  escreveu  a  relação,  que  nos  resta  somente  em  parle.  A  parte, 
que  conservamos,  expende  as  conveniências  do  casamento  em  l^lorença ;  a 
que  falta  devia  expender  os  inconvenientes.  São  elles  porém  expendidos 
em  outro  papei,  que  contém  parecer  de  Vieira  sobre  o  casamento  da  prin- 
ceza  com  príncipe  extrangeiro,  quer  fosse  dos  estados  de  Itália,  quer  losse 
dos  de  Allemanha.  Ao  ler  comludo  o  primeiro  papel,  o  leitor  fica  na  sus- 
peita de  que  a  segunda  parte  não  seria  tão  urgente  como  no  parecer  se 
mostra,  e  que  a  inclinação  de  Vieira  ao  gran-duque  lhe  temperaria  de 
algum  modo  a  força,  que  sem  esta  cautela  inveiicivelmente  desbaratara 
todo  o  projecto,  e  coirespondèra  mal  á  confiança  do  gran-duque.  Mas  seja 
o  que  fòr  desta  suspeita,  é  certo  que  os  dois  papeis,  a  que  nos  referimos, 
ou  se  considere  o  fundo  das  suas  razões,  ou  a  prevenção  de  futuros,  ou  a 
excellencia  do  estylo,  são  egrégios  fragmentos,  que  deveriam  andar  sem- 


•  São  as  cartas  XLIV  e  XLV  do  dito  vol.;  e  a  resposta  do  gran-duque  vem  logo 
depois  da  XLV. 

*  André  de  Barros  diz,  que  saiiiu  de  Roma  a  22  de  maio,  1.  IV  §  LXXXV.  Barros 
não  conlieeia  as  ditas  cartas  do  vol.  III,  qne  saliiu  á  luz  uo  mesmo  anuo,  em  ijue  a  sua 
historia  de^Vieira. 


8d 


pre  diante  dos  olhos  dos  políticos  portngnòses.  Os  verdadeiros  interesses 
da  pátria  são  propostos  com  energia,  os  detriínontos  contrários  ponderados 
com  agudeza ;  nem  a  brevidade  da  esciiptura  empece  á  clareza  e  comple- 
mento, nem  a  clareza  simples  e  fácil  faz  prejuízo  à  gravidade.  E  posto 
que  os  escriptos  pragmáticos  deste  homem  insigne  em  geral  sejam  primo- 
rosos, julgo  que  me  não  engano  em  cuiflar,  que  os  dois,  de  que  agora 
falíamos,  são  entre  tiulos  merecedores  da  primeira  estimação  '. 

O  casamento  da  princeza  D.  Izahel  Josepha,  principalmente  depois  que 
o  tempo  foi  deixando  intender  que  seria  única,  foi  muito  pretendido  de 
principes  extranhos.  De  Aliemanha  o  procuraram  os  priíic.pes  de  Neobin'go 
e  Baviera ;  e  de  Itália  os  de  Sabóia  e  Parma  sobre  o  de  Toscana.  Em  todos 
elles  havia  a  prerogativa  do  sangue :  posto  que  nos  de  Aliemanha  e  Sabóia 
fosse  mais  subida:  e  em  todos  havia  o  lustre  de  claríssimas  allianças.  No 
de  Parma  uma  certa  inferioridade  era  compensada  por  parentesco  muito 
próximo;  pois  que  em  razão  d'elle  os  duques  de  Parma  concorreram,  por 
morte  do  cardeal  rei,  cora  a  senhora  D.  Catharina  e  com  o  prior  do  Crato 
na  pretensão  do  throno  português.  O  que  excediam  Baviera,  Neoburgo  e 
Sabóia  em  sangue,  e  Parma  em  parentesco,  ganhava  Toscana  em  riqueza, 
valia  de  estados  e  coramodos  da  sua  união  com  Portugal.  Na  necessidade 
de  escolher  entre  elles  a  preferencia^  não  seria  de  fácil  resolução;  por  não 
ser  claro  se  em  taes  circumstancias  conviria  mais  o  esplendor  ou  a  utili- 
dade. Não  era  porém  necessário  escolher  entre  elles;  e  é  inuegavel,  que 
a  todos  obstava  a  razão  de  extrangeiros,  precisamente  a  mesma,  que  havia 
dado  i  posteridade  da  senhora  D.'  Calhaiina  melhor  direito,  que  aos  des- 
cendentes da  duqueza  de  Parma.  O  ajuste  com  Sabóia,  procedido,  como  é 
de  suppôr,  da  inclinação  da  rainha  D.  Maria  Francisca,  magoou  tanto  os 
portugueses,  quando  d'elles  foi  conhecido,  como  os  satisfez,  quando  a  pro- 
videncia o  desvaneceu.  Mas  deixado  isto,  não  tem  pouco  de  notável  a  cir- 
cumstancia  de  recorrerem  egualmente  Toscana,  Baviera  e  Parma  neste 
negocio  ao  padre  António  Vieira,  como  medianeiro:  o  que  só  se  pôde 
attribuir  á  larga  opinião,  que  corria,  da  sua  dexteridade,  e  da  importância, 
que  era  dada  ao  seu  voto  na  corte  de  Lisboa  *. 


'  Podem  ver-sc  estes  dois  papeis  no  vol.  III  das  cartas,  desde  pag.  238  até  263. 
O  ponto  de  collocar  em  Lisl)oa  a  metrópole  de  um  estado,  que  abrangesse  toda  a  Hes- 
panlia,  é  tratado  com  grande  penetração  e  juÍ7.o. 

*  Diz-me  V.  E.,  que  os  pretensores,  cm  que  agora  se  falia  são  Florença,  Partna  e 


90 


Em  muitas  outras  matérias  graves  era  consultado  do  príncipe  e  do  seu 
consellio;  e  se  o  sen  parecer  nem  sempre  era  abraçado,  não  é  isso,  como 
todos  sabem,  argumento  de  se  ter  por  menos  sisudo.  Nem  sempre  o  que 
se  tem  por  mais  sisudo,  é  o  que  se  segue ;  e  é  na  especulação  muito  antigo 
apiíorismo,  e  mais  antigo  ainda  na  pràlica,  que  o  liomem  deixa  o  mellior, 
que  reconhece,  pelo  peor,  que  o  lisonjéa.  Além  de  qne  o  consultor  quasi 
nunca  se  acha  collocado  naquelle  ponto  de  vista,  d'onde  poderia  descobrir 
perfeitamente  todos  os  inconvenientes  do  seu  mesmo  parecer:  e  por  isso 
ainda  que  este,  sem  intervir  ruim  aíTecto  ou  capricho,  seja  deixado,  o  in- 
tendimento,  que  o  concebeu,  pôde  ficar  muito  airoso.  Atlendido  era  de 
todos  o  seu  juizo,  não  só  reconhecido.  Da  sua  penetração  ajudada  de  luzes 
e  de  tamanha  experiência  esperava-se,  com  razão,  o  acerto,  a  que  pôde 
alcançar  a  capacidade  humana.  E  tanto  caso  faziam  das  suas  decisões  as 
pessoas  mais  qualificadas  em  nobreza  ou  empregos,  que  mesmo  depois  de 
se  recolher  na  Bahia,  conselheiros  deslado  de  primeira  ordem  lhe  envia- 
vam os  seus  votos ;  hesitando  na  própria  estimação  acerca  d'elles,  emquanto 
Yieira  os  não  determinava  com  a  gravidade  da  sua  approvação  '. 

Ao  mesmo  subido  conceito  se  ha  de  referir  necessariamente  a  resolução, 
que  tomou  a  rainha  de  Suécia,  de  o  escolher  para  seu  confessor.  Determi- 
nada esta  princeza  a  entregar-se  de  um  modo  ainda  mais  eCfectivo  ás  obser- 
vancias  do  christianismo,  reputou,  que  não  podia  ajudar-se  de  um  director 
mais  intendido  que  António  Vieira;  e  nesta  supposição  o  pediu  ao  geral 
da  companhia.  O  geral  anteviu  logo  as  difficuldades  da  execução.  A  edade 
de  Vieira  já  tocava  setenta  annos:  a  navegação  do  Mediterrâneo  é  em  todos 
os  tempos  arriscada:  o  clima  de  Roma,  que  provara  tão  inimigo  em  edade 
menos  provecta,  não  podia  ser  agora  mais  favorável:  renunciar  á  pátria  e 
aos  seus  não  era  sacrificio  leve :  o  consentimento  emflm  do  príncipe  regente 
não  dependia  do  arbítrio  de  Vieira;  e  se  não  podia  ser  desprezado  sem 
temeridade,  também  não  podia  ser  pedido  sem  .falta  de  delicadeza. 
Escreveu  comtudo  a  Vieira  em  dezembro  de  1678;  posto  que  com 
tamanha  duvida  do  êxito  da  tentativa,  que  suggeria  na  mesma  carta 
o  comportamento  conveniente  no  caso  de  sua  escusa.   Guardou  este 


Baviera :  e  não  sei  se  lembrará  a  S.  A.,  que  todos  Ires  me  quizeram  fazer  medianeiro 
d'este  negocio,  otc.  Carta  LXXXV  do  vol.  II. 

'  Veja-se  a  mesma  carta,  escripta  ao  marquez  mordomo  mór,  e  datada  da  Bahia 
em  21  de  juulio  de  1682. 


91 


comporlamento  Vieira  na  resposta  dalada  de  janeiro  de  1G70  •  :  e  se  bera 
que  a  resposta  é  lanijada  uos  lermos  irresoiutos  ile  quora  deixa  a  ultima 
decisão  ao  arbítrio  dos  superiores,  os  ailegados  são  tanto  de  acceitar,  que 
não  poderia  desprezá-los  a  auctoridade  superior,  sem  fazer  injuria  á  sua 
mesma  discreção. 

Entre  os  ailegados  da  resposta  de  Vieira  sobresae  o  estado  da  sua 
saúde,  mesmo  no  clima  de  Lisboa,  mais  benigno  que  o  de  Roma.  A  vista 
de  um  dos  olhos  eslava  perdida,  a  do  outro  muito  atlenuada,  e  o  ouvido 
muito  obtuso:  e  ia  apparecendo  toda  a  mais  comitiva  dolorosa  e  lucluosa 
de  setenta  annos,  passados  em  trabalho  tão  árduo,  como  continuo.  Este 
soldado  já  inválido  não  devia  aspirar  a  outra  coisa,  que  ao  descanço  de 
um  quartel  bem  commodo  e  agasalhado,  cujo  vagar  e  suavidade  moderasse 
os  effeitos  dos  annos  e  das  fadigas  antecedentes.  Isto  mesmo  dizia  Vieira 
quanto  à  substancia;  mas  não  pôde  este  seu  dito  conciliar-se  com  a  duvida, 
em  que  elle  diz  também  que  eslava,  de  ir  continuar,  no  caso  que  se  pas- 
sasse para  a  America,  com  as  missões  do  Maranhão.  Ou  esta  duvida,  pelo 
que  respeita  ao  Maranhão,  era  muito  fraca,  ou  o  zelo  lhe  augmentava  na 
imaginação  as  forças.  A  primeira  coisa  me  parece  a  mais  provável.  Não 
podia  a  sua  agudeza  deixar  de  sentir,  que  ainda  a  direcção  das  missões 
desde  a  capital  da  colónia  requeria  forças  nmilo  inteiras.  E  se  o  desvelava 
a  conversão  e  reducção  dos  indios,  não  podia  ignorar  por  outra  parte,  que 
o  peso  de  gente  inulil  em  vez  de  ajudar,  delem  e  embaraça  as  operações 
da  milicia;  que  soldado  velho  não  é  o  mesmo  que  veterano;  e  que  se  o 
desejo  da  vicloria  dos  seus  camaradas  é  no  invalido  afifeclo  honrado,  a 
presumpção  de  que  para  ella  lhes  pôde  ser  de  proveito,  não  é  senão 
tresvario. 

Dado  que  não  fosse  occupar-se  nas  missões  do  Maranhão,  insinuava 
ir  continuar  na  Bahia  o  iraballio  dos  seus  escriptus ;  isto  é,  o  complemento 
e  perfeição  da  clave  dos  prophetas,  e  o  preparo  de  todos  os  mais,  parti- 
cularmente dos  sermões,  para  sahirem  a  publico,  pela  imprensa.  Por  varias 
vezes  se  linha  Vieira  lembrado  de  os  fazer  imprimir  :  mas  negócios  maiores 
e  outras  causas  tinham  desvanecido  a  idéa.  Ajuntaram-se  agora,  para 
trazer  esta  resolução  a  effeito,  as  exhortações  de  amigos,  as  ordens  do 


'  Barros  (I.  IV  §§  XC  e  seg.)  traz  copiadas  estas  duas  cartas,  das  quaes  ambas 
se  extrahiu  a  substancia  do  texto.  A  resposta  de  Vieira  tanibera  se  acha  no  voi.  III 
das  carias  n.'  HV;  faz  porém  alguma  dillerença  da  que  oílerece  Barros. 


92 


príncipe  regente  e  do  geral  Oliva,  e  o  desejo  de  todos':  e  além  de  tudo 
isto,  a  quasi  necessidade  de  occorrer  por  este  meio  á  impostura,  que  divul- 
gava de  penna  e  pela  estampa,  em  Portugal  e  fora  de  Portugal,  ou  sermões 
alheios  com  o  appellido  de  seus,  ou  os  seus  deformados  e  depravados  pela 
avareza  e  temeridade  imperita  dos  impostores^.  Fizeram-llie  tanta  força  as 
ordens  do  príncipe  e  do  gerai  Oliva,  que  já  em  1677  tinlia  prompto  o  pri- 
meiro volume,  e  escrevia  a  dedicatória,  que  se  iè  no  principio  delie ;  e 
essa  é  a  razão,  por  que  na  carta  de  1678  falia  em  continuar  o  trabalho 
dos  seus  escriplos,  que  realmente  era  começado  desde  1076^.  O  dito 
volume  comtudo  não  acabou  de  se  imprimir  senão  em  1679;  e  tão  adeante, 
como  11  de  novembro,  é  que  puderam,  como  elle  diz,  ir  olfirecer-se  ao 
padre  Gaspar  Ribeiro  estas  primicias  da  sua  estampa''. 

O  frio  era  seu  irreconciliável  inimigo,  e  por  esta  causa  os  médicos  lhe 
aconselhavam  que  voltasse  para  a  sua  província  do  Brazil.  Na  Bahia,  onde 
se  creàra,  achava  o  ar  docemente  temperado,  que  quadrava  com  a  sua 
edade  e  moléstias,  e  achava  de  mais  a  mais  a  companhia  de  seu  irmão  e 
familia.  O  projecto  de  pôr  em  limpo  e  estampar  os  seus  escriptos  requeria 
socego,  que  não  era  fácil  de  conseguir  em  Lisboa ;  sendo  tão  frequentado 
6  consultado  pelas  pessoas  da  maior  consideração,  a  que  era  impossível 
recusar-se.  Assentou  emfim  de  se  aventurar  pela  ultima  vez  ao  oceano, 
buscando  a  mesma  costa  da  America,  d'onde  quarenta  annos  antes  tinha 
soltado  vela,  para  applaudir  em  Lisboa  o  generoso  brio,  com  que  a  nobreza 
de  Portugal  accommetleu,  e  o  povo,  sempre  sisudo  e  honrado,  seguiu  a 
memorável  revolução.  Sem  embargo  porém  daquelles  motivos  tão  aper- 
tados e  tão  graves.  Vieira  mais  se  arrancou  do  que  saliiu  da  pátria ;  e 
muito  pouco  seria  necessário  para  se  resolver  a  depositar  uella  as  suas 
cinzas :  mas  faltou  este  mesmo  pouco,  e  temos  toda  a  razão  de  inferir  do 
que  elle  depois  escrevia,  que  a  ingratidão  teve  a  principal  parte  na  sua 
ausência  ^. 


1  A  ordem  do  príncipe  regente  consta  da  dedicatória;  os  outros  motivos  constam 
do  prologo  do  dito  vol.  I. 

2  Veja-se  o  prologo  do  I  vol. 

3  Estando  prompto  em  julho  de  1C77,  como  se  vé  da  dedicatória  e  licença  da  reli- 
gião, muito  provavelmente  havia  princiíúado  o  preparo  no  anno  antecedente. 

*  Veja-se  a  carta  L  do  vol.  III. 

5  Na  caria  LXXXI,  do  vol.  II,  escripta  ao  duque  de  Cadaval,  falia  com  grande 


93 


António  Vieira  linha  feito  sem  duvida  alguma  grandes  serviços  ao  reino 
e  aos  príncipes  d'elle.  Uma  viagem  fez  a  Roma,  duas  a  França,  duas  a 
Holianda  em  tempo  e  obseijuio  d"el-rei  D.  João  IV  *.  Com  pareceres,  votos, 
arbitrios,  ajudou,  quer  nas  matérias  de  consciência,  (juer  nas  de  politica, 
o  governo  d'aquelle  monarcha,  e  o  da  rainha  D.  Luiza  nas  criticas  e  deli- 
cadas circumstaiicias,  em  que  por  momentos  Uie  escapavam  da  mão  as 
rédeas  da  regência.  No  governo  do  príncipe  D.  Fedro  em  lOCH  e  (39,  e 
entre  1075  e  1681,  não  serviu  muito  menos.  Em  especial,  linlia  ajudado 
a  causa  deste  príncipe  nas  discórdias  entre  el-rei  D.  Allouso  e  sua  mãe : 
e  se  na  deposição  d"este  ultimo  não  teve  tamanha  parte,  como  a  rainha  de 
Inglaterra  lhe  quiz  attribuir,  não  foi  por  certo  espectador  ocioso;  como  se 
vé  das  Carias,  escriptas  de  Comíbra,  antes  da  prisão,  ao  duque  de  Cadaval 
e  D.  Theodosio,  ao  marquez  de  Gouvéa  e  D.  Rodrigo  de  Menezes.  El-rei 
D.  João  IV,  o  tinha  nomeado  mestre,  e  a  rainha  D.  Luiza  o  tinha  nomeado 
confessor  do  mesmo  príncipe ;  e  se  a  primeii'a  nomeação  não  teve  efleito, 
porque  Vieira  se  retirou  para  as  missões,  não  o  teve  a  segunda,  porque 
o  fizeram  retirar  de  Lisboa  os  inimigos  do  infante*.  For  tantas  razões 
publicas  e  particulares  linha  elle  direito  á  graça  e  contemplação  do  regente  : 
sem  fallar  agora  nos  seus  talentos,  que  o  faziam  merecedor  da  geral  esti- 
mação, e  no  seu  grande  préstimo,  de  que  nas  occasiões  se  podia  tirar  para 
o  deante  muito  partido. 

Não  faltou,  como  temos  visto,  com  certas  mostras  de  altenção  benigna 
o  príncipe  D.  Fedro.  Mais  ou  menos  contribuiu  para  se  mitigar  o  rigor  da 
seutença  da  inquisição  :  na  occasião  em  que  fui  negociar  em  Roma,  recom- 
mendou-o  em  termos  de  honra  e  elllcacia  ao  agente  João  de  Roxas  de  Aze- 
vedo :  procurou  a  sua  volta  para  Lisboa ;  e  para  isso  escreveu  ao  geral  da 
companhia  com  instancia :  ouvia  as  suas  propostas ;  consultava-o  em  ma- 
térias de  grave  momento :  frequentes  vezes  o  fazia  certiflcar  da  sua  affe- 
ctuosa  memoria :  honrou-o  emflm  com  o  preceito  de  estampar  os  seus 
sermões ;  preceito,  que  para  o  amor  próprio  de  um  auctor  se  converte  na 


empliase  da  grata  licença,  que  o  regente  logo  liie  deu,  para  se  partir  (e  quasi  o  mesmo 
em  outras  taiiibeui  ao  duque),  a  que  se  seguiram  outras  demonstrações,  que  não  podia 
etperar  quem  tanto  tinha  servido  e  padecido,  como  a  V.  E.  é  presente. 

1  Veja-se  a  caria  CXXVI  do  vul.  II :  com  os  negócios,  tonlinúa  Vieira,  de  maior 
confiança  e  importância,  que  nunca  naquelles  tempos  tão  duvidosos  teve  Portugal;  e  a 
carta  XL  do  vol.  III. 

'  Veja-se  a  caria  LXII  do  II  vol. 


94 


mais  fina  e  deliciosa  lisonja,  e  tanto  mais  fina  e  deliciosa,  quanto  mais  se 
reveste  dos  exteriores  de  violência  É  certo  porém  que  com  todas  estas 
mostras  se  não  deu  Vieira  por  satisfeito.  Queixava-se  e  quasi  que  murmu- 
rava das  indifferenças  ou  friezas,  com  que  era  pago  o  seu  zelo  ;  das  sequi- 
dões  com  que  o  seu  amor  era  correspondido.  F,iz  difficuldade  ao  observador 
esta  espécie  de  repugnância :  e  ou  quereria  dar  por  imaginários  todos  os 
signaes  de  affecto,  que  ficam  referidos,  o  que  a  historia  todavia  não  per- 
mitte ' ;  ou  se  resolve  a  notar  Vieira  de  mimoso  com  excesso  na  matéria 
de  estimações  e  affectos  soberanos ;  contra  o  que  se  devia  esperar  do  seu 
juizo,  tão  ajudado  de  profunda  reflexão  e  de  multiplicadas  lições  da  expe- 
riência. 

Não  posso  absolver  aqui  António  Vieira  de  alguma  fraqueza :  e  muito 
menos  se  me  recordo  de  tantas  máximas  de  desengano  christão  e  politico, 
que  tenho  lido  nas  suas  obras,  e  da  isenção  animosa,  com  que  em  certos 
casos  desprezou  o  favor  da  corte,  quando  esta  o  desejava  prender  com 
todos  os  laços  da  sua  astúcia.  Se  porém  Vieira  foi  nesta  matéria  fraco,  estou 
longe  de  o  suppõr  também  insensato.  Condemno-o,  porque  fazia  caso  de 
friezas  ou  sequidões,  que  nada  tinham  com  a  felicidade  verdadeira ;  mas 
não  posso  crer,  que  deixava  de  avaliar  ao  justo  as  indifferenças  do  príncipe 
D.  Pedro.  Os  rigores  da  inquisição  foram  mitigados,  não  tanto  por  obra 
do  regente,  como  por  influencia  dos  seus  validos :  as  recommendações  a 
João  de  Roxas  foram  sabidamente  diminutas ;  ouvi-lo  e  consulta-lo  podia 
ser  necessidade  antes  do  que  afl"ectuosa  confiança :  memorias  remettidas 
por  incidente,  e  desmentidas  por  acções,  não  passam  de  vãos  formulários : 
o  apreço  dos  seus  sermões  era  conceito  vulgar ;  o  preceito  de  os  imprimir 
não  é  certo  argumento  de  amizade  para  com  o  auclor.  Tudo  isto  conhecia 
bem  António  Vieira ;  e  como  tinha  a  fraqueza  de  desejar  renovadas  as  prl- 
vanças  d"el-rei  D.  João  IV,  as  estimações  do  príncipe  D.  Theodosio,  notava 
e  doia-se  de  que  lhe  faltassem,  quando  se  presumia  com  melhor  direito. 
Ver-se-ha  depois  que  o  regente,  sem  desprezar  António  Vieira,  ou  por  isso 
mesmo  que  o  não  desprezava,  lhe  era  pouco  inclinado  ^ :  e  na  verdade, 


•  Constam  com  effeito  indubitavelmente  de  toda  a  correspondência  de  Vieira,  e  em 
especial  das  cartas  a  D.  Rodrigo  de  Menezes.  O  preceito  de  imprimir  os  sermões  é 
expresso  na  dedicatória  e  prologo  do  I  volume. 

*  Não  pode  negar-se,  que  algumas  pessoas  se  incommodani  muito  com  o  mereci- 
mento alheio  :  e  a  soberania  dos  príncipes  não  os  isenta  das  fraquezas  da  humanidade. 


95 


prompta  liceuça  de  se  partir  para  sempre  para  a  Baliia,  não  pôde  dar 
molivo  á  suspeita  de  muita  inclinação. 

Talvez  aiuila  em  Roma  se  lembrou  Vieira  de  passar  para  o  Rrazil;  e 
certamente  llie  occorreu  este  pensamento,  assim  que  advertiu  que  o  clima 
de  Lisboa  o  favorecia  pouco  mais.  Mas  quando  nisto  possa  haver  alguma 
duvida,  elle  mesmo  allirniava  em  janeiro  de  167Í),  que  já  dantes  se  pre- 
venia para  fazer  a  dila  viagem'.  Só  veio  comtudo  a  cumprir  com  esta 
tenção  no  fim  de  dois  annos  completos ;  sabindo  da  barra  de  Lisboa  era 
il  de  janeiro  de  1081  na  almirauta  da  frota,  commandada  pelo  capitão  de 
mar  e  guerra  Diogo  Ramires.  Não  consta  todavia  que  o  impedisse  uegocio, 
ou  o  atalhasse  enfermidade :  reflexão,  que  me  leva  a  referir  as  suas  tar- 
tanças  ou  delongas  á  dilBculdade  própria,  com  que  se  ausentava.  Três  vezes 
accommetteu  e  três  vezes  desistiu  ura  antigo  poeta  da  sabida  para  o  des- 
terro ;  mas  o  poeta  era  constrangido  a  deixar  Roma,  e  a  desterrar-se  para 
paiz  ingrato  e  gente  desconhecida  e  barbara ;  ao  mesmo  tempo  que  Vieira 
se  partia  sem  preceito  para  a  terra,  onde  havia  passado  os  seus  melhores 
annos,  para  a  província,  que  havia  escolhido  com  bizarra  determinação, 
para  os  seus  irmãos  por  instituto  e  por  natureza,  e  para  um  clima  doce  e 
feliz  torrão,  que  poderá  ser  invejado  até  de  regiões  muito  avantajadas  á  do 
fero  e  inculto  Danúbio  naquella  remota  edade.  Com  serem  porém  tão 
diversas  ou  tão  contrarias  as  circumstaucias,  não  parecem  as  repugnancias 
de  Vieira  menores  que  as  do  poeta  romano ;  e  ambos  os  apartamentos  se 
representam  egualmeute  procedidos  da  mais  custosa  violência. 

Tanto  que  chegou  à  Bahia  (não  pude  alcançar  quanto  tempo  durou  a 
viagem),  assentou  de  se  entregar  todo  aos  cuidados  de  espirito,  sem  mais 
iutervallo  que  o  da  diligencia  de  apurar  os  seus  escriptos,  para  proseguir 
a  impressão  começada  em  idld.  Tratou  de  enterrar  memorias  do  passado, 
6  de  se  esquecer  da  Europa ;  e  de  fugir  até  da  Bahia,  sepultando-se  na 
solidão  de  uma  quinta  dos  jesuítas  nomeada  do  Tanque.  A  primeira  frota, 
por  elleito  de  tão  severa  resolução,  não  trou.\e  carta  sua  para  o  reino;  e 
para  satisfazer  às  sentidas  queixas,  com  que  acudiram  alguns  illustres 
amigos,  foi  necessário,  diz  Barros,  que  o  obrigassem  os  superioies.  Des- 
canso, retiro,  silencio,  eram  agora  o  seu  presupposto  único.  Mas  em  breve 
o  obrigaram  as  circumslaucias  a  sahir  a  publico,  a  entrar  em  conflictos, 
a  fallar  e  escrever  com  o  mesmo  ou  maior  empenho,  que  o  de  outros 


•  Veja-se  a  carta  LIV  do  vol.  111,  escripla  ao  geral  João  Paulo  Oliva. 


96 


tempos.  Desconcertam-se  facilmente  os  planos  mais  assentados  pela  pru- 
dência humana.  Porém  quando  este  não  fosse  desconcertado  por  occasião 
estranha  e  inevitável,  o  retiro  e  silencio,  a  que  se  tinha  condemnado  Vieira, 
lepugnavam  niiiito  ao  seu  natural ;  e  o  natural,  se  não  desfallece  de  todo 
pela  mesma  coacção  ou  por  outras  causas,  vem  sempre  a  romper  emba- 
raços, e  a  campear  tanto  mais  isento,  quanto  esteve  mais  sujeito  :  e  porque 
assim  se  achou  o  de  Vieira  desfallecido  nos  ulliroos  ires  ânuos  da  sua  vida, 
é  que  aquelle  plano  se  tornou  a  porem  pratica  ;  e  então  mesmo  foi  seguido 
de  sorte,  que  ainda  de  espaço  a  espaço  lhe  escapavam  indícios  da  antiga 
vivacidade. 

Governava  a  Bahia,  como  governador  e  capitão  general,  quando  chegou 
Vieira,  Roque  da  Costa  Barreio,  que  nas  guerras  da  acclamação  servira 
com  prudência  e  valor.  Houve-se  este  cavalheiro  no  exercício  do  seu  cargo 
com  tanta  honra  e  iuleireza,  que  mereceu  as  estimações  dos  bons  avalia- 
doies,  e  as  saudades  de  todo  o  estado.  Tornou  pobre  donde  os  mais  cos- 
tumavam recolher-se  muito  medrados  em  cabedal.  E  Vieira,  escrevendo  ao 
marquez  de  Gouvéa,  motiva  o  encarecimento,  com  que  fallàra  em  seu 
louvor,  com  o  zelo  que  lodos  devem  ler  de  que  as  virludes  sejam  pre- 
miadas. Acabou  o  seu  governo  por  maio  de  1G82,  e  succedeu-lhe  Autonio 
de  Sousa  de  Menezes,  cuja  edade  madura  promellia  grandes  acerlns,  e  o  não 
ter  herdeiros  eg/ial  desinleresse  *.  Mas  ou  porque  fosse  difficulloso  contentar 
a  Bahia  costumada  á  sabia  direcção  de  Roque  da  Costa,  ou  porque  nas 
acções  do  seu  successor  faltasse  o  bom  aviso,  que  pi  omelliam  os  annos ; 
desde  logo  entrou  a  ser  mal  visto,  e  até  pro\ocou  as  picantes  facécias  dos 
eugeidios  poéticos  da  terra -.  Concordou  a  continuação  com  este  principio ; 
6  foram  surgindo  encontros  e  successos,  que  por  fim  atalharam  antes  do 
tempo  e  com  descrédito  o  governo  de  António  de  Sousa,  e  até  foram  per- 


1  O  elogio  de  Roque  da  Costa,  e  esperanças  acerca  de  António  de  Sousa  de  Me- 
nezes podem  ler-se  na  carta  LXXXII,  do  vol.  II,  escripta  ao  marquez  de  Gouvéa. 

-  E  sobre  se  tirarem  as  capas  aos  homens  têm  dito  mil  lindezas  os  poetas,  sendo 
maior  a  novidade  d'este  anno  nestes  engenhos,  do  que  foi  nos  de  assiicar.  UM. 

N-  B.  Este  António  de  Sousa  de  Menezes  teve  por  alcunha  o  Braro  de  Prata,  por 
ter  uro  de  prata,  em  legar  do  que  perdera  na  guerra  de  Pernambuco,  onde  serviu,  e 
também  no  reino;  porém  com  mais  credito  de  valor  que  de  pericia,  diz  D.  António  Cae- 
tano de  Sousa,  H.  G.  da  C.  Real  P.  tom.  XII,  p.  II,  pag.  983.  Era  filho  de  Francisco  de 
Sousa  e  D.  Antónia  de  Noronha,  filha  de  D.  Rodrigo  Lobo,  senhor  de  Sarzedas.  Veja-se 
lid.,  tom.  XI,  pag.  89o. 


91 


(arbar  uo  seu  retiro  da  quiiilii  do  Tanque  o  plano  de  quietação  e  de  silen- 
cio, que  tinha  formado  António  Vieira. 

O  secretario  destado  da  Bahia,  que  era  eulão  Bernardo  Vieira  Ravasco, 
tiulia  regimento  real,  a  que  se  couforniava  no  expediente  dos  negócios. 
Quando  este  regimento  fosse  inconveniente,  devia  ser  suspendido  ou  mu- 
dado para  outro,  que  procedesse  da  mesma  origem ;  e  ao  menos  para  o 
mudar,  devia  um  governador  apresentar  mandado  régio,  que  o  auctorisasse 
para  fazer  similhante  nmdança.  Com  razão  ou  sem  ella  liouve  António  de 
Sousa  de  Menezes  por  inconveniente  o  regimento,  que  seguia,  como  era 
obrigado,  Bernardo  Vieira  ;  e  [)or  mero  arbitrio  lhe  ordenou,  que  seguisse 
outro.  Prejudicava  este  segundo,  pelo  que  parece,  os  interesses  do  secre- 
tario ;  que  assim  pela  illegalidade  do  procedimento,  como  pelo  seu  pre- 
juízo, se  determinou  a  fazer  representações  sobre  esta  matéria  em  Lisboa. 
D'esta  faísca  ê  que  conjectura  André  de  Barros,  que  se  ateou  o  grande 
incêndio ;  e  eu  lenho  por  muito  provável  a  sua  conjectura '.  As  represea- 
taçijes  de  Bernardo  Vieira  não  podiam  agradar  a  António  de  Sousa,  cujo 
desgosto  o  empenharia  naturalmente  em  actos  oppressivos  e  insolentes, 
que  accendessem  cada  vez  mais  o  secretario :  e  o  secretario,  que  na  prom- 
plidão  e  ardor  se  parecia  muito  com  seu  irmiío  António  Vieira,  é  de  pre- 
sumir que  niio  su[iportasse  com  grande  resignação  as  oppressões  e  insultos. 
Nesta  disposição  reciproca  dos  ânimos,  a  discórdia  devia  crescer  todos  os 
dias,  e  emfim  subir  a  exorbitante  altura,  em  se  oílerecendo  alguma  oppor- 
tuna,  ou  antes  importuna  occasião. 

Por  motivos,  que  não  chegaram  á  minha  noticia,  passou  António  de 
Sousa  de  Menezes  ordem  de  prisão  contra  o  filho  do  secretario  e  contra 
um  seu  sobrinho ;  os  quaes  só  procurando  refugio,  a  puderam  evitar.  Ao 
mesmo  secretario  suspendeu  do  exercício  do  seu  emprego ;  e  posto  que 
não  tardou  muito  em  o  restituir,  nem  por  isso  ficou  menos  viva  a  memoria 
do  aggravo.  Succedeu  neste  meio  tempo  ser  morto  (de  dia  e  em  rua 
publica,  por  António  de  Brito  de  Castro,  irmão  do  provedor  da  alfandega) 
um  grande  parcial  do  governador,  que  era  alcaide  mor,  e  se  chamava  Fraa- 


1  Veja-se  Barros,  1.  IV,  %  CXL  e  seg.  Supponlio  que  d'esta  representação  de  Ber- 
nardo Vieira,  é  que  falia  seu  irmão,  quando  diz  ao  marquez  de  Gouvéa  na  carta  LXXXII, 
vol.  II :  Se  ao  coiixellio  d'eslailo  sulnr  um  memorial  do  secretario  d'esle,  estimarei  muito 
que  se  não  saiba,  que  é  meu,  irmão  :  porque  bastará  esta  noticia,  para  que  lá  se  não 
emendem  as  injusiiras,  que  cá  se  lhe  fazem  só  por  essa  causa.  A  dita  carta  tem  a  data 
de  23  de  julho  de  1G82. 
7 


98 


cisco  Telles  de  Menezes.  O  governador  ao  receber  a  nova  d'este  successo, 
desceu  á  secretaria  pessoalmente,  e  mandou  metter  em  enxovia  Bernardo 
Vieira,  vedando-lhe  toda  a  communicação,  ou  de  palavra  ou  por  escripto*. 
Se  o  secretario  foi  ou  não  culpado  neste  crime,  poderá  duvidar  quem  tiver 
alguma  desconfiança  da  sentença,  que  por  ultimo  o  declarou  innocente : 
mas  o  modo,  por  que  neste  caso  se  portou  o  governador,  não  pôde  ser 
desculpado;  e  á  força  de  illegal  e  até  falto  de  conselho,  nos  preoccupa, 
por  sua  imprudência,  muito  em  favor  de  Bernardo  Vieira  e  da  sua  causa  •. 
Passou  adeaute  a  pouca  consideração  do  governador,  publicando  que 
o  delicto  fora  ajustado  na  uoite  antecedente,  assistindo  o  secretario  e  diri- 
gindo seu  irmão  o  ajuste  no  collegio  dos  jesuítas.  André  de  Barros,  que 
dá  esta  noticia,  affirma  ao  mesmo  tempo,  que  nem  Bernardo  Vieira  foi 
naquella  noite  ao  collegio,  nem  António  Vieira  sahiu  da  quinta  do  Tanque. 
Não  offerece  elle  prova  d'esta  affirmativa  ;  mas  se  a  respeito  do  secretario, 
por  sua  mesma  atrocidade,  é  a  imputação  muito  duvidosa,  a  respeito  de 
António  Vieira  é  totalmente  incrível.  Na  edade,  nos  antecedentes  hábitos, 
na  religião  de  António  Vieira,  se  era  possível,  não  é  verosímil  a  resolução 
monstruosa  de  mandai;  como  elle  se  expressa,  malar  homens,  e  de  os 
mandar  matar  por  aggravos,  que  ainda  que  tocavam  aos  seus,  não  eram 
comtudo  próprios^.  Decidiram  depois  juizes  competentes,  que  fora  invento 
da  calumnia,  recebido  com  muita  precipitação  pela  credulidade  apaixonada 
do  governador;  e  por  mais  filha  do  favor  que  se  queira  presumir  esta 
decisão,  é  forçoso  confessar,  que  tem  muito  ou  tudo  de  provável.  Ao  syn- 
dicante,  que  por  esta  occasião  foi  mandado  de  Lisboa,  pediu  António  Vieira 
com  instancia,  que  devassasse  d'elle  mesmo  com  rigor;  dando  a  vêr,  até 
por  este  pedido,  a  segurança  de  sua  consciência.  Talvez  se  julgue  que 
insisto  neste  ponto  mais  do  que  requerem  as  próprias  apparencias  delle : 
mas  a  justiça  deve  acudir  com  accommodada  defesa  aos  insultos  da  calu- 
mnia ;  que  não  contente  de  diffammar  António  Vieira,  procedeu  ao  arrojo 
de  o  condemnar  em  um  d'estes  juízos,  em  que  a  calumnia  mesma  serve 


1  Veja-se  Barros,  ibid. 

*  Bernardo  Vieira  foi  absolvido,  como  innocente,  por  sentença,  cuido  que  proferida 
em  1687.  Veja-se  a  cart.  CIX,  vol.  II. 

^  Também  vae  com  elle  Gonçalo  Ravasco  de  Albuquerqve,  o  qual  deixa  seu  pae  Ber- 
nardo Vieira  na  enxovia,  e  ao  padre  António  Vieira,  seu  lio,  criminado  de  mandar  matar 
um  homem,  etc.  Cart.  LXXXVtlI,  vol.  II,  e  LX  do  vol.  III. 


ôõ 


de  accusatior,  e  os  juizes  pelos  olhos  do  accusador  é  que  vêm  a  impor- 
tância 011  o  moiuenlo  das  allegaçuos. 

Sem  embargo  dos  excessos,  a  que  a  ira  do  governador  procedeu  contra 
Bernardo  Vieira,  inílingindo-llie  por  mera  e  leve  suspeita  pena  Ião  grave 
e  até  vergonhosa,  seu  irmão  Dcou  immovel,  e  chegou  a  parecer  com 
demasia  indiíTerente  á  oiipressão  e  opprobrio  de  um  parente  tão  conjuncto. 
Nolou-se  com  estranheza  esla  indifferença ;  e  julgaram-se  obrigados  os 
jesuítas  a  lembrar-lhe,  que  importava  satisfazer  a  Ião  justo  reparo'.  Não 
desacertava  António  Vieira  em  suppòr,  que  seria  mal  ouvido  de  quem,  sem 
atlender  ao  seu  parentesco.  aíTrontára  com  tamanha  temeridade  as  leis  e 
o  mesmo  decoro.  Comtudo  ficava-lhe  melhor  expôr-se  ás  dcsaltenções  da 
semrazão  por  tão  justificado  motivo,  do  que  parecer  insensível  aos  aggravos 
e  vilipêndios,  que  solTria  seu  próprio  irmão.  Por  esta  e  outras  considera- 
ções se  persuadiu  a  ir  ter  com  o  governador  e  representar-lhe,  que  pedia 
d'eile  a  justiça,  que  com  maior  socego  de  animo  remediasse  os  detrimentos 
e  irregularidades,  a  que  o  fogo  da  pai,\ão  o  linha  arrastado  no  primeiro 
ímpeto;  porque  se  á  fraqueza  humana  se  desculpa  o  esquecer-se  o  juiz  da 
sua  imparcialidade  no  accelerado  de  um  repente,  também  se  requer  de  um 
bom  discurso,  que  emende  depois  com  mais  accôrdo  os  desmanchos  da 
occasioual  precipitação  ^ 

Mas  a  libcnLide  de  bom  discurso  e  o  accôrdo,  que  d'ella  depende,  não 
tinham  ainda  renascido  em  António  de  Sousa  de  Menezes;  e  se  com  Ber- 
nardo Vieira  andara  in.solente  e  tyrannico,  com  seu  irmão  faltou  de  todo 
aos  primores  de  cavalheiro.  Km  vez  de  o  escutar  com  attenção  e  de  lhe 
deferir  como  julgasse  ipie  era  justo,  atalhou  as  suas  representações  com 
colérica  im|)aciencia,  allVontou  com  grosseiras  injurias  a  sua  corporação  e 
a  sua  pessoa,  e  de  sua  casa  arrojou  com  desprezo  um  sacerdote,  um  ancião 
e  um  homem  conhecido  e  admirado  por  seus  talentos  em  todos  os  legares 
do  domínio  de  Portugal,  e  em  outros,  e  muito  celebres,  fora  d'elle^ 
Aquelle  António  Vieira,  attendido  em  Paris  da  rainha  de  França  e  do  seu 
principal  ministro  Mazzarini,  valido  d'el-rei  D.  João  IV,  em  Lisboa,  pro- 
curado pela  rainha  de  Suécia  desde  Roma,  cortejado  pelos  duques  de 


»  Veja-se  André  de  Barros,  1.  IV,  §§  CXLVIII  e  CXLIX. 
»  Veja-se  a  carta  XCIII  do  II  voi.  As  cartas  e  André  de  Barros  não  explanam, 
indicam  só  a  substancia  da  representação. 
'  Ibid.  e  na  carta  seguinte. 


ioo 


Baviera,  de  Parma  e  de  Toscana,  recebeu  agora  em  uma  colónia  portu- 
guesa, em  logar  da  justiça,  que  pretendia,  os  insultanles  desprezos  de  um 
fidalgo,  que  abusava,  e  por  isso  mesmo  envilecia,  a  auctoridade,  que  lhe 
fora  commeltida.  Vieira  soffreu  com  louvável  comedimento  e  resignação ; 
porém  António  de  Sousa,  que  se  receou  de  queixa  sua  na  corte,  tratou  de 
se  prevenir,  dando  parte  a  el-rei  do  succedido,  nos  termos  menos  favorá- 
veis a  Vieira,  que  lhe  suggeriu  o  próprio  interesse ;  e  propondo,  como 
aggravo  feito  á  dignidade  do  seu  cargo,  o  que  verdadeiramente  foi  excesso 
seu  contra  o  direito  e  a  honra  de  Vieira. 

Partiram  da  Bahia  ao  mesmo  tempo  que  a  parte,  que  o  governador  deu 
para  Lisboa,  o  vereador  Manuel  de  Barros  da  Franca  e  Gonçalo  Ravasco 
de  Albuquerque.  Vinha  queixar-se  do  governador  em  nome  da  cidade 
Manuel  de  Barros  da  Franca ;  e  vinha  Gonçalo  Ravasco  solicitar  por  seu 
pae  Bernardo  Vieira,  e  por  si  mesmo.  A  conta  de  António  de  Sousa  ante- 
cipou as  queixas  e  solicitações  de  um  e  do  outro ;  e  fez  no  animo  d'el-rei 
o  ordinário  effeito  das  primeiras  impressões.  É  muito  para  desejar  e  é 
necessário,  que  todos  os  que  tèm  a  seu  cargo  regimento  de  homens  sus- 
pendam absolutamente  o  juizo  sobre  qualquer  causa,  em  quanto  não  for 
advogada  por  ambos  os  lados.  A  calunmia,  a  paixão,  mesmo  a  opinião 
sincera,  mas  errada,  sabem  pintar  com  enganosas  cores:  e  só  comparando 
uma  pintura  com  a  sua  contraria,  se  pôde  bem  alcançar  a  illusão  da  que 
é  capciosa  ou  simplesmente  falsa.  Mas  esta  cautela  não  é  menos  rara  do 
que  necessária  ;  e  pelo  commum,  a  primeira  informação  assenta  o  conceito, 
com  tanto  damno  da  justiça  e  verdade,  como  pouco  credito  do  intendi- 
mento  do  julgador.  Assim  assentou  neste  caso  o  conceito  del-rei  a  conta 
antecipada  de  António  de  Sousa  de  Menezes :  e  quando  chegou  á  sua 
presença  Gonçalo  Ravasco,  ouviu  da  mesma  bocca  do  soberano  a  declaração 
do  seu  desgosto,  pelas  formaes  palavras :  Estou  muito  mal  com  seu  tio 
António  Vieira,  por  descompor  o  meu  governador*. 

Posto  que  de  antemão  preparado  com  a  certeza  das  ingratidões  da 
pátria  (que  até  chegou  a  queima-lo  em  estatua  em  Coimbra)  ^  e  da  pouca 
inclinação  do  soberano;  a  noticia  d'estas  suas  palavras,  communicada  logo 


I  Carta  XCIV,  vol.  II. 

^  D'csta  (lesaUenção  ltucI  não  pôde  haver  duvida,  pois  que  Barros  a  refere  no 
1.  IV,  §§  CXXXV  e  XXXVI,  6  a  toca  Vieira  nas  cartas  LXI  e  LX  do  vol.  III :  porém 
ambos  affeclam  mysterio,  que  não  pude  penetrar. 


101 


por  Gonçalo  Ravasco,  foi  para  seu  tio  um  golpe  muito  penetrante,  com  que 
fraqueou,  confessa  elle  mesmo,  a  sua  constância.  No  mesmo  dia  caliiu  gra- 
vemente enfermo  e  passou  largo  lenipo  cm  cama,  com  freipienles  delírios 
e  em  muilo  risco  de  vida.  Teve  [lor  fim  ailivio ;  mas  nos  primeiros  mo- 
mentos da  convalescença  desafogou  em  queixas  amargas  por  cartas,  escri- 
ptas  ao  duque  de  Cadaval,  ao  marquez  mordomo-mòr,  e  a  António  Paes 
de  Sande  • ;  nas  quaes,  entre  as  declaraçiies  de  sentimento,  assenta  máxi- 
mas, insinua  desenganos,  que  muilo  melhor  estariam  no  seu  passado  com- 
portamento do  que  agora  nas  cartas.  A  larga  edade  com  muita  experiência 
de  António  Vieira  devia  tè-lo  muito  mais  fortalecido  contra  os  jogos  da 
fortuna,  as  injustiças  do  mundo  e  os  caprichos  dos  poderosos.  E  reflectindo 
nos  motivos  para  tal  fortaleza,  que  accrescentava  o  christianismo,  o  espe- 
cial instituto  e  a  resolução,  com  que  se  recolhera  na  quinta  do  Tanque, 
poderá  dobrar-se  a  nossa  admiração,  se  nos  não  lembrasse  ao  mesmo 
tempo,  que  não  ha  que  pasmar  de  fraquezas  da  humanidade,  sejam  quaes 
forem  os  sujeitos,  os  annos  e  as  mais  circumstaneias ;  e  que  a  incoherencia 
entre  a  especulação  e  obras  é  tão  commum  mesmo  nos  mais  intendidos, 
que  a  sua  sabedoria  parece  que  se  reputa  mais  obrigada  a  ostentar-se  por 
vozes  e  por  escriptos,  do  que  a  governar  bem  o  teor  das  próprias  acções. 

Se  António  de  Sousa  de  Menezes  preoccupou  el-rei  contra  António 
Vieira,  as  queixas  da  Bahia  não  foram  inteiramente  desprezadas :  e  houve 
só  uma  differença,  que  não  foi  comtudo  pequena,  nem  muito  desculpável. 
El-rei  creu  sem  mais  exame,  as  accusações  contra  Vieira;  e  não  creu  as 
queixas  contra  António  de  Sousa,  senão  depois  de  verificadas  pela  infor- 
mação, que  procurou,  de  pessoas  graves*.  Determinado  por  esta  infor- 
mação, deu  por  acabado  o  governo  de  António  de  Sousa,  e  despachou  para 
o  seu  logar  o  marquez  das  Minas. 

Com  o  marquez  das  Minas,  que  chegou  á  Bahia  antes  de  julho  de  1684, 
foi  um  syndicante,  de  cuja  rectidão  não  parece  Vieira  totalmente  satis- 
feito, no  que  toca  ao  negocio  principal  da  Bahia.  Em  tal  perturbação  dos 
dnimos,  se  é  muito  de  suppôr  que  as  dihgencias  e  outros  recursos  dos 


1  São  as  cartas  XCIl,  XCIII,  XCIV  do  vol.  II.  Succedeu  aqui  realmente  a  Veira  o 
que  elle  censurava  no  sornião  da  Hainlia  Santa  Isabel  (vol.  II,  sermão  I.  N.  IV) :  Se 
tendes  pouco  juizo  e  pouco  corarão,  podem-vos  matar  (os  reis)  com  uma  carranca,  ou 
com  um  voltar  de  olhos. 

'  Veja-se  a  carta  XCIV,  vol.  II. 


102 


culpados,  e  até  a  compaixão  da  saa  sorte,  inclinem  a  balança  ila  justiça : 
também  o  é,  que  a  vingança  dos  aggravados  de  tudo  desconfie  e  nmrmure, 
e  que  o  fumo  das  paixões,  erguido  ainda  e  denso,  ou  ao  juiz  não  deixe 
vèr  bem  a  verdade,  ou  aos  observadores  interessados  represente  mal  o 
recto  procedimento  do  juiz.  O  que  posso  affirmar  é,  que  da  devassa  do 
syndicante  resultou  a  Bernardo  Vieira,  culpa  de  que  não  chegou  a  ser 
livre  senão  em  1C87,  depois  de  grandes  trabalhos  e  detrimentos ;  e  que 
da  conta,  que  em  acto  separado  da  devassa  principal  deu  a  el-rei  acerca 
de  António  Vieira,  [procedeu  no  monarcha  o  conhecimento  de  que,  era 
declarar  por  tal  modo  o  seu  desgosto,  faltou  á  justiça,  e  faltou  mesmo  à 
delicadeza,  que  convinha  usar  com  tão  distincto  vassallo  *. 

Com  ser  isto  certo,  não  sei  comtudo  por  que-  razão  e  por  que  modo 
António  Vieira  foi  mandado,  em  consequência  d'esle  negocio,  castigar  por 
mão  dos  seus  superiores.  D'aqui  se  coliige  bem,  que  a  não  lhe  valer  a 
imraunidade,  não  seria  tratado  com  mais  favor  do  que  o  secretario.  Uma 
testimunha  bastou,  como  diz  Vieira,  para  criminar  seu  irmão  ^;  e  é  de 
crer,  que  uma  só  attestasse  também  da  culpa  do  jesuíta.  E  em  tal  caso  foi 
um  velho  venerável,  por  effeito  do  dito  de  testimunha  única,  não  só  infa- 
mado de  delicto  gravíssimo,  mas  submettido  ao  rigor  e  ao  opprobrio  da 
pena  I  Do  rigor  da  pena  o  isentou  a  convicção,  que  os  superiores  tinham 
da  sua  innocencia :  da  infâmia  porém  e  do  opprobrio  só  o  podia  absolver 
a  imparcial  consideração  dos  sisudos,  sempre  poucos ;  ou  o  desengano  do 
tempo,  sempre  vagaroso.  A  parte,  que  nisto  teve  a  devassa  do  syndicante, 
não  pude  alcançar  com  distincção ;  mas  conjecturo,  que  d'ella  se  tirou  azo 
para  ministros  parciaes  satisfazerem  aos  seus  maus  affectos  ou  ao  dos  seus 
amigos.  Vieira  nas  suas  cartas  toca  repetidas  vezes  e  em  termos,  que 
indicam  profundo  sentimento,  em  certos  desembargadores,  que  eu  suspeito 
que  seriam  estes  ministros  parciaes '.  Pôde  ser  que  o  sentimento  indicado 
seja  de  parcialidade  usada  com  os  seus  parentes ;  mas  dado  que  foi  usada 
com  os  seus  parentes,  fica  mais  que  provável,  que  o  fosse  com  elle  mesmo, 
cuja  causa  e  respeito  não  só  tinham  sirailhança,  mas  até  perfeita  identidade. 

Por  um  d"estes  successos,  que  ao  modo  de  ver  humano  são  casuali- 
dades, e  que  todavia  são  muito  reparados  e  reparáveis,  a  rainha  D.  Maria 


»  Barros,  1.  IV,  §  CLXXXIII. 

2  Veja-se  a  citada  carta  XCIV,  vol.  II. 

"  Yejam-se  as  cartas  CU,  CIY,  GV  do  vol.  II  e  LXIV  do  lU. 


103 


Francisca  tinha  fallecido  três  mezes  e  meio  depois  de  seu  repudiado  ma- 
rido el-rei  D.  Affouso:  e  a  violência  da  morte  uniu  por  esta  forma  os  que 
tiuiia  separado  a  repugnância  das  vontades  •.  A  frota,  em  que  foi  para  a 
Bahia  o  marquez  das  Minas,  levou,  julgo  eu,  esta  noticia  cm  iG84,  e  o 
governador  snppoz-se  obrigado  a  celebrar  as  exéquias  da  rainha,  em  que 
desejava  ostentar  a  maior  magnificência.  O  desenho  da  fabrica  e  adornos 
pôz  á  conta  de  Bernardo  Yieira,  em  quem  o  animo  grandioso  egualava  os 
grandes  poderes  de  rica  e  vasta  imaginativa :  e  o  discurso  fúnebre  encar- 
regou a  António  Yieira ;  querendo  que  com  a  grandeza  dos  apparatos 
dissesse  o  preço  da  oração.  Vieira  escusou-se  a  principio  com  a  enfermi- 
dade, falia  do  dentes  e  de  voz,  e  todos  os  outros  achaques  da  velhice:  porém 
instando  o  marquez,  em  que  nisso  levaria  gosto  sua  mageslade,  esta  só  pala- 
vra bastou  para  que  elle  intendesse,  que  não  devia  replicar  -.  Pregou  com 
effeito  na  misericórdia  da  Bahia  em  11  de  setembro  de  1G84,  e  o  seu 
discurso  é  notável  por  servir  de  occasião  a  outros,  ou  por  ser  o  primeiro 
annel  da  cadeia  de  empenhos  e  desempenhos  da  palavra  de  Deus  e  do  pre- 
gador, que  possuímos  entre  os  mais  sermões.  As  subtilezas  de  Vieira, 
ajudadas  aqui  do  desejo  de  agradar,  o  induziram  a  prometter  futuros  feli- 
zes; e  a  correspondência  d'elles  o  induziu  a  promessas  ainda  mais  avul- 
tadas que  as  primeiras.  Porém  o  acontecimento  frustrou  ou  desvaneceu  as 
segiuidas ;  e  o  pregador  teve  de  recorrer  a  toda  a  sua  agudeza,  para 
desculpar  a  temeridade  dos  vaticínios.  A  causa  era  tão  fraca,  que  toda  a 
sua  dexteridade  foi  insuíliciente  para  a  defesa :  mas  o  estado  decrépito  não 
lhe  empeceu;  e  sou  de  opinião,  que  Vieira,  então  de  oitenta  e  um  ânuos 
de  edade,  não  se  sahiria  melhor,  se  com  menos  quarenta  emprehendesse 
a  mesma  apologia. 

No  sermão  das  exéquias,  aventurou-se  a  prometter  grandes  accrescen- 
tamentos  de  prole  na  real  família,  reduzida  nesse  tempo  a  cl-rei  e  á  prin- 
ceza,  sua  Qiha.  A  temeridade  até  aqui  não  era  desmarcada.  El-rei  não 
passava  de  trinta  e  seis  aniios;  possuía  saúde  e  vigor  de  constituição;  e 
o  reino  tinha  necessidade  do  fiadores  ao  throno.  E  posto  que  el-rei  hesitou 
sobre  passar  a  segundas  núpcias,  determinou-se  emfim  a  tomar  por  esposa 
a  princeza  de  Neoburgo,  de  quem  lhe  nasceu  em  1688  o  príncipe  D.  João. 


1  El-rei  D.  Allonso  falleceu  a  12  de  setembro,  a  rainha  D  Maria  Francisca  a  27  de 
dezembro  de  1683. 

í  Yeja-se  a  carta  XCUI,  vol.  U. 


i04 


Este  pleno  desempenho  da  divina  palavra  empenhada  nas  exéquias  da 
rainha  D.  Maria  Francisca,  levou  Vieira  a  empenhar  a  sua ;  promeltendo 
ao  príncipe  recemnascido,  no  sermão  de  acção  de  graças,  duração  de  vida, 
proezas,  gloria,  e  por  seu  meio  Iodas  as  prosperidades  portuguesas,  que 
de  Vieira  eram  esperadas,  como  temos  visto,  com  tamanha  antecipação.  A 
perspicácia  do  orador  e  a  sua  cautela  falhou  neste  ponto;  a  morte  do 
príncipe  veio  promptamente  confundi-lo,  e  sequer  adverlí-lo  de  que  era 
necessário,  ou  aventurar-se  menos,  ou  aventurar-se,  deixando  sempre  re- 
ciirso,  de  que  podesse  lançar  mão  no  caso,  muito  possível,  de  um  contra- 
tempo. Com  esta  advertência  não  se  quiz  porém  dar  por  vencido;  e  em 
um  papel,  que  offereceu  á  rainha,  sustentou  o  empenho  a  todo  o  seu 
poder  e  com  grandes  protestos  de  confiança.  Uma  prova  comtudo  de  que 
esta  confiança  menos  estava  no  animo  do  que  nos  protestos,  acho  eu  no 
expediente  de  offerecer  o  papel  á  rainha  era  muito  segredo.  Vieira  confiava 
da  credulidade  de  uma  senhora  desejosa  de  prole  multiplicada,  que  achasse 
valentia  nas  suas  razões  a  favor  d"este  supposto;  mas  não  esperava  tanto 
da  sagaz  malícia,  e  mesmo  da  critica  imparcial  do  publico  '. 

Até  á  morte,  um  argumento  de  sinceridade  nesta  matéria,  presumiu 
Vieira  de  ler  no  futuro,  e  persistiu  em  esperar  as  grandes  venturas  ao 
reino  e  á  Igreja,  de  que  dava  conta  a  D.  Rodrigo  de  Menezes  e  a  outros 
muitos  entre  lOGO  e  1675.  Na  sua  correspondência,  depois  de  retirado  na 
Bahia,  se  encontra  o  mesmo  advertido  reparo  nos  cometas,  e  o  mesmo 
receio  dos  seus  efleitos  temerosos.  O  notável  escripto,  que  se  intitula  Voz 
de  deus  ao  mundo,  a  Portugal  e  á  Bahia,  foi  composto  em  novembro  de 
169S,  ou  um  anno  e  oito  mezes  antes  do  seu  fallecimento ^.  Vè-se  deste 
escripto,  em  que  a  erudição  compete  com  a  credulidade,  que  elle  não 
ignorava  os  gracejos  dos  bem  humorados,  e  o  conceito  mais  ponderado 
dos  philosophos:  mas  sabia  e  notava,  que  até  a  certeza  e  horror  da  morte 
tem  sido  objecto  de  facécias  para  os  levianos;  e  desconfiava  de  uma  philo- 
sophia,  que  não  tinha  profundado,  e  que  imaginava  pouco  christã  e  muito 
própria  para  accrescentar  descuido  da  emenda  dos  costumes.  Scaliger  e 
os  seus  parciaes  uão  reputava  juizes  mais  competentes,  que  Manilio  e  o 
poeta  Mantuano;  e  achava  na  opinião  d'estes  gentios  mais  senso  e  gravi- 


'  O  sermão  das  exéquias,  pregado  cm  1G84,  o  de  acção  de  graças,  pregado  em 
1688,  o  papel  offerecido  á  raiulia  em  1689,  formam  o  todo  da  palavra  empenhada  e 
desempenhada  e  defendida;  e  acliam-se  juntos  e  seguidos  uo  tom.  XIII  dos  sermões. 

2  Veja-se  o  tom.  XIV  dos  sermões,  pag.  22o. 


105 


dade,  que  na  il'aq)ielles,  que  com  empli.ise  appellida  de  Evangélicos  •.  Assim 
que,  o  empenho  da  palavra  divina  e  da  sua,  c  a  insistência  na  apologia, 
ainda  que  se  eucaniinliassem  a  conlenlar  a  côrle  e  a  manter  o  credito  do 
orador,  nem  por  isso  deixavam  de  ter  algum  principio  na  própria  per- 
suasão. 

Quando  em  dezembro  de  1688  pregou  de  acção  de  graças  pelo  nasci- 
mento do  príncipe  D.  João,  os  grandes  trabalhos  da  sua  família  tinham 
cessado  pela  sentença  do  anno  antecedente,  e  elle  pudera  ir  gosando  em 
mais  descanço  do  seu  retiro  do  Tanque:  mas  no  principio  d'esle  mesmo 
anno  de  1088  lhe  expediu  o  novo  geral  da  companhia  patente  para  gover- 
nar os  jesuítas  daquella  parle  da  America;  por  cujo  elTeito  foi  forçado  a 
largar  o  retiro,  e  vir  dirigir  desde  o  collegio  da  Bahia  os  negócios  da 
sociedade,  e  principalmente  os  das  missões.  O  zelo  e  ardor,  com  que 
neste  emprego  se  portou  Viaira,  não  parecem  de  edade  tão  avultada  e  de 
sujeito  tão  quebrantado  por  moléstias  e  desgostos;  e  podem  avaliar-se  pelo 
que  elle  mesmo  dizia,  pedindo  com  grande  empenho  o  allivio,  antes  de  ter 
fim  o  triennio  da  commissão :  Isto  não  <■  para  quem  enthisica,  e  passa  as 
noites  inteiras  sem  dormir,  dando  tratos  ao  vttendimenlo,  e  não  tirando  d'eUe 
mais  que  ais  e  clamores,  que  não  são  oncidos  *.  Tantas  missões,  tão  varias. 
Ião  remotas,  tamanha  pobreza  de  operários,  tanta  indocilidade  e  tantas 
repugnancias  das  colónias  requeriam  na  verdade  muita  ponderação  dos 
remeilios,  muita  diligencia  e  egual  discreção  cm  os  applicar;  e  por  tal 
modo  se  achava  tudo  isto  no  actual  visitador,  que  a  sociedade,  zelosa  e 
intendida  de  seus  proveitos,  insistiu  em  lhe  recusar  o  allivio  procurado 
com  anciã  e  com  o  fundamento  de  causas  não  menos  notórias  que  justifi- 
cadas. 

Não  era  possível  tratar  das  missões,  sem  nisso  fazer  um  serviço  avul- 
tado ao  reino;  a  que  as  missões,  ao  passo  (pie  adquiriam  vassallos,  dimi- 
nuíam pela  mesma  razão  obstáculos  e  inimigos.  E  porque  o  serviço  do 
Estado  andava  nesta  parte  unido  com  o  accrescenlameuto  da  Igreja;  os 
missionários,  e  por  todos  elles  o  seu  principal  director,  precisavam  muitas 
vezes  do  favor  politico;  em  muitas  outras  do  auxilio  dos  seus  cabedaes; 
6  em  todas  do  seu  consentimento  e  perfeito  accordo.  Esta  necessidade 
punha  Vieira,  emquanto  visitador,  na  de  se  corresponder  com  el-rei  e  os 


•  Veja-se  todo  o  papel  no  vol.  XIV  dos  sermões;  e  particularmente  os  niiiiieros 
289  e  290. 

*  Estas  palavras  allega  Barros  no  1.  IV  §  CCXI. 


106 


seus  ministros;  dando  conta  dos  successos,  pedindo  providencias  e  pro- 
pondo á  solução  dilDculdades,  ou  á  auctoridade  legitima  mudanças  sugge- 
ridas  pela  experiência.  Mandava-lbe  el-rei  replicar  com  benegnidade,  e 
acudia  com  todos  os  signaes  de  attender  distinctamente  a  sua  pessoa,  e 
de  favorecer  o  negocio  das  missões,  até  pelo  respeito  do  visitador.  Con- 
servou-nos  André  de  Barros  uma  carta  escripta  de  Salvaterra  em  1092, 
em  que  el-rei  responde  a  outra,  ou  outras  de  Vieira,  escriptas  quasi  no  fim 
do  seu  triennio ',  e  nella  se  pôde  vèr,  em  que  conceito  tinha  o  seu  espi- 
rito e  serviços,  e  como  se  julgava  obrigado  a  premiá-los  com  louvor  e 
agradecimento:  moeda  de  muito  preço  para  um  homem,  como  António 
Vieira,  e  que  aos  reis  não  custa  senão  dispensa-la  com  justiça,  e  por  isso 
mesmo  com  economia  ^. 

A  propósito  da  carta,  não  posso  resolver-me  a  passar  em  silencio  uma 
bem  notável  de  Vieira,  escripta  pelo  tempo  da  sua  visitação,  e  por  cum- 
primento com  seu  ofiQcio.  Governava  Pernambuco,  como  pastor  e  como 
governador,  o  bispo  d'aquella  diocese  em  1689.  Succedeu  nesta  occasião, 
que  um  delinquente  se  acolhesse  ao  collegio  da  companhia,  como  a  logar 
de  refugio.  Pediram  as  justiças  seculares  o  refugiado;  recusaram  os  jesuítas 
a  entrega,  alleg?ndo  suas  immunidades  por  privilégios  pontifícios  e  ordens 
reaes ;  e  o  bispo  governador  deu  ordem  para  lhe  levarem  presos  os  padres 
e  o  delinquente.  Deste  procedimento,  que  naqueile  tempo  e  da  parte  de 
um  bispo  parece  precipitado,  c  que  Vieira  pediu  satisfação  em  carta  de  6 
de  fevereiro  do  dito  anno,  que  é  a  mesma,  de  que  falíamos.  Barros,  a 
quem  devemos  a  copia  formal,  affirma  que  d'ella  resultou  o  desejado  elTeito. 
Não  refere  comtudo  a  maneira  por  que  o  bispo  de  Pernambuco  deu  satis- 
fação á  sociedade.  É  porém  certo,  que  se  uma  carta  por  si  só  a  podia 
merecer,  neste  caso  estava  a  de  Vieira:  exceiiente  exemplar,  em  que  a 
força,  e  força  não  pequena,  é  temperada  pelo  modo  mais  feliz  com  a  sua- 
vidade; em  que  á  justiça  requerida  não  faz  prejuízo  o  tom  de  comedimento 
6  submissão;  e  em  que  a  cortez  urbanidade  de  termos  e  pensamentos 
accrescenta,  em  vez  de  diminuir,  à  razão  a  sua  própria  energia  ^. 

As  distracções,  procedidas  da  contenda  entre  os  seus  e  António  de 


•  Barros  (ibid.,  §  CCKIII)  oflerece  a  copia. 

2  Se  com  justiça,  claro  é  que  nunca  com  profusão;  e  é  evidente  que  sempre  com 
acerto. 

'  Veja-se  Barros  1.  IV,  §  CGVI  pag.  473. 


107 


Sonsa  de  Menezes,  as  occnpações  do  encargo  de  visitador,  e  as  moléstias 
frequentes,  se  retardaram,  não  estorvaram  inteiramente  a  diligencia  de 
apurar  os  sermões  pai-a  se  darem  á  estampa.  O  segundo  volnnie,  que 
sahiu  impresso  em  168:2,  foi  em  juulio  de  1681  licenciado  peia  religião  no 
collegio  da  Bahia :  donde  tiro,  que  o  auctor  o  levava  muito  adiantado, 
quando  cinco  mezes  antes  partira  de  Lisboa.  Ao  marcjuez  de  Gouveia  na 
frota  de  168á  dá  c^uta  de  enviar  o  terceiro,  que  se  publicou  em  1683,  e 
a  mesma  conta  dá  do  quarto  em  junho  d'este  ultimo  anuo  a  Diogo  Marchão 
Themudo;  se  bem  que  o  quarto  se  não  publicou  antes  de  1683.  Correram 
entre  a  publicaíjão  do  quarto  e  do  quinto  quatro  ânuos :  porém  não  foram 
quatro  ânuos  de  suspensão  d"este  trabalho,  pois  que  as  duas  partes,  que 
se  intitulam  Maria,  Rosa  wi/stica,  e  na  serie  dos  sermões  se  contam  nona 
e  decima,  foram  publicadas  em  1686  e  1688.  Em  3  de  agosto  de  1684, 
promettia  Vieira  mandar  o  quinto  volume  por  unia  nau  retardada  do  mesmo 
anuo:  mas  pela  ponderação  de  algumas  circumstancias  me  capacito  de  que 
elle  entende,  no  dito  logar,  por  quinto  volume  a  primeira  parte  da  Rosa 
mi/slica,  e  que  o  que  hoje  se  conta  como  quinto,  designava  António  Vieira 
com  o  numero  de  sétimo  '. 

O  anuo  de  1690  viu  publicar  o  tomo  sexto,  e  antes  oitavo,  com  a 
palavra  empenhada  e  desempenhada.  A  publicação  d'esla  ultima  obra  não 
se  deveu  a  Vieira ;  mas  foi  uma  industria  do  duque  de  Cadaval,  que  a  fez 
estampar  com  a  elegância,  que  é  de  ver  no  tomo  decimo  terceiro,  sobre 
uma  copia,  que  talvez  com  aviso  do  andor  se  lhe  communicou  em  grande 
mysterio.  Os  tomos  nono  e  decimo,  agora  sétimo  e  oitavo,  foram  impressos 
em  1692  e  1694.  Sahiu  em  1696  o  tomo  undécimo  e  ultimo  dos  que  se 
imprimiram  em  vida  de  Vieira.  O  duodécimo,  posto  que  o  auctor  o  apurou 
e  poz  no  ultimo  estado,  não  se  estampou  senão  depois  da  sua  morte;  e 
veio  da  Bahia  no  mesmo  navio,  em  que  veio  a  noticia  d'este  successo  ^. 
Foram  por  tanto  as  treze  partes  dos  sermões  revistas,  ou,  como  elle  diz, 
joeiradas  por  António  Vieira,  e  estampadas  por  seu  arbítrio  e  mandado; 
ficando  só  a  ultima  (volume  decimo  quarto)  dependente,  para  a  collecção 
6  disposição,  do  zelo  e  arbítrio  dos  seus  amigos. 


»  A  carta  citada  é  a  XCIV  do  vol.  II  Com  effeito  se  elle  reputou  V  e  VI  os  dois 
tomos  da  Rosa  myxtica,  devia  reputar  VII  o  que  agora  se  conta  V:  e  é  certo,  que  o 
que  na  ordem  da  impressão  corresponde  ao  que  elle  diz  na  carta,  é  o  que  agora  se  diz 
parte  IX,  impresso  em  1686,  quando  a  carta  é  datada  de  684. 

2  Barros  ibid.,  §  CCXLIX. 


108 


Vinte  annos  e  mais  gastou  Vieira  em  apurar  e  ordenar  os  sermões, 
compreiíendidos  em  treze  volumes  *;  espaço  na  verdade  largo  para  tal 
empresa,  que  justifica  a  relardação,  que  insinuámos,  procedida  de  occu- 
pações,  desgostos,  e  principalmente  moléstias.  O  clima  da  Bahia  sobre 
sadio  para  todos  era  muito  apropriado  aos  annos  e  achaques  de  António 
Vieira:  mas  não  ha  clima  perfeitamente  adaptado  á  velhice;  ou  por  outros 
termos,  não  ha  clima,  em  que  a  velhice  deixe  de  o  ser.  O  da  Bahia  além 
d'isso  alterou-se  nestes  annos  por  causas  exteriores;  e  supposto  que  Vieira 
e  seu  companheiro  escaparam  ao  contagio,  é  de  presumir,  que  a  alteração 
despertasse,  pelo  menos,  ou  as  moléstias  habituaes,  ou  as  morbosas  pro- 
pensões. Erysipelas  frequentes,  sezões  com  grande  apparalo  o  tiveram  em 
cama  em  varias  occasiões  e  por  muito  tempo.  Duas  vezes  se  estropeou 
cahindo  por  escadas,  como  já  lhe  succedera  em  Roma.  Os  dois  sentidos 
da  vista  e  ouvido  embotaram-se  quasi  totalmente;  e  por  fim  nem  podia 
ler,  nem  ouvir  ler;  e  nem  mesmo  entregar-se  ás  suas  orações  e  medita- 
ções pelo  espaço  e  com  a  assiduidade  do  seu  costume  e  do  seu  desejo  ^. 
Presidia  comtudo  um  espirito  inteiro  ao  corpo  já  meio  desfeito;  e  nem  o 
ardor  dos  affectos  e  elevação  de  empenhos,  nem  o  claro  conhecimento  de 
seu  ruinoso  estado,  diziam  com  o  desbarato,  aliás  notório,  de  um  corpo 
quasi  nonagenario. 

Em  1694  sentia  elle  já  a  sua  impossibilidade  pouco  menos  que  com- 
pleta: e  todavia  quem  consultar  as  suas  cartas,  escriplas  desde  o  dito 
anno,  e  conservadas  no  segundo  e  terceiro  volume,  observará  o  mesmo 
affecto  encarecido  aos  negócios  de  Portugal  e  seus  domínios  na  Ásia  e 
America;  achará  noticia  do  voto  sobre  os  Índios  dos  paulistas,  offerecido 
(e  admirado)  por  aquelie  tempo;  e  mesmo  a  noticia  de  que  ainda  preten- 
dia continuar  a  Clave  dos  prophrias  ^.  Acabou  só  com  o  ultimo  alento  a 
propensão  de  discorrer  sobre  politicas;  e  se  na  carta  noventa  e  Ires  do 
terceiro  volume,  escripta  em  16'J7,  se  pôde  estranhar  algum  incenso  diri- 
gido á  rainha  da  Grã-Bretanha ;  também  se  pôde  notar  a  gravidade  e 
acerto,  com  que  pondera  os  eíleitos  de  paz  dilatada,  e  os  riscos,  a  que 


1  Lidava  em  apurar  o  primeiro  volume  já  em  1676,  e  oceupava-se  com  o  duodé- 
cimo no  de  1697. 

2  Barros  1.  IV  §§,  CCXXXV,  e  CCXXXVI.  Cum,  molestissima  lotii  emissione,  iionnisi 
raptim  in  Sacello,  et  ad  breve  tempus  morari  posset.  Andreóni.  Veja-se  not.  1,  pag.  325. 

3  Acerca  do  voto  sobre  os  Índios  dos  paulistas,  e  da  continuação  da  Clave  dos 
prophetas,  podem  ver-se  as  cartas  CXLIV  e  CXLV  do  vol.  II,  ambas  escriptas  em  1695. 


109 


elles  nas  presentes  probabilidades  tinham  exposto  este  reino.  Politica 
parece  ser  o  assumpto  valido  de  Vieira.  A  penetração  e  actividade  própria, 
o  gosto  da  sociedade  jesuítica  e  o  do  sen  tempo,  a  necessidade,  em  que 
se  achara  um  português,  que  tinha  aportado  a  Lisboa  em  IG41,  e  que 
fora  encarregado  de  negociações  em  varias  cortes,  Indo  contribuiu  para 
produzir  e  reforçar  esta  inclinação,  que  Vieira  nunca  venceu,  e  que  talvez 
nimca  pretendeu  vencer;  ainda  que  reconhecesse  em  algum  caso  a  conve- 
niência de  dar  aos  outros  satisfação  do  excesso,  de  que  aqui  podia  ser 
com  bastante  fundamento  censurado  *. 

O  claro  conhecimento  do  seu  estado  ruinoso  não  pôde  pôr-se  em  duvida, 
depois  da  resolução  que  elle  tomou,  e  quanto  esteve  da  sua  parte  executou, 
de  concluir  no  dito  anuo  de  1094  as  suas  correspondências  para  o  reino. 
D.  Theodosio,  irmão  do  duque,  era  fallecido  desde  U)7á,  e  D.  Rodrigo  de 
Menezes  desde  1675.  Mas  com  o  marquez  de  Gouveia,  até  que  morreu  em 
168G,  com  o  duque  de  Cadaval,  Ghristovam  de  Almada,  o  conde  da  Cas- 
tanheira, Roque  da  Costa  Barreto,  seu  irmão  o  cónego  Francisco  Barreio 
e  Diogo  iMarchão  Themudo  íicou  conservando  communicação  annual  por 
cartas.  Communicava-se  também  com  o  celebre  conde  de  Castello  Melhor, 
o  mesmo  ministro  e  valido  del-rei  D.  Affonso  VI,  que  o  fez  desterrar 
para  o  Porto  e  Coimbra,  e  por  ventura  o  fez  deter  nos  cárceres  da  Inqui- 
sição; e  são  de  notar  os  termos  de  confiança,  com  que  o  conde  o  tratava 
nas  suas  cartas,  e  a  devoção,  com  que  Vieira  lhe  correspondia :  verificando 
ambos  exactamente  o  provérbio  discreto  dos  ingleses,  que  os  políticos  nem 
amam,  nem  aborrecem  *.  De  todos  elles  se  mandou  pois  despedir  em  carta 
circular,  como  quem  se  reputava  sem  capacidade  para  proseguir,  e  tão 
vizinho  dos  limites  da  eternidade,  que  não  devia  admittir  já  cuidados  ou 
memorias  próprias  só  da  vida  caduca,  que  a  cada  instante  esperava  total- 
mente extiocta  '. 

O  intento  de  Vieira  por  esta  circular  era  desobrigar-se  de  correspon- 
der, e  desobrigar  lambem  os  correspondentes.  Mas  não  o  logrou  com 


'  bem  conheço,  senhor,  que  esta  matéria  não  é  da  minha  profissão,  mas  como  nos 
incêndios,  e  nos  outros  apertos  e  necessidades  geraes,  neniium  estado  é  iseiUo,  utc.  Carta 
LXXXV  do  vol.  III  escripta  ao  duque  de  Cadaval. 

»  Vejam-se  as  cartas  CVI,  CXXXII  e  CXXXV  do  vol.  II.  Os  conflictos  procedem 
da  collisão  dos  interesses,  e  cessando  elia,  o  coulliclo  não  tem  niaislogar:  os  políticos 
fizeram  sempre  a  guerra,  como  presentemente  a  fazem  os  generaes  da  Europa. 

'  A  circular  é  a  carta  CXLU  do  vol.  II. 


HO 


alguns  d'elles.  Houve  quem  usasse  a  delicadeza  de  escrever  logo  ao  seil 
companheiro  o  padre  José  Soares;  querendo  continuar  por  este  modo  o 
trato,  que  Vieira  se  propunha  interromper  por  outra  via.  O  duque  de 
Cadaval  porém  não  só  escreveu  directamente  a  Vieira,  mas  declarou,  com 
as  expressões  mais  próprias  a  obrigá-lo,  o  seutimento  de  não  ser  exce- 
ptuado da  despedida,  como  intendia  que  era  devido  á  finura  e  constância 
da  sua  amizade  '.  Estes  extremos  do  duque  e  as  delicadezas  de  outros 
fazem  grande  honra  ao  caracter  dos  correspondentes,  e  não  fazem  menos 
a  Vieira;  pois  que  só  do  conceito  de  um  merecimento  muito  acima  do 
vulgar  podiam  proceder  tão  finos  comportamentos,  da  parte  de  pessoas  de 
tal  importância,  para  com  um  jesuíta  nonagenario,  retirado  em  um  canto 
ignorado  e  deserto  de  regiões  separadas  pela  immensidade  do  oceano.  Não 
era  possível  a  Vieira  repulsar  as  pretensões  extremosas  do  duque,  e  con- 
tinuou assim  a  escrever-lhe  e  ao  seu  secretario  até  ao  ultimo  anuo,  e  ainda 
ultimo  mez  da  sua  vida. 

Um  anno  antes  se  tinha  elle  recolhido  para  o  collegio  da  Bahia,  dizendo 
adeus  à  quinta  do  Tanque.  Não  era  seu  fim  neste  recolhimento  buscar  saúde, 
nem  vida,  senão  um  género  de  morte  mais  socegado  e  quieto  2.  A  isto  se  reduzem 
as  maiores  esperanças  terrenas  do  homem,  que  por  annos  ou  por  achaques 
se  suppõe  chegado  ao  ultimo  termo!  Com  o  vigor  se  têm  desvanecido  os 
phanlasmas,  que  dantes  o  illiidiam  e  o  desvelavam;  e  então  reconhece, 
que  puerilmente  correra  por  abraçar  meras  sombras,  que  ao  desfazerem-se 
só  deixam  a  confusão  do  engano.  E  verdadeiramente  que  se  a  justa  espe- 
rança de  immortaiidade  não  sustentasse  o  animo  de  um  decrépito,  que 
conserva  algum  uso  de  intendiniento,  a  vergonha  das  vãs  lidas  antece- 
dentes, a  desconsolação  acerbissima  de  ficar  todo  na  terra  de  um  sepulchro, 
accrescentariam  cruel  intensidade  ás  lentas  e  comludo  vivíssimas  agonias 
de  morte  vagarosa.  E  eis  aqui  um  dos  muitos  casos,  em  que  a  religião  é 
remédio,  e  remédio  único,  dos  males  de  uma  espécie,  cuja  essência,  como 
a  prática  e  especulação  convencem,  prende  com  os  sublimes  dogmas  da 
vida  futura,  ~e  de  um  Deus  remunerador.  O  homem  seria,  sem  religião, 


'  Veja-sc  uma  carta  do  duque,  que  no  vol.  III  se  segue  á  LXXXVI  de  Vieira:  e 
sa  carta  CXLV  do  vol.  11  se  acha  a  noticia  dos  que  sobre  a  circular  de  despedida  llie 
escreveram,  ou  directameute,  ou  por  via  do  padre  José  Soares. 

2  Veja-se  a  carta  LXXXVI  do  vol.  III,  a  3  de  jullio  de  iG96,  dirigida  ao  jesuíta 
Balthazar  Duarte. 


111 


desde  o  dia,  em  que  nasce,  até  âquelle,  em  que  se  dissolve,  o  menos 
ditoso  dos  animaes,  e  também  o  mais  maligno  e  o  mais  turbnlenlo. 

Entre  os  braços  da  religião,  alentado  com  o  poderoso  couforlalivo  dos 
seus  remédios,  e  na  consoladora  conQauça  de  suas  promessas,  acabou  o 
padre  António  Vieira  na  primeira  hora  do  dia  18  de  jullio  de  1097,  aos 
oitenta  e  nove  ânuos  e  seis  mezes  completos  de  cdade.  No  antecedente 
estado  de  prostração  e  de  soflrimento  ainda  dictava  aos  amanuenses,  tanto 
para  pôr  em  limpo  o  duodécimo  volume  dos  sermões,  como  para  adiantar 
a  Clave  dos  prophelas  '.  Foi  detido  em  princípios  de  julho  por  dores  agu- 
díssimas, que  a  medicina  ainda  se  lisongeava  de  remediar;  mas  a  condição 
do  sujeito  já  não  podia  ajudar  os  esforços  da  medicina,  e  a  um  apparente 
e  passageiro  allivio  se  seguiu  maior  arrojo,  que  trouxe  comsigo  a  morte. 

A  estimação,  em  que  era  lido  geralmente,  appareceu  nas  honras  fune- 
raes.  O  governador  e  capitão-general  da  Bahia  D.  João  de  Lencastre,  por 
seu  cargo  e  por  sua  pessoa  uma  das  maiores  de  Portugal,  o  filho  do  go- 
vernador, o  bispo  eleito  de  S.  Thomé,  e  outros  sujeitos,  que  melhor  se 
podiam  ajustar  com  os  três  primeiros,  conduziram  á  sepultura  o  cadáver,  e 
só  faltou,  por  impedido  de  moléstia  grave,  o  arcebispo  da  diocese^.  E  a  Bahia, 
que  tinha  presenciado  com  indignado  i  eparo  as  desattenções  de  Aulonio 
de  Sousa  de  Menezes,  viu  com  alta  approvação  emendado  aquelle  erro  pela 
bizarria  de  um  dos  seus  successores,  verificando-se  á  risca  o  profundo  e 
acertado  dictame,  que  se  o  merecimento  c  algumas  e  muitas  vezes  desaltendido 
na  presença,  sempre  com  tudo  vem  a  ser  honrado  na  ausência  dos  que  o 
possuein. 

A  nobreza  de  Portugal  não  se  mostrou  em  Lisboa  mais  indifferente  á 
memoria  de  Vieira.  Ao  chegar  no  principio  de  novembro  do  dito  anno  a 
noticia  do  seu  fallecimento,  resolveu  fazer-lhe  exéquias  sumptuosas  um 
mancebo  do  melhor  do  reino;  que  por  seus  talentos  era  já  uma  das  es- 
peranças mais  bem  fundadas  da  nação,  e  que  depois  por  seu  ardente  amor 
da  gloria,  por  suas  diligencias  e  trabalhos,  foi  o  mais  eíDcaz  restaurador 
das  letras,  e  um  dos  nossos  mais  esplendidos  ornamentos  naquelle  tempo. 


*  Barros,  1.  IV,  §  CCXXXVII,  e  Andreóni,  na  vida  de  Vieira,  escripta  em  latim,  que 
se  acha  no  vol.  XIV  dos  sermões,  pag  293. 

*  Veja-se  Barros,  ibid.  §§  CCXLV,  CCXXVI,  e  Andreóni  1.  c  D.  João  de  Lencastre 
era  filho  de  D.  Rodrigo  de  Lencastre,  commendador  de  Coruche,  e  foi  capitão-general 
e  governador  de  Angola,  e  depois  da  Bahia,  desde  1G94  até  1703. 


ií2 


Na  igreja  de  S.  Roque  se  levantou  mausoléu  soberbo,  e  dissefam  com 
elle  as  mais  circumstancias  de  apparato;  correspondendo  tudo  á  larga  e 
honrada  fama  de  Antoniu  Vieira,  e  ao  grande  coração  do  quarto  conde  da 
Ericeira  D.  Francisco  Xavier  de  JVIenozfs  *.  No  dia  aprazado,  que  foi  17 
de  dezembro  seguinte,  com  um  numeroso  e  luzido  concurso  do  reino  todo, 
junto  uaquella  occasião  em  cortes,  celebrou  a  missa  o  bispo  de  Leiria 
D.  Álvaro  de  Abranches  e  Gamara,  e  disse  por  fim  a  oração  fúnebre  o 
theatino  D.  Manuel  Caetano  de  Sousa,  um  dos  portugueses  mais  acredi- 
tados de  doutrina  da  sua  edade.  Trinta  e  três  annos  depois  durava  ainda 
bem  viva  a  opinião  egrégia  de  Vieira,  e  a  lembrança  de  suas  exéquias, 
celebradas  no  templo  de  S.  Roque ;  e  uma  e  outra  estimularam  o  grandioso 
animo  del-rei  D.  João  V  a  mandar,  que  se  imprimisse  a  oração,  recitada 
por  D.  Manuel  Caetano  de  Sousa-:  approvando  por  este  modo  o  nobre 
eathusiasmo  do  conde  da  Ericeira,  e  honrando  o  nome  de  um  português 
insigne,  que  no  reinado  seguinte  devia  ser  calumniado  e  envilecido;  mas 
a  que,  sem  embargo  das  calumnias  do  ódio,  não  deixará  de  fazer  justiça 
o  conceito  de  remota  posteridade. 


Temos  referido  com  a  maior  exacção,  que  nos  foi  possível,  a  historia 
do  padre  António  Vieira:  largamente  copiosa  em  successos,  e  não  menos 
vária  nas  empresas  e  fortunas ;  para  a  philosophia  do  homem  muito  instru- 
ctiva,  e  por  sua  mesma  cópia  e  variedade  até  muito  entretida,  a  não  lhe 
obstarem  os  vicios  e  defeitos  da  nossa  relação.  Na  dilatada  carreira  de 
mais  de  oitenta  e  nove  annos,  com  extraordinária  e  constante  actividade, 
com  diversos  e  grandes  talentos  para  a  cultura  das  lettras,  para  os  negócios. 


1  Barros,  ibid.,  CCXLIX  até  CCLXI.  O  quarto  conde  da  Ericeira,  então  de  23  annos 
annos  de  edade,  era  fillio  de  D.  Luiz  de  Menezes,  auctor  do  Portugal  Restaurado.  Des- 
aggravou  Vieira  das  censuras,  cora  que  seu  pai  o  notara  na  historia,  e  a  que  Vieira 
não  foi  de  todo  indilTerente,  como  é  claro  das  cartas,  e  em  particular  da  CXVIII  do 
vol.  II  e  CXII  do  mesmo  volume.  Ouvi,  diz  elle  nesta  ultima,  que  a  historia  de  V.  E. 
me  louvava  com  descrédito,  ou  me  desacreditava  com  louvores,  e  porque  eu  depois  que 
fugi  do  mundo,  tão  pouco  estimo  uns,  como  sinto  os  outros,  contentei-me  com  que  estas 
noticias  me  entrassem  por  um  sú  sentido,  e  este  foi  o  motivo  do  que  o  senhor  marquez  das 
Minas  e  o  senhor  eonde  de  Alvor  referiram  a  V.  E. 

2  Veja-se  André  de  Barros,  liv.  IV,  §  CCLXI.  A  oração  foi  impressa  em  1730,  e 
cl'ella  nos  servimos  para  a  conlii'mação  do  alguns  factos. 


113 


para  o  serviço  da  religião  e  da  igreja,  offerece  na  sua  vida  avultada  silva 
de  acoiilecimeiítos,  que  não  podem,  ainda  apenas  indicados,  comprehender-se 
em  breve  escriptura.  Não  será  muito  estranha  exageração  dizer,  que  poucos 
principes  reinantes,  poucos  generaes  insignes  com  nmitos  annos  de  milícia, 
poucos  ministros  creados  e  encanecidos  na  direcção  e  governo  dos  estados, 
talvez  nenliem  homem  de  letlras,  terão  deixado  á  diligencia  do  seu  his- 
toriador mais  crescido  numero  de  factos,  nunca  desprezíveis,  quasi  sempre 
graves,  e  algumas  vezes  muito  relevantes. 

E  se  isto  só  nos  pode  justamente  admirar,  muito  mais  nos  admiraremos 
na  consideração  de  que  nunca  deu  aos  estudos  applicação  bem  aturada; 
de  que  aos  negócios  diplomáticos  renunciou  ainda  antes  de  tocar  o  meio 
da  sua  vida ;  de  que  |)ara  as  empresas  religiosas  foi  detido  na  edade  juvenil, 
e  depois  atalhado  ou  impedido  quasi  no  primeiro  fervor  do  seu  empenho; 
e  finalmente  de  que  graves  moléstias  e  desgostos  o  tiveram  nos  últimos  vinte 
annos,  como  captivo  em  uma  solidão  campestre;  onde  se  occupou  em 
pouco  mais  do  que  pôr  em  limpo  os  seus  sermões,  e  continuar  uma  obi'a, 
que  ou  se  perdeu,  ou  jaz  ignorada,  e  certamente  não  saiu  a  publico  pela 
impressão,  e  nem  sequer  recebeu  do  auctor  o  seu  ultimo  complemento  *. 

Se  esta  abreviada  historia  não  fez  ver  o  seu  caracter,  a  ella  se  deve 
dar  em  culpa ;  pois  que  só  guarda  bem  as  suas  leis,  quando  representa 
com  verdade  e  com  propriedade  os  successos,  e  mostra  por  elles  as  Índoles 
e  propensões  dos  homens.  Porém  seja  ou  não  seja  nesta  parte  defeituosa, 
o  leitor  não  pôde  levar  a  mal,  que  se  dè  allivio  á  sua  attenção,  ajuntando 
os  traços  por  toda  a  historia  dispersos,  e  oíTerecendo  a  um  só  golpe  de 
vista  a  imagem  inteira,  em  que  reconheça  unido  o  que  nas  partes  notou 
em  separado :  logrando  ao  mesmo  tempo  a  satisfacção  de  ver  justificadas 
as  próprias  observações  e  a  facilidade  de  avaliar  a  exacção  do  nosso  pa- 
recer. 

O  espirito  de  António  Vieira  era  agudo  e  promplo;  mas  o  seu  coração 
era  pouco  sensível.  .V  sua  firme  adhesão  à  sociedade  dos  jesuítas  não  pa- 
rece tanto  procedida  de  amor,  como  de  propósitos  honrados.  Discursou, 
trabalhou  com  anciã  pelo  bem  da  pátria ;  porém,  com  ser  o  seu  amor  da 
pátria  indubitável,  parece  aqui  mais  obrigado  do  desejo  de  realizar  e  con- 
sagrar suas  idéas  politicas,  do  que  dos  aflectos  ardentes  e  puros  de  ci- 


•  A  Clave  dos  Prophetas  ficou  incompleta.  Veja-se  a  esle  respeito  Andreóni,  vol.  XIV 
dos  sermões  de  Vieira,  pag.  294. 


Il4 


dadão.  Subjugou  iielle  e  governou  todas  as  outras  paixões  o  gosto  da 
singularidade  ou  o  desejo  de  ser  uuico  em  pensamentos  e  acções,  não  só 
superior;  e  d'ai]ui  cuido  que  resultaram  muitas  das  suas  conlradicções, 
que  não  foram  poucas,  nem  [)eqiienas. 

Não  temos  noticia  de  algum  seu  pai  ticular  amigo,  salvo  se  reputarmos 
tal  o  seu  copista  o  padre  José  Soares ;  porém  se  nos  inclinamos  a  crer, 
que_José  Soares  era  amigo  verdadeiro  e  desvelado  de  Vieira,  não  o  julgamos 
perfeitamente  correspondido  '.  Em  três  volumes  das  suas  cartas  não  lia 
uma  só,  que  nos  pareça  dictada  por  cordial  amizade.  Recebeu  com  estóica 
indilferença  a  noticia  do  naufrágio  de  sua  irmã  com  toda  a  sua  familia  ^ : 
e  se  mostrou  grande  sentimento  dos  desgostos  e  trabalbos  de  seu  irmão 
e  sobrinlio,  não  parece  tanto  ser  efifeito  de  ternura,  como  do  estimulo  de 
se  vêr  nas  suas  pessoas  desauclorisado  e  abatido. 

De  incoherencia  e  conlradicção  deixou  argumentos  muito  reparáveis. 
Amava  com  paixão  a  gloria,  e  não  fazia  grande  caso  dos  applausos:  lison- 
jeava-se  das  attenções  e  caricias  dos  príncipes  e  senhores,  e  deixava  facil- 
mente e  sem  saudade  as  cortes:  empenliava-se  no  mundo  luzido,  com  desejo 
e  arte  para  nelle  representar  com  distincção,  e  quando  elle  parecia  cor- 
responder-llie  melhor,  trocava-o  por  um  deserto  nas  ribeiras  do  Amazonas: 
era  vario  emfim  e  inconstante,  e  deu,  entre  outros,  dois  insignes  exemplos 
de  perseverança,  cm  que  fallaremos  logo;  um  dos  quaes  me  parece  admi- 
rável sobre  tudo  o  que  se  pôde  admirar  no  sujeito  e  comportamentos  d'este 
homem  extraoadinario. 

O  desar  porém,  que  pôde  provir  de  um  coração  menos  brando,  de 
affectação  de  singularidade,  e  das  conlradicções,  que  julgo  nascidas  d'este 
principio,  foi  corrigido  ou  remediado  no  caracter  de  António  Vieira  por 
dotes  e  qualidades  de  miiila  estimação,  que  não  devo  passar  em  silencio. 
Uma  única  vez  se  atreveu  a  calumnia  a  notar  os  seus  costumes;  e  foi  le- 
galmente desmentida  ^.  Se  era  des|)egado  e  secco,  todavia  não  consta  que 
fosse  ingrato.  Se  da  valia  própria  tinha  grande  conceito,  não  lia  razões  de 


'  O  padre  José  Soares,  jesuíta,  natural  de  Lisboa,  nasceu  em  1625.  Foi  compa- 
nheiro inseparável  de  Vieira  e  seu  amanuense  por  espaço  de  42  aniios,  ao  menos. 
Sobreviveu-llie  dois  annos,  ou  perto  d'elles,  dando  os  mais  decididos  argumentos  de 
saudade  extremosa.  Teniio  para  mim  que  Vieira,  se  llie  sobrevivesse,  faria  menos  ex- 
tremos. 

í  Barros,  1.  V,  §§  LXVI  e  LXVII. 

3  Barros,  1.  III,  §|  XVII  e  seg. 


115 


o  ter  por  anogante.  Sempre  e  finamente  fiel  á  sua  crença,  egual  fidelidade 
guardou  em  todo  o  caso  ao  seu  insliliilo.  Mostrou  gravidade  propriamente 
varonil  nas  idéas  e  acções  de  todas  as  edades  da  vida ;  de  maneira,  que 
se  alguma  vez  pareceu  reparavel,  não  se  assignará  occasião,  em  que  pare- 
cesse pequeno.  Nos  perigos  portou-se  com  valor;  dos  trabalhos  nunca 
pareceu  cansado,  e  muito  menos  rendido:  as  contrariedades  do  mundo,  os 
rigores  da  fortuna,  só  em  um  lance  o  deixaram  prostrado;  mas  é  verdade 
que  então  lhe  sobejava  motivo  de  queixa,  e  por  elTeito  dos  annos  e  acha- 
ques lhe  faltava  grande  parte  da  sua  natural  energia  '. 

De  um  voto  (vindo  agora  aos  exenii)los  indicados  de  perseverança)  feito 
na  maior  verdura  e  inconsideração  dos  primeiros  annos,  e  logo  annullado 
pela  prudência  dos  que  respeitava  como  altamente  intendidos,  conservou 
sempre  a  memoria  e  a  sui)slancial  tenção  de  lhe  dar  cumprimento.  Correu 
tempo  e  largo  tempo;  viajou  Vieira  por  diversas  regiões;  tractou  e  co- 
nheceu grande  mundo,  e  muito  \.iriii;  occupou-se,  e  com  muito  séria  ap- 
plicação,  em  negócios,  do  seu  voto  bem  alheios ;  foi  divertido  em  contrario 
por  poderosas  distracções,  tentado  cora  commodos  e  applausos,  alliciado 
por  esperanças  lisonjeiras:  mas  durou  firme  a  sua  resolução  de  peregrinar 
por  brenhas  e  inattos  virgens,  dado  unicamente  ao  ensino  de  homeus  boçaes, 
e  á  consolação  de  miseráveis  escravos.  Venceu,  para  a  pôr  em  prática, 
fortes  obstáculos  com  a  mesma  ellicacia,  brio  e  até  artificiosa  industria, 
que  pôde  empregar  um  mancebo  ardente  para  possuir  o  objecto  da  sua 
liaixão  impetuosa  -.  Illudido.  atalhado,  repellido,  atlrontou  inimizades,  em- 
I)rehendeu  viagens,  solTreu  naufrágios,  provou  crua  rapacidade  de  piratas; 
e  não  duvidou  expõr-se  de  novo  aos  mesmos  ou  maiores  desastres,  á 
mesma  destemperança  de  climas,  á  mesma  aspereza  de  terras,  para  iuclar 
oulia  vez  com  a  ignorância  estúpida  de  selvagens,  e  com  as  mesmas  in- 
gratidões, injustiças  e  aleivosias  dos  homens,  que  sem  duvida  reputava 
inseparáveis  companheiras  do  seu  projecto  tão  valido. 

Este  notável  exemplo  de  perseverança  é  com  tudo  ainda  excedido  pelo 
da  illustre  firmeza  na  religião  catholica,  cm  que  foi  educado.  Um  espirito 
tão  vivo  e  subtil,  tão  prezado  de  si  mesmo,  parecia  naturalmente  disposto 


•  Vieira  passava  de  "(í  annos,  quando  por  seu  sobrintio  Gonçalo  Ravasco  teve  no- 
ticia das  expressões  de  desagrado  proferidas  por  el-rei  I).  Pedro  II. 

*  Alludi'-se  ii  grande  diligencia  e  mesmo  astucia,  com  ijue  procurou  embarcar 
para  o  Maranhão,,  contra  a  vontade  e  ordem  d'el-rei  D.  João  IV,  da  rainlia  D.  Luiza,  e 
do  príncipe  D.  Theodosio.  em  I6'ó± 


H6 


a  passar  com  nlrevimento  os  limites,  que  a  fé  tem  assignado  á  razão 
humana.  A  sua  singularidade  era  pelo  menos  muito  arriscada  a  deixar-se 
tentar  da  satisfacção  e  gloria  de  novos  systemas,  a  que  elle  sabia  bem  pro- 
curar fundamentos  especiosos  e  dar  as  mais  plausíveis  apparencias  de  ver- 
dade. Mas  conteve  sempre  á  risca  a  su;i  subtileza;  sujeitou  invariavelmente 
o  próprio  orgulho;  a  propensão  à  singularidade,  a  que  se  entregava  em 
quasi  tudo,  sacrificou  sempre  com  primoroso  e  intendido  obseijuio  ás  de- 
cisões e  máximas  da  sua  igreja.  Esteve  em  França  e  Inglaterra;  viveu  em 
Hollanda ;  leu  os  seus  livros,  examinou  as  suas  opiniões,  observou  os  seus 
usos,  conferiu  com  os  seus  doutores;  e  nenhuma  destas  occasiões  foi  po- 
derosa a  desvial-o  de  qualquer  dos  pontos  menos  importantes  da  primeira 
crença.  E  oque  é  mais  que  tudo,  notado  em  suas  idéas  e  discursos,  impugnado 
em  suas  apologias,  repreheudido,  condemnado  por  temerário:  defendeu-se, 
em  quanto  lhe  foi  licito,  com  respeito ;  resignou-se  por  lim  com  submissão 
de  catholico;  e  sobre  as  matérias  controvei'lidas  guardou  depois  inviolável 
silencio  com  moderação  de  verdadeiro  sábio. 

Se  o  caracter  de  António  Vieira,  com  ser  insigne  e  estimável,  não  foi 
perfeiío;  o  seu  talento,  bem  que  raro  e  sublime,  não  foi  completo.  A  in- 
tendimento  estupendo,  a  memoria  felicíssima,  não  se  ajuntou  poderosa 
phantasia  e  a  imaginação  rica  e  suave,  que  tudo  pinta,  tudo  anima,  tudo 
torna  interessante  ou  com  viva  propriedade  de  cores,  ou  pelo  grave  mo- 
vimento e  vida  das  imagens,  ou  [)or  mimosa  brandura  de  affectos  *.  A 
comprebensão  era  vastíssima,  a  elevação  ou  profundidade  eram,  soíi'ra-se 
um  termo  encarecido,  immensas,  a  rectidão  e  coherencia  e  até  a  promplídão 
eram  realmente  admiráveis.  A  todos  os  objectos,  a  todas  as  matérias 
abrangia,  como  disposto  e  preparado  para  todas.  As  mais  remontadas 
questões  sabia,  sem  lhes  diminuir  a  aiicloridade,  pôr  ao  alcance  fácil  dos 
ouvintes  e  leitores;  as  mais  profundas  sabia  tirar  do  seu  abysmo  e  fazer 
accessiveis  ao  conhecimento  vulgar;  as  mais  escuras  sabia  trazer  á  con- 
veniente clareza,  as  mais  empeçadas  sabia  dispor  em  ordem  bem  natural 
e  desimpedida.  Ainda  quando  refinava  ou  se  guindava  em  raciocínios, 
quando  desenvolvia  metaphysicas,  quando  explicava  mysterios,  tudo  era 
intelligivel  e  plano  nos  seus  discursos  e  escriptos:  prova  segura  de  que 


•  Vieira  euc;imialia-se  ao  intendimento  sempre;  ao  coração  quasi  nunca,  ou  com 
pouco  eITeito.  Apertar,  convencer  era  o  seu  dom;  mover  fortemente  e  ainda  deleitar 
por  aíTectos  não  sabia.  Nisto  era  parecido  com  Bourdaloue,  a  quem  eu  supponho  que 
elle  poderia  emparelhar,  se  não  exceder. 


117 


tudo  alcançou  como  era  necessário,  tudo  propunha  sem  confusão,  tudo 
declarava  com  adequada  conveniência  '. 

No  pasmoso  progresso  desde  a  primeira  edade,  ua  antecipação  aos 
ânuos  e  á  doutrina  das  escliolas,  no  mesmo  arrojo  temerário  a  obras  gra- 
víssimas, ainda  dentro  ou  qnasi  dentro  dos  limites  da  puerícia,  se  conhece 
a  promptidão  e  fecundidade  de  seu  espirito.  Porém  torna-se  evidente  com 
assombro,  quando  se  observa  o  numero  e  facilidade  de  suas  composições, 
o  disparatado  dos  assumptos,  a  variedade,  com  que  manejou  o  mesmo 
assumpto  por  muitas  vezes,  a  subtileza  dos  recursos,  o  engenhoso  das 
soluções,  o  improviso  e  inesperado  das  coartadas.  Pôde  ser  arriscado,  e 
quasi  sempre  é  impertinente  aquelle  espirito,  que  não  recusa  paradoxos, 
que  os  segue  por  vontade,  que  os  sustenta  com  apparencia;  mas  nunca 
pode  ser  lardo.  E  uem  com  este  argumento  de  promptidão  nos  faltou  o  de 
Autonio  Vieira.  Deixando  o  duello,  que  o  levou  a  compor  a  preeminência 
das  lagrimas  de  Heraclito;  os  seus  sermões  abundara  de  paradoxos,  que 
segue  sem  coacção,  e  que  sustenta  com  engenho:  e  d"alguns  delles  se 
aproveitou  para  o  accusar  a  inimizade,  qunndo  lhe  pareceu  que  era  tempo '^. 
Não  os  condemno  no  mesmo  sentido,  em  que  a  inimizade;  porque  os  não 
julgo  merecedores  de  tão  séria  imputação:  mas  também  não  os  louvo. 
Reprovando  com  tudo  sophismas,  posto  que  mantidos  com  destreza,  sou 
obrigado  a  confessar  a  promptidão  maravilhosa  do  sophista. 

Parece,  que  cora  o  gosto  e  até  frequência  de  paradoxos  se  não  pode 
conciliar  b"m  a  rectidão  e  coherencia  de  intendimento,  que  eu  disse  que 
admiro  em  António  Vieira.  .Mas  advirta-se  que  o  gosto  de  paradoxos  não 
era  em  Vieira  natural,  era  facticio.  Torcido  pela  opinião  do  século,  esti- 
mulado pelo  desejo  da  fama,  allucinado  pelo  mesmo  successo,  abusou  de 
um  intendimento  preparado  para  melhor  ap|)licação.  A  prova  sem  replica 
é,  que  todas  as  vezes  que  fallou  ou  escreveu  sem  o  propósito  de  satisfazer 
a  ouvidos  corruptos,  e  de  grangear  o  applauso  de  juizes  subornados  pelo 
mau  gosto  dominante,  não  fallou  e  escreveu  mais  que  razão  apurada,  pro- 
posta em  todo  o  caso  com  decoro  ^  Elle  era  o  primeiro  que  conhecia  e 


1  Xão  ha  uma  composição  de  Vieira,  que  não  mostre  muita  capacidade  de  inten- 
dimento, sufflciente  ordem,  e  expressão  clarissima  dos  seus  conceitos. 

*  Da  sentença  contra  elle  proferida  na  Inquisição  de  CoimJjra  consta,  que  foi  lam- 
bem delatado  de  alguns  d'estes  paradoxos :  v.  g.  que  os  lioitmis  sãn  inimigos  e  tentadores 
peores  que  o  demónio:  emiirésa  do  sertnão  XI,  vol.  I. 

'  É  o  que  se  vè  claramente  nas  cartas  e  papeis  de  negocio.  E  o  mais  é,  que  nas 
cartas,  ainda  respondendo  ao  secretario  do  duque  de  Cadaval,  que  inclinava  muito 


118 


por  veutura  motejava  das  suas  paradoxaes  empresas.  Se  alguma  vez  as 
defendeu  em  occasião,  que  re(|iieiia  maior  sinceridade,  guardemo-nos  de 
confundir  o  real  conceito  de  um  liomem  com  o  que  elie  sustenta  empe- 
nhado em  viva  disputa  por  capricho,  uu  levado  da  natural  inclinação  para 
repulsar  imputações  menos  airosas:  e  muito  principalmente  quando  possue 
um  espirito  fecundo  em  recursos  e  proniptissimo  em  evasivas,  como  era 
sem  duvida  o  de  Vieira.  Ostentava  oiro  falso,  não  por  desconhecer  que  o  era, 
mas  sim  porque  tratava  com  quem,  sem  admittir  desengano,  o  preferia  ao 
verdadeiro.  E  se  por  isso  se  pode  notar  de  demasiada  condescendência, 
não  pôde  todavia  condemnar-se  de  erro  ou  de  má  fé. 

Em  prova  da  coherencia  hasta  notar,  que  nos  discursos  e  escriplos  de 
António  Vieira  não  ha  lacunas,  não  ha  saltos.  Tudo  prende  entre  si,  tudo 
se  continua  de  um  modo,  que  ás  vezes  parecerá  superQuo  *.  E  esta  o, 
entre  outras  razões,  a  razão  da  sua  perspicuidade,  que  não  pôde  ser  ex- 
cedida, e  por  poucos  tem  sido  egualada.  Nos  princípios,  que  assenta,  po- 
dereis pôr  duvida ;  e  em  muitos  e  muitos  casos,  ou  para  melhor  na  maior 
parte  d"elles,  tereis  razão:  mas  se  por  um  descuido,  ou  por  condescen- 
dência, deixais  de  o  atalhar  desde  logo,  a  occasião  é  perdida  sem  remédio, 
a  sua  victoria  é  infallivel.  Elle  os  joga  segundo  as  regras  mais  rigorosas, 
e  colhe  resultados,  que  o  intendimento  mais  exacto  deve  ter  por  necessários. 
O  seu  paralogismo  nunca  pecca  senão  nas  premissas  do  raciocínio;  estas 
cria  a  seu  prazer,  ou  antes  ao  dos  ouvintes  e  mais  circumstancias :  mas  uma 
vez  creadas,  o  parologista  desapparece,  e  fica  unicamente  o  lógico  previsto 
e  incorruptível,  a  que  o  fio  jamais  escapa  das  mãos,  e  que  jamais  llie  con- 
sente desviar-se  um  só  ponto  da  sua  direcção  verdadeira.  Se  em  occultar 
o  defeito  dos  fundamentos  não  pôde  o  sophista  ser  muito  sagaz,  na  cohe- 
rencia e  rectidão,  com  que  argumenta  depois,  ostenta  uma  sinceridade, 
que  ou  nos  preoccupa  em  seu  favor,  ou  nos  obriga  em  certo  modo  a 
perdoar-lhe  o  defeito  dos  fundamentos. 

A  erudição,  que  adornava  este  espírito  raro,  não  deixava  de  ser  avul- 


para  o  gosto  do  tempo,  Vieira  não  se  deixa  tentar,  por  mais  que  o  estylo  e  o  desejo  dn 
correspondente  o  estimulavam.  Apenas  uma  ou  outra  pennada  por  conformidade  e  de 
pura  cortezia. 

>  Sem  damuo  da  inteireza  e  clareza  do  discurso  se  podem  supprimir  algumas 
idéas,  e  em  particular  certas  repetições.  O  uso  geral  o  admitte,  e  a  discreta  concisão 
o  requer.  Mas  o  discurso  de  Vieira  é  tão  seguido,  que  antepõe,  peio  comnium,  alguma 
prolixidade. 


119 


lada  '.  O  seu  conhecimento  das  Kscripturas  era  profundo;  o  das  obras  dos 
padres  e  da  historia  ecclesiaslica  era  vasto.  Conhecia  bera  a  Ihcologia  da 
sua  egreja,  a  philosophia  do  seu  tempo.  Não  parece  hospede  na  liistoria 
dos  povos  antigos;  e  muito  menos  na  dos  modernos  da  Europa.  Os  me- 
lhores clássicos  romanos,  c  particularmente  Virgilio,  Tácito  e  Séneca, 
mostra  tratar  com  grande  familiaridade;  c  dos  portugueses,  tanto  em  verso, 
como  em  prosa,  mostra  noticia  cabal,  e  até  i»ronipta  memoria.  É  verdade 
que  a  sua  doutrina,  supposta  a  felicidade  de  talentos,  larga  vida  e  iniciação 
desde  logo  em  estudo  de  leltras,  poderá  ser  maior  e  sobre  tudo  mais 
escolhida  e  critica:  porém  alteudendo  ás  occupações  e  distracções  con- 
tinuas, admira  que  fòssc  tamaidia ;  e  atlendendo  ás  opiniijes  dos  portu- 
gueses e  em  particular  dos  jesuítas  contemporâneos,  o  defeito  de  escolha 
e  de  exame  mais  rigoroso  facilmente  se  desculpa.  A  vida  de  Vieira,  muito 
mais  depois  de  16iO,  foi  antes  de  um  diplomático  e  de  um  missionário, 
que  de  um  litterato:  e  a  critica,  com  ser  a  esse  tempo  no  resto  da  Europa 
muito  comedida,  reputava-se  ainda  entre  nós  perigosa  temeridade. 

Na  philosophia  da  natureza  astronómica  (e  é  de  crer  que  também  da 
subhinar)  padeceu  Vieira  o  mesmo  defeito  e  pelos  mesmos  motivos.  As 
opiniões  antigas,  resusciladas  por  Copérnico,  e  condemnadas  em  Itália,  dá 
elle  em  um  dos  seus  discursos  por  bem  condemnadas,  por  isso  .mesmo 
que  encontram  as  supposições  das  santas  Escripturas  '.  Não  faltará  quem 
d'isto  o  reprehenda  com  rigor,  como  não  falta  quem  moteje  dos  inciuisi- 
dores  de  Florença,  que  arguiam  e  castigavam  Galileu  de  ler  achado  a  irr- 
dade.  .Mas  em  tal  caso,  a  prudência  deve  antes  lastimar-se  da  condição 
mofina  do  género  humano,  do  que  rir  de  juizes,  que  qualquer  de  nós 
imitaria,  se  o  fosse  nas  mesmas  circumstancias.  Preoccupações  de  séculos, 
ajudados  fortemente  pelas  apparencias,  de  accordo  com  o  theor  dos  livros 
sagrados,  não  eram  obstáculo  pequeno  ao  acolhimento  de  uma  theoria, 
que  posto  que  verdadeira,  era  estranha;  e  que  não  só  não  podia  ser  pro- 
fundada sem  algum  trabalho,  mas  até  não  podia  ser  altendida  sem  escrú- 
pulo. Quem  julga  juizes  pelas  idéas  do  tempo  do  julgador,  e  não  pelas  do 


'  CoDhece-se  bem  pelo  trato  das  suas  obras.  Alguma  vez  tem  clle  a  fraqueza  de  fázor 
ostentação  v.  g.  no  vol.  Vil,  sermão  V.  Ostentação  pueril!  em  que  caem  raramente  as 
pessoas  bem  doutas:  e  que  prova  tão  pouco,  que  eu  duvidara  da  doutrina  de  Vieira, 
por  isso  mesmo  que  em  certos  casos  a  ostenta,  se  outros  argumentos  me  não  certifi- 
cassem  que  a  possuía. 

*  Veja-se  o  sermão  VI,  vol.  V  %  Vil. 


120 


tempo  d'elleSj  tia  a  ver,  que  no  seu  logar  commetteria  cerlamenie  o  mesmo 
erro:  e  contra  similhantes  motejadores  é  que  foi  arremessado  com  tanta 
justiça,  como  engenho,  aquelle  pungente  traço,  zombas  de  uma  fabula,  rjtie 
é  comtudo  a  tua  própria  historia  *. 

O  conceito,  que  aqui  offerecemos,  da  doutrina  de  Vieira  a  ninguém 
pôde  parecer  exaggerado;  e  o  dos  seus  talentos  lambem  o  não  deve  pare- 
cer a  quem  tem  algum  trato  dos  seus  escriptos.  Ou  se  perdeu,  ou  se  con- 
serva ainda  manuscripta  em  poder  dos  curiosos,  boa  parte  dos  que  elle 
compôz:  mas  bastam  para  o  avaliar  bem  ao  justo  os  que  correm  impres- 
sos: 8  que  se  reduzem  a  cartas,  opúsculos  pragmáticos,  obras  históricas 
e  sermões  2.  Daremos  conta  de  todos,  seguindo'esta  mesma  ordem. 

A  formosura  do  estylo  epistolar,  parecendo  fácil  de  conseguir,  não  é 
todavia  como  parece.  Depende  de  um  descuido  curioso,  de  uma  desaffe- 
ctação  considerada,  que  nos  termos  são  de  algum  modo  repugnantes,  e 
que  em  prática  se  realizam  muilo  poucas  vezes.  A  negligencia  produz 
desordem,  impropriedades  e  talvez  um  rasteiro  intolerável;  apurado  em- 
penho communica-lhe  um  ar  de  trabalho  e  de  violência,  indica  pretensões 
muito  pouco  opportunas,  tira  a  liberdade  e  facilidade,  em  que  principal- 
mente consiste  a  graça  e  doçura  da  conversação.  Uma  pessoa  pouco  culta 
não  pôde  escrever  bera  uma  carta :  mas  a  que  o  é  muito,  deve  esque- 
cer-se,  quando  escreve,  da  sua  doutrina,  para  se  entregar  toda  ao  impulso 
das  circumstancias.  Tudo  deve  correr  da  penna  sem  esforço  e  com  fran- 
queza ;  mas  a  penna  deve  estar  de  antemão  bem  aparada,  e  disposta  para 
guardar  indefectivelmente  as  leis  discretas  do  decoro. 

Este  aparo  porém  e  disposição  ao  decoro  é  que  difficultosamente  se 
concordam  com  aquella  franqueza  e  descuido.  Assim  é  rara  a  excellencia 
neste  género!  E  verdadeiramente  eu  não  reconheço  aqui  modelos  acabados, 
senão  as  cartas  de  Cicero,  entre  os  antigos,  e  as  da  marqueza  de  Sevigné, 
entre  os  modernos.  Deixando  as  cartas  de  Sevigné,  absolutamente  incom- 
paráveis por  muitas  razões  ^ :  as  de  Cicero  correspondem  perfeitamente 


1  . . .  Quid  rides?  mutato  nomine,  de  te 
Fabula  narralur (Horat.) 

*  Sempre  ouvi,  que  correm  iucditas  varias  obras  de  Vieiía.  Seria  Imm  que  hon- 
rada diligencia  as  ajuntasse  e  as  fizesse  imprimir.  Mas  nesta  empresa  corre-se  muito 
risco  de  ter  por  sen  o  que  o  não  é :  e  para  o  evitar  requer-se  critica  bem  aguda  e  bem 
segura. 

5  Aquella  reunião  de  talentos  próprios  da  pessoa  e  do  sexo,  de  cultura  e  bom 


121 


ao  padrão  ideal,  que  nos  temos  formado.  Tudo  nellas  é  nalural,  tudo  cor- 
rente; mas  tudo  a  seu  modo  elegante,  e  sempre  apropriado.  Sente-se  que 
foram  escriptas  sem  estudo;  mas  por  um  homem  de  grande  engonlio,  de 
abalizada  sciencia,  e  consummado  na  arle  de  escrever.  Não  lhe  ficam  em 
muita  distancia  as  de  Antonie  Vieira.  O  decoro  constante,  a  especial  ele- 
gância dão-se  as  mãos  cora  a  franqueza  e  facilidade.  As  familiares  de 
Cicero  têm  graças  próprias,  léni  um  picante  agradável,  que  não  se  acham 
em  Vieira;  porém  de  Vieira  não  possuimos  carias,  que  se  possam  chamar 
familiares  no  rigor  da  palavra.  E  nas  que,  ou  pela  qualidade  das  pessoas, 
a  quem  se  dirigem,  ou  pela  substancia  dos  negócios,  são  mais  parecidas, 
não  sei  se  dados  os  descontos  dos  sujeitos,  que  escrevem,  e  das  circum- 
stancias,  poderá  notar-se  avultada  desegnaldade. 

Todos  os  portugueses  intendidos  as  tiveram  sempre  em  subida  esti- 
mação. Os  contemporâneos  as  procuravam  e  guardavam  cora  a  diligencia 
merecida  de  escrijilos  de  grande  preço.  Os  dos  primeiros  annos  do  sé- 
culo XVIII  propuzerara-se  a  honrar  e  instruir  a  nação,  daudo-as  a  ler  ao 
publico:  entrando  nesta  conta,  ou  tendo  na  estampa  a  parte  principal  o 
douto  conde  da  Ericeira;  que  na  veneração  ao  anctor  não  mostrou  em 
annos  muito  adiantados  menos  ardente  enlhusiasmo,  do  que  mostrara  na 
verdura  da  edade.  E  os  do  tempo  seguinte,  ainda  que  em  outros  muitos 
pontos  não  duvidassem  afastar-se  da  opinião  do  conde,  têm  aqui  sem  dis- 
crepância concordado  com  elle.  Do  que  o  conde  diz  no  prologo  do  primeiro 
volume  se  infere,  que  Vieira  escreveu  outras  cartas  menos  nattiraes  ou 
mais  artificiosas,  que  o  collector  se  guardou  de  publicar,  e  isto  era  bem 
de  presumir,  olhando  para  c  gosto  do  seu  tempo  e  para  a  sua  condes- 
cendência em  lhe  fazer  sacrifícios:  mas  por  um  lado,  eis  aqui  uma  prova 
de  que  Vieira  por  sacrificar  ao  corrupto  gosto  alheio  chegava  na  prática 
a  perverter  o  próprio;  e  por  outro  lado,  é  sempre  certo,  que  entregan- 
do-se  meramente  ao  seu  juizo,  escreveu  cartas  primorosas,  em  que  temos 


goslo,  de  trato  na  mais  urbana  c  delicada  de  todas  as  cortes,  do  eorrespondente  oní 
clrcumstancias  perfeitamente  as  mesmas,  de  peculiaridade  de  negocies;  a(|uella  reu- 
nião, digo,  foi  coisa  única,  e  a  collecção,  que  d'ella  procedeu,  também  o  devia  si-r:  não 
admilte  portanto  comparação.  Sejam  as  cartas  de  Cicero  estimadas  dos  curiosos  e 
amadores  do  estylo  são  e  próprio;  que  as  de  Sevigníí  hão  de  ser  sempre  lidas  com 
prazer  por  todos.  As  de  Vieira,  que  nas  virtudes  emparelham  as  de  Oirero,  ou  pouco 
menos,  também  ficam  abaixo  das  de  Sevigné  na  delicadeza  e  nas  graças. 


122 


os  portugueses,  na  presente  edição,  muito  avultado  numero  de  perfeitos 
exemplares  *. 

Maior  direito,  se  é  possível,  tèm  ainda  a  ser  reputados  [)erfoitos  exem- 
plares os  seus  opúsculos  pragmáticos.  A  conveniência  e  até  a  necessidade 
convidam  e  chamam  ao  acerto  nesta  qualidade  de  escriptos:  comludo  não 
são  vulgares  os  que  podem  satisfazer  um  gosto  bem  apurado  *.  Ou  os 
auctores  não  lém  acabada  noção  da  matéria ;  ou  não  tèm  capacidade  para 
a  compreliender  de  um  golpe  de  vista  no  seu  todo;  ou  lhes  falta  o  dom 
de  a  proporem  na  forma  menos  complicada  e  mais  luminosa;  ou  vencidos 
de  seus  ruins  hábitos  de  escrever,  empregam  também  neste  caso  o  estylo 
diffuso,  empeçado,  e  por  outras  varias  vias  impróprio.  Resultam  d'aqui 
necessari;imente  imperfeição  da  matéria  proposta,  enfraquecimento  das 
suas  razões,  difficuldade  de  a  intender,  tédio,  desgosto,  e  emlim  desprezo 
dos  escriptos,  que  a  oíTerecem:  e  é  claro  que  tal  resultado  è  o  contrario 
justamente  do  que  desejam  e  esperam  os  escriptores.  Vieira,  que  alcan- 
çava o  que  a(iui  convinha  melhor,  linha  também  a  maiiir  facilidade  de 
comprehender,  insigne  dom  de  propor  com  toda  a  luz,  e  a  força  de  ven- 
cer hábitos  de  escriptura  viciosos. 

É  bem  para  notar  com  effeito  em  todos  e  qualquer  d'cstes  opúsculos 
o  cabal  conhecimento  da  matéria,  a  justeza  e  disposição  das  partes,  a 
perspicuidade  do  todo,  e  o  judicioso  do  estylo,  em  que  são  lançados.  Ne- 
nhuma razão  de  serviço  escapa ;  nenhuma  duvida  deixa  de  se  encarar  e 
dissolver,  ou  ao  menos  especiosamente  illudir.  A  ordem,  por  discreta  e 
sempre  natural,  satisfaz  ao  leitor,  facilita  a  inlelligencia,  accrescenta  a 


*  A  presente  eiiição  tem  muitos  defeitos,  que  nasceram  da  diversidade  e  circnm- 
stancias  dos  editores.  Além  de  lhe  faltarem  as  cartas,  que  André  de  Barros  publicou 
na  sua  historia;  das  que  contém,  algumas  são  repetidas,  outras  tém  datas  erradas,  e 
(juasi  todas  estão  fora  da  ordem  do  tempo.  Um  português  zeloso  faria  muito  bom  ser- 
viço em  dar  outra  edição  menos  volumosa,  sem  deixar  de  ser  elegante,  e  isenta  dos 
defeitos  apontados.  Até  se  remediaria  com  isto  a  raridade  do  III  volume. 

2  Com  o  melhoramento  da  litteratura,  entre  nós,  foi  diminuindo  (o  que  parece 
estranho)  o  acerto  e  gravidade  dos  papeis  pragmáticos;  de  tal  sorte,  que  ijuantú  mais 
se  chegam  ao  fim  do  século  passado,  tanto  são  menos  estimáveis.  A  razão  é  porque  nos 
dêmos,  com  mais  boa  tenção  do  que  advertência,  á  imitação  nmito  servil  dos  estran- 
geiros, e  principalmente  franceses;  cujo  hom  gosto  no  mais  já  declinava,  e  neste  ponto 
estava  muito  estragado.  Em  todos  os  tempos  porém  papeis  d'este  género  tão  perfeitos 
como  os  de  Vieira  foram  raros. 


i23 


valentiíi.  Os  ornatos  excluem-se;  não  ha  digressões  ou  largas  ou  inúteis; 
não  ha  palavras  sobejas;  não  ha  em  summa  mais,  do  que  boa  razão,  ofTe- 
recida  com  propriedade,  perfeita  clareza  e  gravidade  '. 

O  talento,  a  actividade,  e  a  mesma  propensão,  novamente  o  dizemos, 
chamavam  António  Vieira  para  os  negócios,  e  em  particular  para  os  negó- 
cios políticos.  A  epocha,  em  que  elle  tocou  a  primeira  vez  as  praias  da 
Europa  e  de  Portugal,  llie  oíTerecia  grande  exercício,  e  promettia  um 
progresso,  que  suppostas  as  disposições  tão  accommodadas,  devia  ser 
agigantado.  Mas  uma  astúcia  dos  jesuítas,  ou  um  cntliusiasrao  desculiiavel 
na  puerícia,  ou  ambas  as  coisas  juntas,  o  torceram  da  própria  direcção;  a 
inconstância  e  singularidade,  ou  piedoso  capricho  o  desviaram  muito  mais. 
Empenhou-o  o  seu  Instituto  no  exercício  do  púlpito,  e  não  foi  consummado 
orador:  piedade  singular  o  levou  como  missionário  aos  sertões  do  Mara- 
nhão, 6  os  fructos  não  corresponderam  á  grandeza  dos  projectos  e  aos 
trabalhos  enormes  da  empresa.  Por  desvios  emllm  pouco  discretos  e  muito 
communs  á  condição  humana  (desvios,  digo,  da  conformação  e  inclinação 
natural),  sem  ser  grangeado  para  a  sã  eloquência,  foi  um  homem  perdido 
para  os  manejos  da  politica  e  para  a  composição  da  historia. 

Se  grande  penetração,  activa  diligencia,  conhecimento  dos  homens, 
uso  dos  negócios,  niethodo  e  arte  de  escrever  com  pureza  e  clareza  podem 
fazer  um  bom  historiador;  mal  podem  negar-se  em  António  Vieira  estas 
qualidades.  Concluída  a  paz  com  Castella  em  10(38,  achava-se  elle  na  ma- 
dureza da  edade,  no  uso  inteiro  das  principaes  potencias,  na  posse  de 
muitas  e  recônditas  noticias,  e  com  facilidade  e  meios  de  procurar  muitas 
mais.  A  empresa  era  digna  de  um  amante  da  pátria,  que  a  podia  louvar 
sem  incorrer  a  nota  de  apaixonado;  podia  ser  altamente  gloriosa  ao  escri- 
ptor;  e  nunca  podia  ser  recebida  com  indifíerença.  Todas  estas  conside- 
rações parece  que  deviam  estimular  Vieira  para  a  tomar  á  sua  conta,  e 
enriquecer  Portugal  com  uma  boa  historia  do  mais  curioso  e  notável 
acontecimento,  que  se  encontra  na  larga  duração  d'esla  monarchia.  Mas 
Vieira  vivia  desgotoso  e  enfermo;  pouco  depois  lhe  foi  necessário  dester- 
rar-se  da  pátria;  carecia  d'aquella  constância  c  paciência,  que  requer  uma 
obra  dilatada  e  grave :  e  também  pode  ser  que  este  [)ensamenlo.  se  acaso 


'  Vejam-se  os  papeis  a  ei-rei  D.  Pedro  sobre  o  casamento  de  sua  llllia.  a  carta  ao 
secretario  de  estado  sobre  o  modo  da  campanha  com  Castella,  que  é  a  I  do  II  vo- 
lume, etc.  ete. 


124 


lhe  occorreu,  fosse  rebatido  pelo  receio  (que  não  seria  certamente  imagi- 
nário) de  correr  muito  risco,  referindo  com  verdade  rigorosa  successos 
tão  frescos,  ou  de  se  expor  a  vivas  e  justas  censuras,  occultando,  ou  pin- 
tando com  cores  alheias  erros  e  defeitos,  que  não  podiam  ser  desconhe- 
cidos dos  contemporâneos  '. 

D.  Luiz  de  Menezes,  que  com  louvável  resolução  affrontou  as  difficul- 
dades,  sem  se  aterrar  cora  aqnelles  temores,  por  conhecimento  prático  da 
arte  da  guerra,  por  teslimunha  ocular  de  muitas  acções  militares,  e  até 
por  vogal  nos  conselhos,  que  as  dirigiram,  tinha  sobre  Vieira  grande 
vantagem  neste  ponto:  mas  em  tudo  o  mais  lhe  era  largamente  inferior. 
A  historia  perfeita  da  restauração  portuguesa  requeria  a  prática  militar  de 
D.  Luiz  de  Menezes,  e  os  talentos  e  arte  de  escrever  de  Vieira.  Mas  dado 
que  estes  meios  se  não  encontrem  unidos,  certamente  que  menos  mal 
suppriram  talentos  e  estyio  a  prática  da  guerra,  do  que  esta  snpprirá  os 
poderes  da  arte  e  dos  talentos.  Livio  não  foi  militar;  e  se  a  sua  historia, 
com  elle  ler  prática  de  guerra,  seria  mais  bem  acabada,  ainda  assim  é 
um  dos  mais  preciosos  monumentos  do  género  histórico.  Podia  e  devia 
esperar-se  muito  d'aquella  rara  sagacidade  de  Vieira  para  alcançar  moti- 
vos, para  seguir  manejos  occuitos,  para  avaliar  exactamente  caracteres.  E 
se  elie  não  tinha  de  Tácito  o  dom  de  pintar  com  traços  rápidos  e  enérgicos; 
tinha  seguramente  tanta  agudeza  como  elle,  e  egual  propensão  a  conside- 
rar por  todas  as  faces  os  objectos,  e  a  dar  maior  relevo  ás  menos  favo- 
ráveis. Não  disputo  agora  se  esta  propensão  dá,  ou  tira  maior  preço  ao 
engenho,  que  a  possue:  mas  não  ha  duvida  que  é  em  Tácito  uma  das  suas 
qualidades  mais  applaudidas,  e  que  é  uma  d'aquellas,  em  que  Vieira  lhe 
foi  muito  semelhante  ^. 

Se  Vieira  não  possuía  (e  é  certo  que  não  possuia)  aquella  marcha 
rápida  e  vigorosa  de  Tácito,  possuia  comtudo,  e  em  alto  grau,  o  dom  de 


•  Na  carta  ao  conde  da  Ericeira  (vol.  II,  n.°  CXII)  pondera  elle  as  difiBculdades  da 
historia  da  restauração  por  estas  palavras ;  E  a  empresa  e  resoliirão  de  V.  E.  foi  muito 
maior  que  todas,  pois  não  só  se  resolveu  V.  E.  a  escrever  historia  do  passado  aos  vindou- 
ros, senão  do  presente,  ou  quasi  presente  aos  que  ainda  vivem. 

*  O  costume  de  relevar  nas  pessoas  e  acções  o  lado  menos  favorável,  e  de  lhes 
suppôr  motivos  e  intentos  sinistros,  é  o  que  Vieira  qualifica  de  malirias  de  Tácito.  Taes 
malícias  não  são  o  menor  ingrediente,  que  enlra  no  composto  das  suas  virtudes  tão 
preconizadas;  porque  a  satyra  dos  outros  tem  para  o  coração  luunano  não  sei  que  pi- 
cante agradável.  Vieira  indisputavelmente  propendia  para  aquellas  malícias. 


125 


narrar  por  modo  claro,  corrente  e  grave,  que  afasia  Indo  o  que  é  inútil, 
que  refere  com  ordem,  sem  prolixidade,  sem  ambição  nos  termos  e  nos 
pensamentos.  iNão  será  esse  rio  apertado,  ipie  se  des[)enlia  por  catadupas, 
e  assombra  com  seu  jogo  impetuoso  e  por  sua  violência  os  espectadores; 
mas  é  a  corrente  limpida  e  socegada,  que  vae  dando  graça  e  alegria  aos 
campos,  ao  mesmo  passo  que  os  fertiliza.  Nos  seus  sermões  ha  varias 
narrações  curtas,  e  todas  ellas  estremadas  em  brevidade  intendida,  em 
disposição,  em  propriedade.  Estas  mesmas  virtudes  se  notam,  sem  mais 
differença  que  a  indispensável,  na  relação  da  missão  da  serra  de  Ibiapàba, 
e  na  carta  histórica,  escripla  no  anno  de  1660  a  el-rei  D.  Affonso  VI,  re. 
lalando  os  successos  das  missões  do  Maranhão,  e  especialmente  da  dos 
Nheengaibas.  Da  Historia  do  futuro,  não  ha  que  fallar.  porque  não  é  pro- 
priamente historia,  é  uma  advinhacão,  uma  conjectura,  uma  predicção 
atrevida :  que  se  bem  na  linguagem  e  eslylo  se  pôde  reputar  digna  de 
António  Vieira;  considerada  como  historia,  não  pôde  parecer  senão  uma 
extravagância,  antes  um  monstro,  de  que  não  é  acertado  tirar  prova  al- 
guma, ou  contra  ou  a  favor  dos  talentos  históricos  d'aquelle,  que  a  com- 
poz  •. 

Somos  emfim  chegados  ao  assumpto,  de  que  Vieira  colheu  a  maior 
celebridade ;  que  é  fundamento  muito  principal  do  seu  avultado  credito, 
e  em  que  comludo  os  seus  mais  ardentes  admiradores,  como  sejam  pes- 
soas de  inlendimento,  hão  de  soflVer  que  elle  seja  reprehendido  com  algum 
rigor.  Os  sermões  de  Vieira  foram  gal)ados,  foram  applaudidos  com  enthu- 
siasmo  pelos  portugueses  contemporâneos,  na  America,  no  reino  e  em 
Roma.  Se  a  propriedade  e  vehemencia  da  sua  pronunciação  entrava  por 
alguma  cousa  nas  admirações  dos  ouvintes,  se  era  um  dos  motivos,  que 
lhe  chamavam  os  concursos  innuraeraveis,  que  deram  occasião  a  se  fazer 
de  tamanho  alvoroço  qnasi  um  provérbio^ ;  também  c  verdade,  que  quando 
se  entregaram  á  mera  leitura  pela  imprensa,  o  prestigio  durou,  e  a  voz  do 


1  A  Historia  do  futuro,  não  é  senão  um  valicinio  argumentado  d'aquellas  victorias, 
conquistas,  felicidades  portuguesas,  (jue  Vieira  se  promettia  a  si  e  aos  outros  iio  seu 
decantado  quinto  império  do  mundo.  O  empenho  era  extravagante  e  temerário:  mas 
podia  nascer  de  enganado  amor  da  pátria. 

'  Como  quem  manda  lançar  tapete  de  madrugada  em  S.  Roque  para  ouvir  o  padre 
Vieira  :  diz  nas  suas  cartas  D.  Francisco  Mannel  allegado  no  prologo  do  diccionario  da 
Academia. 


126 


louvor  não  foi  menos  dilatada  ou  menos  encarecida.  Ainda  que  os  seus 
defeitos  agradavam  ás  orellias  mais  cultas  do  tempo,  certo  que  não  era 
possível,  que  meros  defeitos  ganhassem  votos  tão  geralmente  e  com  tanta 
constância :  nem  ha,  nos  séculos  mais  infelizes,  um  exemplo  de  louvor  tão 
aturado  e  tão  largo,  sem  que  alguma,  ou  algumas  virtudes  eminentes  sus- 
tentassem o  falso  luzimento  dos  vicios.  Que  será,  se  reflectirmos,  que  em 
tempos  de  gosto  menos  defeituoso  tem  sido  aquelle  louvor  pelos  juizes 
mais  competentes  e  mais  inteiros  conflrmado  em  grande  parte?  E  este  é 
innegavelmeute  o  caso ;  por  mais  que  a  paixão  o  tenha  querido  representar 
por  contrario  modo. 

Por  isso  mesmo  que  a  Vieira  faltava  a  imaginação  já  forte,  já  pintoresca 
e  formosa,  que  tudo  anima,  que  tudo  torna  interessante  ou  agradável, 
lambem  lhe  faltava,  das  disposições  para  a  consumniada  eloquência,  o  dom 
de  mover  os  aflectos  vehemenles,  de  tocar  com  brandura  o  coração,  de 
deleitar  a  phantasia  com  cores  esplendidas,  e  com  bem  oratória  cadencia 
o  ouvido  dos  circumstantes  '.  Em  tudo  isto  era  o  seu  talento  muito  inferior, 
como  já  insinuei,  ao  de  Marco  Tullio.  Não  ha  que  procurar  nas  orações  de 
Vieira  o  Ímpeto  das  Calilinarias,  o  pathetico  da  Miluniana,  a  brandura 
etílica  da  defesa  de  IJgario,  as  brilhantes  cores  da  de  Archias  poeta,  e 
finalmente  a  cadencia  numerosa  de  todas  as  do  orador  romano.  Na  força 
porém  de  convencer,  na  solercia  de  refutar,  na  variedade  e  verdade  das 
sentenças,  no  sal  de  grande  parte  das  facécias,  na  viveza  e  claridade  de 
estylo,  não  podia  ir  Cicero,  nem  certamente  foi,  adeante  de  Vieira,  E  pelo 
que  toca  a  viveza  de  estylo,  não  pude  negar-se,  que  a  do  ultimo  é  muito 
maior,  e  por  isso  mais  natural  e  mais  apta  para  produzir  illusão  e  ajudar 
o  convencimento,  que  a  do  prnneiro;  o  qual  de  ordinário  emprega  longos 
tractos  do  mesmo  teor,  que  agitam  pouco,  e  que  sabem  mais  á  composição 
e  estudo,  donde  lhes  procede  o  convencerem  menos.  É  certo  que  ou  a 
extravagância,  ou  a  exaggeração  das  empresas  de  Vieira,  diminuem  muito 
o  poder  da  sua  viveza  de  estylo  para  a  convicção ;  mas  deixamos  agora  a 
realidade  do  effeito,  e  consideramos  somente  a  faculdade  de  o  produzir. 

Ainda  nos  sermões,  a  que  cabe  maior  censura,  poucos  são  os  que  não 
offerecem  um  ou  outro  pedaço  insigne,  de  que  se  infere  com  magua  o 


1  Não  digo  que  ignorava  o  poder  da  oadencia  oratória,  ou  que  a  desprezava  de 
todo ;  mas  para  o  torneado  e  suave  de  períodos  mostra  pouco  empenho,  e  não  parece 
ter  muita  propensão. 


127 


que  podia  fazer,  mas  que  i)ão  fez.  ai|uelle  feliz  eiigeiílio.  Os  exórdios  peia 
maior  parte  ganham  atleugrio,  |iela  substancia  do  que  se  faz  esperar, 
declarada  com  grave  coiiiediíiieiito.  As  proposições  são  breves  e  claras, 
sem  o  atfectado,  que  desfigura  as  dos  melhores  pregadores  de  Fimiça,  e 
se  repara  ainda  mesmo  nas  de  Gicero'.  As  occasionaes  narrações  são  todas 
perfeitas  na  brevidade  completa,  na  clareza,  na  opporlunidade ;  nem  as 
das  Verrinas,  tão  celebradas  e  tão  merecedoras  de  o  serem,  as  excedem 
nestas  virtudes;  se  bem  que  deleitam  mais  pelo  brilho  maior  da  formosa 
imaginação  de  Tullio.  As  conclusões  dos  discursos  de  Vieira  são  quasi  todas 
gravíssimas  e  bem  próprias  da  mais  sisuda  concionaloria  christã. 

Cansado  o  leitor  e  indignado  de  empenhos  vãos,  de  provas  arrastadas, 
de  interpretações  violentas,  respira,  recreia-se  com  a  séria  e  arrazoada 
religião  dos  paragraphos  finaes,  e  diz  comsigo  mesmo :  porque  não  se  valeria 
em  tudo  do  sen  bom  jiiizo  este  orador  ?  Em  cei  tos  sermões  (porém  poucos) 
se  valeu  com  effeito  deste  bom  juizo  em  quasi  tudo.  Distitiguem-se  parti- 
cularmente os  chamados  de  moral ;  em  que  peneirado  da  importância  da 
matéria,  despreza  meios  impróprios,  e  emprega  o  seu  talento,  como  inten- 
dido pregoeiro  do  evangelho.  Se  neste  caso  mal  se  pode  ainda  tratar  de 
orador  cousummado,  merece  todavia  o  valioso  titulo  de  bom  orador;  e  se 
nestes  mesmos  fosse  mais  acabado  e  em  todos  os  outros  fosse  egual  o 
desenho  e  a  execução,  nada  leríamos,  nesta  parte,  que  invejar  ás  outras 
nações  modernas ;  antes  o  que  algumas  nos  ganhariam  na  pompa  e  esi)len- 
dor,  lhes  ganharíamos  na  solida  gravidade  da  eloquência. 

Mas  o  certo  é,  que  na  maioria  o  desenho  e  a  execução  diflerem  larga- 
mente d'esses  poucos  escolhidos.  Não  se  propõe  Vieira  de  ordinário  mais 
que  agudas  extravagâncias,  paradoxos  insensatos,  que  provocam  a  riso,  se 
Dão  é  à  indignação.  Os  seus  argumentos  por  consequência  necessária  não 
passam  de  empenhos  fúteis,  apenas  dissimulados  com  frágil  apparencia. 
A  Santa  Escriptura  é  obrigada,  é  forçada,  é  ariastada  a  servir  a  estas 
ridículas  empresas :  sem  attenção  ao  seu  verdadeiro  sentido,  sem  respeito 
á  sua  dignidade.  Quanto  os  doutores  de  menos  nome,  os  expositores  mais 


>  Como  orador  evangélico,  o  padru  Massilloii  me  parece  o  mais  completo  entre 
todos  os  de  França  Comtudii  nas  jiroposiçues  e  divinòes  6  lãu  medido,  tão  estmlado  e 
até  aíTectado,  quê  com  wsso  falta  qua-i  sempre  ao  natural,  e  muitas  vezes  níTende  a  gra- 
vidade. Mesmo  Cicero  nem  cm  todos  os  casos  propõe  sem  mostrar  um  certo  esforço. 
A  proposição  e  divisão  nem  sempre  vem  nascendo,  como  ciu  Vieira  ;  é  procurada,  é 
trazida  com  diligencia,  que  se  conhece  muito. 


128 


obscuros  disseram  com  maior  encarecimento  e  menos  ponderação,  elle' 
emprega  confiadamente,  se  o  reputa  de  serviço,  por  mais  que  repugne  á- 
discreção  e  ao  senso  commum.  A  liberdade  evangélica  degenera  muitas 
vezes  em  descomedimento  escandaloso*;  a  reprelionsão  em  sarcasmo;  a 
familiaridade  em  baixeza ;  o  sal  em  muito  rasteira  chocarrice.  Nos  dis- 
cursos do  género  epidictico  ou  demonstrativo,  nos  chamados  de  mysterio 
é,  quasi  sem  excepi^ão,  absurdo.  Nos  primeiros  a  mesma  arte  aconselha 
ostentação  de  engenho ;  mas  Vieira  ostenta  com  profusão  o  engenho  falso 
e  depravado  da  sua  edade.  Nos  segundos,  em  vez  de  suppôr  as  verdades 
relevantes  da  fé  e  emprehender  acerca  d'eilas  a  persuasão  ou  da  sua  reve- 
rencia, ou  do  nosso  proveitoso  agradecimento;  occupa-se  em  discretear 
sobre  a  sua  natureza,  em  se  remontar,  ou  querer  remontar  além  do  termo 
posto  á  capacidade  do  homem,  em  sonhos,  em  desatinos,  que  se  no  intento 
se  não  desviam  da  regra  da  crença,  nos  lermos  soam  comtudo  como  blas- 
phemias. 

O  mau  gosto  dos  ouvintes,  a  prática  geral  dos  oradores  portugueses 
contemporâneos,  foram  certamente  a  principal  causa  dos  mallogrados 
talentos  de  Vieira  i)ara  o  ministério  do  púlpito;  mas  não  foram  a  única. 
Como  o  reformou  (e  não  ha  duvida  que  o  reformou)  em  linguagem^,  pudera 
reforma-lo,  com  vagar  e  com  prudência,  ua  substancia  das  cousas.  Conhecia 
as  regras  de  Aristóteles  e  Quintiliano,  presava  os  escriptos  oratórios  de 
Cicero,  tratava  os  padres  de  eloquência  mais  judiciosa,  o  seu  bom  inten- 
dimento  por  si  só  era  capaz  de  o  dirigir  ao  melhor ;  porque  preferiu  a 


'  Liberdade  e  descomedimento  são  cousas  bem  diversas!  não  empregar  liberdade' 
discreta,  será  no  ministro  evangélico  falta  de  zelo,  ou  animo  apoucado  e  caplivo:  mas- 
usar  descomedimento,  é  falta  de  compostura,  é  destruir  em  vez  de  edificar.  Nesta  culpa 
cahe  Vieira  algumas  vezes.  Não  lhe  escapam  as  pessoas  mais  consideráveis  do  estado; 
que  castiga  e  fustiga  sem  contemplarão.  Não  se  podem  dizer  verdades  mais  duras  e 
menos  temperadas,  do  que  elle  as  diz  aos  magistrados,  aos  ministros,  e  até  aos  monar- 
chas.  Elle  o  confessa  (vol.  XII,  serm.  XIII,  n.''34C)  por  estas  palavras :  Principalmente 
em  mim,  que  tenho  dito  tantas  verdades,  e  com  tanta  liberdade,  e  a  tão  grandes  oitvidos  : 
e  não  é  mera  jactância. 

*  No  prologo  aos  sermões  dá  a  intender,  que  seguiu  aqui  trilho  differente  do  que 
se  usava;  e  que  foi  imitado.  No  sermão  I,  vol.  I,  §  5,  representa  os  miseráveis  abusos 
de  estylo,  que  corriam,  e  de  que  elle  na  verdade  se  absteve.  Sacrificou  sem  duvida  a 
outros  vicios  do  gosto  do  tempo;  mas  aos  que  tocavam  em  linguagem,  nada  ou  quasi 
nada. 


12Í) 


falsa  gloria  de  iuepcias,  acceilas  em  tempo  corrupio,  á  solida  e  durável 
de  trazer  o  ministério  evangélico  á  compostura  e  santa  eíBcacia,  de  que  o 
tinham  desviado  o  erro  e  a  ignorância  ? 

Mas  em  Vieira  á  nimia  condescendência  com  os  seus  maus  juizes,  á 
fraqueza  de  se  deslumbrar  com  presentes  e  desprezíveis  louvores,  ajun- 
tou-se  a  propensão  infeliz  á  singularidade,  e  cora  ella  o  desejo  de  parecer 
novo,  inaudito,  original.  Novo  seria  então  entre  nós,  pregando  religião  com 
decente  zelo  e  com  gravidade ;  mas  elle  queria  ser  novo  e  único  mesmo 
naquillo,  que  dos  seus  juizes  era  mais  estimado ;  e  não  teve  resolução  bas- 
tante para  supportar  alguma  indifferença,  para  solTrer  alguma  injusta  cen- 
sura, em  quanto  os  ânimos  se  não  inclinavam,  o  que  era  infallivel,  e  allei- 
çoavam  ao  methodo  próprio  de  inculcar  desde  a  cadeira  da  verdade  os 
dogmas  altíssimos  e  a  discreta  moral  do  clirislianismo.  Um  jesuíta  do  mesmo 
tempo,  talvez  com  menores  talentos,  posto  que  mais  ajudado  das  circum- 
stancias,  aspirou  e  conseguiu  a  gloria,  que  iufelizmente  deixou  escapar 
Vieira  ;  e  por  isso  os  intendidos  o  respeitam  agora  como  insigne  mestre  da 
arte,  em  quanto  no  orador  português  reconhecem  somente  a  possibilidade 
indisputável  de  repartir  aquella  gloria  com  o  padre  Bourdaloue '. 

Porém  se  por  um  extravio  (muito  para  lastimar !)  Vieira  não  deixou 
aos  seus  compatriotas  um  brazão  mais  honrado  da  oratória  christã ;  dei- 
xou-lhes  sempre,  além  dos  primorosos  exemplos  de  cartas  e  opúsculos 
pragmáticos,  um  monumento  admirável  da  própria  linguagem  no  corpo 
completo  das  suas  oliras.  Se  o  uso  da  nossa  lingua  se  perder,  e  com  elle 
por  acaso  acabarem  todos  os  nossos  escriptos,  que  não  são  os  Lusíadas  e 
as  obras  de  Vieira ;  o  português,  quer  no  estylo  de  prosa,  quer  no  poé- 
tico, ainda  viverá  na  sua  perfeita  indole  nativa,  na  sua  riquíssima  copia  e 
louçania. 

Será  talvez  opinião  temerária,  mas  a  minha  é,  que  nenhum  povo  pos- 
suiu jamais  nas  obras  de  um  só  homem  tão  rico  e  tão  escolhido  thesouro 
da  lingua  própria,  como  nós  possuímos  nas  d'este  notável  jesuíta  2.  Elle 
empregou  a  linguagem  culta  e  publica,  e  também  a  familiar  e  domestica ; 
fallou  a  dos  negócios,  a  da  cortezía,  a  das  artes,  a  dos  provérbios :  e  como 


»  Luiz  Bourdaloue,  que  nasceu  em  1632,  fallcceu  em  1704,  sele  amios  depois  de 
Vieira. 

'  Esta  opinião  parece  muito  arrriscada ;  eu  o  conlieço.  Mas  quem  ler  com  ponde- 
ração todas  as  obras  de  Vieira,  talvez  que  depois  lhe  ache  menus  temeridade. 
9 


130 


tratou  tantos  e  tão  diversos  assumptos,  pôde  ailirmar-se,  1'òra  de  hyper- 
bole,  que  em  suas  composições  a  resiuniu  toda  inteira  com  felicidade  sin- 
gular. Dir-se-iia :  Basta  logo  por  mestre  clássico  de  Portugal  neste  ponto  im- 
portante o  padre  António  Vieira!  E  porque  não?...'  muito  mais  attenden- 
do-se,  que  á  copia  e  variedade  uniu  todos  os  dotes,  que  podem  tornar  uma 
lingua  no  seu  género  perfeita. 

Tudo  é  casto  nos  termos,  tudo  o  é  na  phrase :  tudo  é  próprio,  tudo  é 
claro,  e  antes  sem  excepção  de  logar  a  mesma  clareza.  Ainda  quando  é 
mais  levantado,  não  ha  tão  completo  ideota,  (jue  não  alcance  o  seu  sentido'^. 
Os  auctores  do  diccionario  da  Academia  louvam  a  sua  parcimonia  na  inno- 
vação  de  vocábulos;  e  com  justiça,  porque  são  poucos  innovados  com  tão 
bom  juizo,  que  chegam  a  não  se  estranhar  como  innovados.  Porém  quizera 
eu,  que  insistissem  mais  no  seu  discreto  uso  de  vozes  e  formidas  antigas. 
O  archaismo  é  tentação  mais  perigosa  para  os  curiosos  de  linguagem,  do 
que  é  o  seu  contrario ;  e  dobrava  a  tentação  para  um  amador  da  singula- 
ridade. Mas  resoluto  á  perfeição  neste  ponto,  soube  resistir  a  todas  as 
tentações :  e  se  fugiu  egualmente  do  alheio,  conteve-se  com  mais  valor  do 
antiquado ^  A  sua  linguagem  era  a  do  seu  tempo  e  a  da  sua  nação;  e 
como  estava  já  muito  depurada,  e  tomou  nas  suas  mãos  os  últimos  qui- 
lates, é  e  será  a  verdadeira  linguagem  portuguesa  em  todos  os  tempos; 
de  tal  sorte  que  quanto  se  afastar  deste  padrão,  tanto  fugirá  do  seu  puro 
natural,  da  sua  sincera  formosura.  O  mesmo  bom  discurso,  que  o  levava 
a  escolher  os  termos  com  pureza,  o  levava  a  construi-los  segundo  as  regras 
próprias  ou  com  correcção.  Apenas  uma  vez  ou  outra  me  parece  menos 
correcto.  E  digo  me  parece,  porque  me  não  atrevo  a  censurai'  um  mestre 
tão  respeitável  sem  grandes  precates  de  desconfiança. 


'  Em  pontos  de  estylo  não  deve,  nem  pôde  ser  único ;  mas  nos  de  linguagem,  não 
receio  dizer  que  sim.  Até  o  que  se  adtiuirir  na  lição  de  outros,  se  deve  adeantar  e 
apurar  na  d'eile. 

-  Não  llie  pôde  ser  disputado,  nem  sei  que  se  llie  dispute  este  merecimento.  E 
tanto  sem  excepção,  é  tão  perfeito,  mesmo  nas  matérias  mais  subidas  e  nos  empenhos 
mais  refinados  do  auctor,  que  por  todas  estas  considerações  cliega  a  ser  sublime. 

3  Vieira  nesta  parle  tira  toda  a  desculpa  aos  portugueses  modernos,  que  ou  erra- 
damente julgam  que  se  não  deve  fallar  e  escrever  senão  como  em  tempos  d'el-rei 
D.  Manuel,  ou  de  propósito  querem  com  este  exótico  hallucinar  leitores  vulgares.  Em- 
bora saiba  Varrão  como  fallavam  os  antigos  cethegos;  mas  Horácio  escreve  na  lingua- 
gem do  tempo  d(;  Augusto.  Este  poeta  judiciosissimo  assim  o  praticou;  Ijem  que  em 
poesia  se  admitte  mais  algum  desvio. 


131 


O  porliiguès  terá  mais  brandura  e  qnasi  egiial  clareza  na  peniia  de 
fr.  Luiz  de  Sousa,  será  mais  ardente  na  de  fr.  Tliomé  de  Jesus;  mas  em 
ambos  falta  muito  mais  aos  ápices  da  correcção  do  qne  em  Vieira.  Ambos 
elles  liniiam  mais  disposições  para  a  eloipiencia,  que  affeiçoa,  e  que  arre- 
bata; mas  ambos  possuíam  muito  menos  a  sua  iingna,  e  a  empregaram 
com  muito  menos  regulaiidade.  E  se  ella  se  recusa  em  Vieira  á  doçura 
de  Sousa  e  ao  impetn  e  fogo  de  fr.  Tliomé  de  Jesus;  tambora  se  presta  a 
declarar  o  fino  e  delicado  por  modo  feliz,  em  que  nenhum  dos  nossos 
escriptores  o  emparelha.  Leiam-se,  ponderem-se  os  dois  sermões,  nesta 
parte  verdadeiramente  admiráveis,  das  exéquias  de  D.  Maria  de  Athayde 
e  do  Mandato  pregado  em  16io,  e  quem  ler  ficará  convencido  de  que  o 
auctor  alcançou  perfeitamente,  e  perfeitamente  transpoz  para  a  nossa  lín- 
gua, a  concisão  aguda  e  a  maneira  engenhosa  de  Séneca  '.  Vieira  prezava 
muito  os  escriptos  de  Séneca,  e  tinha  com  elle  grande  conformidade  no. 
intendimenlo:  e  se  o  seu  gosto  era  praticamente  ainda  mais  corrupio,  era 
todavia  sempre  mais  claro,  e  sabia-o  imitar  bem  nas  suas  particulares  vir- 
tudes. 

Algumas  vozes  ostenta  Vieira  o  seu  proftmdo  e  talvez  singular  conhe- 
cimento da  lingua  portuguesa  -.  Mas  não  é  um  mercante  fraudulento,  que 
inculque  os  cabedaes,  que  não  possue,  para  ad(]uirir  créditos,  que  não 
merece  completamente.  È  em  todo  o  rigor  aquelle,  que  se  inculca ;  senhor 
opulentíssimo  do  thesouro  mais  copioso,  com  perfeita  discreção  para  o 
empregar  muito  a  propósito.  Conhecia  as  palavras,  o  phraseado  das  artes, 
dos  oíTicios.  das  profissões,  de  que  parece  que  devia  andar  mais  distaute; 
e  fallava  acerca  delias  com  a  mesma  propriedade  e  acerto,  e  com  mais 
elegância  do  que  os  próprios  professores! 

Onde  grangeou,  que  tempo  teve  para  accumular  laes  riquezas,  um 
homem  que  passou  os  primeiros  trinta  ânuos  fora  do  reino,  que  se  diver- 
tiu no  restante  da  vida  para  tão  varias  occupações?  Que  elle  estudou  a 
lingua,  e  muito,  não  pôde  haver  duvida :  porque  tal  profundidade,  noticia 


»  A  oração  fuuebre  de  D.  Maria  de  Atlialde  é  XIII  entre  os  sermões  do  vol.  IV.  o 
do  Mandato  é  XIII  do  vol.  II.  O  ultimo  no  seu  jieneio  ('■  peça  rara,  merecedora  de  se 
ler  muitas  vezes,  e  até  de  se  entregar  á  memoria. 

*  Veja-se  a  estatua  de  murta  no  sermão  XII  do  vol.  Ill,  n  "  ."iOâ,  u  sermão  XI  do 
vol.  II,  o  II  do  vol.  YII  n.°  78,  etc.  etc.  Um  escriptor.  lendo  dito  que  nos  empn^gos 
mais  alheios  falia  com  propriedade,  accrescenia  fum  particular  energia,  mas  com 
justeza,  e  até  nus  de  jogo  (não  se  pôde  encarecer  mais)  como  se  fura  tuful. 


132 


tão  completa  e  Ião  exquisita  não  se  podem  liaver  sem  grande  estudo.  Mas 
quando  se  empenhou  neste  estudo?  Os  primeiros  sermões  já  não  merecem 
aqui  muito  reparo;  os  que  pregou  em  cliegando  da  America,  são  pela 
maior  parte  perfeitos  em  linguagem.  Não  foi  pois  no  reino,  não  foi  no 
uso  da  côrle,  não  foi  com  leitura  vagarosa  em  annos  de  muito  discerni- 
mento. Resta  por  tanto  appellar  para  a  promplidão  antecipada  e  pasmosa, 
com  que  observava  e  meditava  quasi  sem  espaço  de  tempo;  para  a  pro- 
pensão insigne,  que  lhe  facilitava  o  aprehender  rapidamente  as  mais  subtis 
dilTerenças,  as  mais  miúdas  particularidades,  as  mais  finas  delicadezas,  e 
até  os  mais  impercepliveis  graus  de  decoro  da  locução ;  e  emfim  para  a 
memoria  firmíssima,  que  conservava  com  escrupulosa  fidelidade,  ainda  o 
adquirido  cora  pequeno  ou  quasi  nenhum  esforço. 

Não  será  bem  que  nos  esqueça,  já  que  falíamos  em  decoro  de  locução, 
o  discreto  esmero,  cora  que  o  guardava  Vieira,  o  cuidado,  com  que  afas- 
tava tudo  o  que  era  mal  soante  ou  abjecto,  a  repugnância,  que  mostrava 
aos  termos,  que  podiam  offender  o  ouvido  e  excitar  ao  mesmo  ten)po 
idéas  menos  delicadas.  D"esta  repugnância  é  notável  exemplo  o  enojo,  com 
que  elle  mesrao  confessa  em  um  dos  seus  sermões,  que  evita  o  nome 
vulgar  do  iraan  *.  As  coisas  serão  ás  vezes  muito  familiares,  muito  miúdas 
e  até  rasteiras ;  mas  a  linguagem,  sem  ser  desproporcionada  ou  imprópria, 
nunca  é  senão  a  das  pessoas  ingénuas.  E  se  de  uma  ou  de  outra  palavra 
dos  seus  escriplos  se  pôde  fazer  hoje  diverso  juízo,  a  eiiuivocação  estará 
em  se  avaliar  pelos  tempos  presentes  a  policia  ou  falta  d'ella,  que  lhe 
competia  nos  lerapos  do  auctor  ^.  Mudam  com  os  annos  estes  accidentes, 
mudam  com  os  costumes ;  c  o  que  em  uma  edade  não  é  senão  singelo,  em 
outra  parece  descomposto  e  pôde  ser  que  torpe.  Em  sumraa,  que  se  a 
nossa  lingua,  como  agradecida  e  em  certo  modo  desvanecida  de  se  ver 
tratada  por  quem  a  sabia  aperfeiçoar  e  honrar,  se  prestava  com  docilidade 
e  condescendência  grata  a  quasi  tudo  que  delia  requeria  Vieira,  da  sua 
parte  Vieira,  pelo  desvelo,  pela  estimação  e  pelo  mais  fino  respeito,  plena- 
mente lhe  merecia  tão  primorosa  complacência. 


1  Foliando  Plinio  da  Magnete,  ou  Calanúta,  ou  pedra  iman  {que  me  não  cabe  na 
bocca  o  nome  do  nosso  ruhjoj  descreve,  olc,  vol.  111,  serni.  III,  n.°  86.  No  sermão  XIV 
do  vol.  VII,  n."  499  no  IV  do  vol.  XI!,  ii."  H8,  ha  outros  dois  cxcellenles  exemplos 
d'esta  delicadeza,  qi.e  o  auctor  chama  yovíííoí-  ou  cortesia  da  lingua. 

2  Podem  servir  de  exemplo  análogo  as  palavras  Diabo  e  Inferno,  de  que  Vieira 
faz  uso  muito  frequente;  e  que,  vista  a  sua  discrcção  em  guardar  o  respectivo  decoro^ 
empregaria  hoje  com  muito  maior  soiíriedade. 


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Mas  tempo  é  de  darmos  fim  a  esta  memoria,  em  tjue  ao  padre  António 
Vieira,  assim  no  mal,  como  uo  bem,  só  tratámos  de  fazer  justiça.  O  iesti- 
munho  da  liistoria  deve  ser  incorrupto;  a  critica  sã  rejeita  egualmeule 
satyra  e  adulação. 

Composto  raro  de  imperfeições  e  de  prendas  insignes,  serviu  António 
Vieira  muito  á  religião,  e  não  serviu  menos  á  pátria;  mas  poderia  servir 
a  ambas  ainda  melhor.  A  pátria,  se  o  louvou  em  seu  tempo  com  demasia, 
também  o  tratou  em  alguns  casos  com  desmerecidas  esquivanças.  O  seu 
zelo  politico  foi  recompensado  com  injustos  desterros;  os  cárceres  da  In- 
quisição de  Coimbra  foram  pena  sobejamente  severa  das  suas  singulari- 
dades ;  as  suas  prendas  e  serviços  poderam  ser  mais  attendidos  e  mais 
bem  satisfeitos  por  el-rei  D.  Pedro  II.  A  posteridade,  mais  cega  ainda  por 
ódio,  doestou  as  suas  egrégias  qualidades,  vilipendiou  os  seus  talentos, 
calumniou  as  suas  intenções,  escureceu  as  suas  obras,  imputou-Ilie  aleivo- 
samente culpas,  perturbou,  por  ultimo,  e  affroutou  com  furor  bárbaro  as 
suas  cinzas.  Para  que  vejam  os  homens  (quero  dizé-lo,  como  Vieira  o  disse 
em  substancia  por  varias  vezes),  para  que  vejam  os  homens,  que  o  único 
motivo  certo,  mas  por  si  só  superabundante,  para  se  encaminharem  ao 
bem,  e  o  porem  em  prática,  está  nas  approvações  deliciosas  da  própria 
consciência,  e  nas  esperanças  da  justiça  invariável  d'aquelle,  que  na  esti- 
mação do  merecimento  não  pode  ter  erro,  nem  pode  em  o  remunerar 
padecer  defeito. 


* 


Preço  500  réis 


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BX  Lobo,    Francisco  Alexandre 
4.705  Discurso  histórico  e 

V55L6  crítico 
1897 


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